Coronavírus: o que caracteriza uma emergência internacional

Declaração da Organização Mundial de Saúde se deu após vírus ser transmitido entre pessoas que não estiveram na China. Alerta do tipo ocorreu em 2016 devido ao zika

Devido à disseminação do coronavírus chinês fora de seu território de origem, a OMS (Organização Mundial de Saúde) classificou na quinta-feira (30) o surto da doença como emergência de saúde pública de interesse internacional.

A entidade havia considerado prematura uma declaração do tipo em 23 de janeiro. Agora, convocou novamente seu comitê de emergência e mudou de posicionamento pelo fato de o vírus ter chegado a outros 18 países. Na Alemanha, Japão, Vietnã e Estados Unidos, o vírus foi detectado em pessoas que não estiveram na China. Isso significa que houve transmissão interna nesses lugares, o que preocupou a OMS.

Os primeiros casos apareceram no final de dezembro de 2019 em Wuhan, cidade com 11 milhões de habitantes na China. No início de janeiro, o governo chinês anunciou a descoberta de um novo tipo de coronavírus, o 2019-nCoV, cuja família é conhecida desde os anos 1960. Os tipos mais comuns que circulam entre humanos causam sintomas de gripe comum.

Dois dias depois de anunciar a descoberta, a China compartilhou a sequência genética do vírus, numa atitude que foi elogiada pela rapidez. O país já tinha sido criticado por esconder informações durante a epidemia de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2003, causada por outro tipo de coronavírus. Na ocasião, mais de 8.000 pessoas foram infectadas e outras 774 morreram.

9.790

casos de infecção pelo novo coronavírus foram confirmados até 30 de janeiro, segundo a OMS e o governo chinês

213

pessoas morreram em decorrência do novo vírus, todas na China

Do total de pessoas infectadas no mundo, 98% delas estão na China, indicando que o nível de contaminação em outros países ainda é baixo.

A OMS disse considerar que não havia necessidade de impor medidas para restringir viagens e comércio internacionais. O órgão faz apenas recomendações sobre viagens, quarentena, triagem e tratamento, além de estabelecer protocolos básicos de ação. Alguns países, como o Brasil, já vinham desaconselhando viagens para o país asiático.

“Embora esse número [de pessoas infectadas em outros países] seja relativamente pequeno em comparação com o registrado na China, devemos agir juntos agora para limitar uma futura propagação. Não sabemos o tipo de dano que esse novo coronavírus pode causar se ele se espalhar por um país com um sistema de saúde mais frágil. Precisamos agir agora para ajudar os países a se preparar para essa possibilidade. Por todas essas razões, declaro emergência de saúde pública de interesse internacional”

Tedros Adhanom Ghebreyesus

diretor-geral da Organização Mundial de Saúde

As infecções têm sido observadas especialmente em países do hemisfério norte, que estão no inverno. Em entrevista ao Nexo, o virologista Edison Durigon, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, disse que a disseminação em regiões de clima quente é mais difícil. Por isso, segundo o professor, as chances de uma epidemia no Brasil, no momento, são pequenas.

O que é a emergência internacional

O conceito de emergência de saúde pública de interesse internacional surgiu em 2005 com a aprovação, em assembléia da OMS, do Regulamento Sanitário Internacional. Esse instrumento jurídico que envolve 196 países tem como objetivo ajudá-los a “prevenir, proteger, controlar e dar uma resposta de saúde pública contra a propagação internacional de doenças”.

As medidas a serem tomadas devem buscar não interferir no tráfego e no comércio internacionais. O medo do impacto da crise na economia global e o anúncio dos Estados Unidos da primeira transmissão interna da infecção fizeram as bolsas fecharem em queda na quinta-feira (30). A situação tende a afetar principalmente empresas que dependem do turismo e companhias aéreas.

Declarar emergência de saúde global é raro e não tem força de lei. Quando isso acontece, significa que houve “um evento extraordinário que pode constituir um risco de saúde pública a outros países por meio da disseminação de doenças e que potencialmente requer uma resposta internacional coordenada”.

A emergência, portanto, ocorre em situações graves, repentinas, incomuns e inesperadas, que têm implicação na saúde pública para além das fronteiras do país afetado e requer imediata ação internacional.

As decisões tomadas para combater as doenças ficam a cargo do governo de cada país. São eles que decidem se fecham fronteiras (o que a Rússia decidiu fazer em relação à China) ou cancelam voos, por exemplo.

Com o anúncio de emergência em relação ao coronavírus chinês, foi a sexta vez desde 2005 em que a OMS declara uma situação do tipo.

As anteriores foram:

  • 2009: gripe H1N1
  • 2014: poliomielite
  • 2014: ebola
  • 2016: zika vírus
  • 2019: ebola

Os casos suspeitos no Brasil

Até a quinta-feira (30), o país não tinha nenhum caso confirmado do coronavírus chinês, embora nove casos fossem considerados suspeitos e aguardassem o resultado de exames para serem descartados ou não.

Os pacientes estão sendo examinados em seis estados: São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Ceará. Eles estiveram na China.

O Ministério da Saúde montou um centro de operações de emergência, formado por especialistas, para monitorar possíveis casos. Há avisos sonoros nos aeroportos. O governo trabalha com o nível 2 de alerta.

Os graus de alerta usados no país

Nível 1

É um alerta inicial, que tem como objetivo preparar a rede de saúde.

Nível 2

Indica risco iminente de entrada do vírus no país, devido à chegada de pessoas vindas da região onde ele se originou. É aqui em que o país se encontra desde 28 de janeiro.

Nível 3

É o de “emergência em saúde pública”, que pode acontecer se o primeiro caso de coronavírus for confirmado.

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