O clima do Brasil e a transmissão do coronavírus, segundo este professor

O ‘Nexo’ falou com o virologista e professor da USP Edison Durigon sobre a relação entre a propagação da doença e o calor durante uma pandemia de um novo vírus

    NOTA DE ESCLARECIMENTO: A entrevista com o professor da USP Edison Luiz Durigon foi publicada originalmente em 29 de janeiro de 2020, antes do primeiro registro de caso do novo coronavírus no Brasil. Em nova entrevista ao 'Nexo', em 16 de março de 2020, Durigon afirmou que, embora o clima dificulte a circulação do novo coronavírus no país, ela pode ocorrer pelo fato de o vírus Sars-Cov-2, que causa a doença covid-19, ser novo e não encontrar barreira imunológica na população. "Ninguém tem anticorpo ainda. Por isso, ele vai ter uma curva [de expansão] muito mais exponencial do que os outros vírus, mesmo não tendo o mesmo poder de infecção que teria no inverno, com clima seco, em que a transmissão por gotículas [de saliva] é mais fácil". Segundo ele, é a primeira experiência de uma pandemia de coronavírus em clima tropical. O professor aponta que a aglomeração das grandes cidades também contribui para a propagação da doença. "Mesmo que ele se transmita mal no calor, ele vai infectar muita gente no metrô, com milhões de pessoas." Durigon é doutor em microbiologia e consultor da OMS (Organização Mundial de Saúde) em biossegurança desde 2004. Entre 2010 e 2012, coordenou projeto de pesquisa sobre a circulação de outros tipos de coronavírus em São Paulo. Abaixo, a entrevista original, conduzida em 29 de janeiro de 2020, antes da chegada do coronavírus ao Brasil.

    O Ministério da Saúde informou na quarta-feira (29) que o Brasil tinha, até aquela data, nove casos suspeitos de pessoas infectadas pelo coronavírus chinês. Os pacientes estavam sendo examinados em seis estados, sendo três deles em São Paulo e dois em Santa Catarina. Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Ceará tinham um caso suspeito cada um.

    Segundo o secretário de vigilância em saúde, Wanderson Oliveira, nenhuma das suspeitas havia sido confirmada até a data. O ministério ainda aguardava o resultado de exames.

    Os primeiros casos de pessoas infectadas com o novo tipo de coronavírus foram detectados no final de dezembro de 2019, em Wuhan, cidade com 11 milhões de habitantes na China, entre pessoas que frequentavam um mercado local que vende animais silvestres.

    Em 9 de janeiro de 2020, o governo chinês anunciou a descoberta de um novo tipo de vírus. Dois dias depois, compartilhou sua sequência genética, numa atitude que foi elogiada pela rapidez. A China já tinha sido criticada por esconder informações durante a epidemia de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2003, causada por outro tipo de coronavírus, responsável por infectar mais de 8.000 pessoas e matar outras 774.

    Até a noite de quarta-feira (29), já haviam sido confirmados 6.165 casos de infecção do novo tipo de coronavírus, a grande maioria deles na própria China. Pelo menos 133 pessoas morreram no país.

    A família do coronavírus é conhecida desde os anos 1960 e causa infecções respiratórias em seres humanos e animais. A maioria dos casos resulta em doenças leves e moderadas, como resfriados. Quase toda pessoa acaba infectada por algum tipo de coronavírus ao longo da vida.

    O novo tipo observado na China veio de morcegos, provavelmente vendidos no mercado em Wuhan. Ele causa sintomas comuns aos outros tipos, como febre, tosse, dor muscular e cansaço, mas também pode dar início a uma pneumonia severa e levar à morte.

    No Brasil, o Ministério da Saúde montou um centro de operações de emergência, formado por especialistas, para monitorar possíveis casos. Há também vigilância e avisos sonoros nos aeroportos. Desde terça-feira (28), o governo trabalha no nível 2 de alerta, que indica risco iminente de entrada do vírus no país, devido à chegada de pessoas vindas da China. Por isso, o ministério tem desaconselhado viagens ao país asiático.

    O nível 1 é um alerta inicial, que tem como objetivo preparar a rede de saúde. Já o nível 3 é de “emergência em saúde pública”, que pode acontecer se o primeiro caso de coronavírus no Brasil for confirmado.

    Uma análise sobre o coronavírus

    Para entender as possibilidades de o coronavírus se espalhar pelo Brasil, o Nexo conversou com o especialista em biossegurança Edison Durigon, que é professor titular de virologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Segundo ele, o clima quente do país dificulta a transmissão.

    O que esse vírus tem de diferente dos demais coronavírus?

    Edison Durigon Os quatro tipos de coronavírus que circulam entre humanos e que infectam principalmente crianças, mas também adultos, são responsáveis por resfriados e gripes leves. Eles não são muito graves. Esse novo coronavírus da China vem do morcego. Dos sete tipos existentes de coronavírus, pelo menos dois, que são o beta e o alfa, infectam morcegos, e o morcego atua quase como um reservatório desse vírus. Não fica doente, mas transmite o vírus. Pode passar para outros mamíferos e inclusive para nós, humanos, e foi isso o que aconteceu na China. O surto começou num mercado que vendia animais silvestres, inclusive morcegos. A transmissão desse vírus por morcego se dá pelas fezes. Elas criam uma quantidade grande de vírus, com aerossol [suspensão de partículas no ar] que as pessoas inalam, ou manipulam e pegam o vírus. É um vírus novo, mas a família dos coronavírus já era conhecida. Pela primeira vez estamos vendo esse novo tipo de vírus passar para os humanos.

    Por que isso aconteceu só agora?

    Edison Durigon É uma coincidência da natureza. Esse vírus já deveria existir há bastante tempo nos morcegos. Qual a chance de um morcego infectar um humano? É muito pequena. Morcegos vivem em cavernas, em árvores. Como a transmissão acontece pelas fezes, e tem que ser em quantidade grande, o contato de humanos com fezes de morcego é muito raro. Agora, imagine um mercado que deve capturar morcegos e vender. Esses morcegos ficam em gaiolas. A quantidade de fezes passa a ser grande. Provavelmente o que aconteceu foi que um morcego ou uma colônia deles estava infectada com esse coronavírus. As pessoas, ao manipularem essas fezes, até para limpar a gaiola, já que os morcegos são vendidos como alimento, se infectaram no mercado. Um começou a passar para o outro e aí foi. A infecção do vírus para o homem depende de que as células humanas tenham um receptor para esse vírus. O que é esse receptor? É uma proteína que o vírus reconhece. Quando essa proteína que o vírus reconhece no morcego é o mesmo de um humano, ele passa a transmitir para humanos.

    O que significa ter um coeficiente de viralidade alto? A infecção é mais grave que a dos outros?

    Edison Durigon O coeficiente de viralidade é a rapidez com que um vírus passa de um hospedeiro para o outro. Entre os coronavírus, para passar infecção em humanos, a taxa de infecção dele é muito alta. Mas há vírus com taxa de infecção muito maior, como o sarampo, por exemplo. Com o sarampo, um indivíduo infecta dez pessoas por aerossol. Esse subtipo da China é mais grave que os coronavírus humanos, desses quatro que já circulam, porque ele dá uma pneumonia severa. Tanto é que se olharmos a mortalidade, quem está morrendo desse coronavírus? Geralmente são os pacientes idosos ou que têm alguma doença de base. Um paciente imunologicamente hígido, jovem, é mais difícil ir a óbito por causa de um coronavírus. O que mata na verdade é a pneumonia. Para uma pessoa idosa, a pneumonia é fatal.

    Qual o risco de uma epidemia desse tipo no Brasil?

    Edison Durigon É uma pergunta difícil, mas esse vírus é tipicamente de clima frio. Ele transmite rapidamente em clima frio. A gente sabe disso porque, em 2003, houve uma epidemia de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) causada por um outro coronavírus, também vindo da China, na mesma época do ano, e causou uma pneumonia bastante grave, uma mortalidade maior do que essa. A taxa de infecção era menor, mas a mortalidade era mais alta, e morriam indivíduos jovens. Isso se espalhou por países frios, para quem estava no inverno, nos Estados Unidos e na Europa. Chegou à Austrália porque eles têm um contato muito próximo com a China. Mas nunca chegou ao Brasil, à América do Sul ou à África, por exemplo. Por quê? Nós estamos no verão nessa época. Esse vírus não se propaga bem em clima quente. Agora, aconteceu a mesma coisa. Começou na China, no inverno, está se espalhando em países que estão no inverno. Talvez a gente tenha um caso ou outro aqui, importado. O indivíduo que veio da China ou de algum país em que se infectou, vai ser tratado aqui, internado aqui. Mas acho que o risco de uma epidemia acontecer aqui, agora, ainda é baixa, por conta do clima. A transmissão desse vírus em clima quente não é boa, e também há a radiação do sol. Ele é muito sensível à luz ultravioleta.

    Quais as medidas mais corretas para controlá-lo?

    Edison Durigon É um vírus que não tem vacina. Não adianta fazer como se faz com o sarampo ou com a gripe e vacinar as pessoas. Também não tem tratamento. Então a melhor maneira de se fazer isso é ter o diagnóstico rápido, para saber que é o vírus, e isolar essas pessoas. O isolamento é fundamental. Colocar as pessoas contactantes em quarentena é fundamental para segurar a doença onde está acontecendo. A China está dando um exemplo dessa vez. Porque com a Sars, o país perdeu muito dinheiro, os países com quem mantinham comércio suspenderam esse comércio. Eles só foram saber da doença depois de muito tempo, já que a China não tomou as providências na época. Isso faz mais de 15 anos. Agora, a China já tomou as providências, alertou o mundo todo e já começaram as quarentenas. E, na época da Sars, só se resolveu quando adotaram as quarentenas.

    O Brasil está agindo corretamente para controlar a entrada aqui?

    Edison Durigon O país está fazendo o que dá pra fazer. Por quê? Não tem o que fazer. Em São Paulo entra uma média de 250 pessoas vindas da China, em voos que passam por diferentes localidades. É muito difícil controlar isso. Nos Estados Unidos, em alguns aeroportos com passageiros chegando das cidades mais afetadas, quando eles descem, fazem uma triagem para ver quem tem febre. Se tiver algum sintoma de início de doença, o indivíduo é isolado. Mas são alguns aeroportos só, de alguns voos. É muito difícil colocar uma barreira. Algumas pessoas vão começar a adoecer apenas ao chegarem aqui. Alguém pode se infectar na China, pegar o voo, chegar a São Paulo, em meio a 20 milhões de habitantes, e começar a ficar doente aqui. Como o vírus não se transmite muito bem, por conta do verão, talvez fique doente, internado, e pode contaminar um, dois ou três contactantes só. Não vai ser uma coisa que, no dia seguinte, vai ter dez pessoas com coronavírus, depois 100, e vai se espalhar. Não consigo ver esse cenário ainda. A transmissão, se a gente olhar o sarampo e a gripe, é aerossol, pelo ar. Esse não. É pelo contato com gotículas. O indivíduo precisa falar muito próximo para que se tenha o contato.

    Quanto tempo uma pessoa pode passar sem apresentar sintomas?

    Edison Durigon A pessoa pode ficar até cinco dias assintomática. E aí começarem os primeiros sintomas. Esse é o grande problema dessas infecções. Algumas pessoas são mais suscetíveis, no primeiro ou segundo dias, já começa a ficar com febre. Mas tem alguns que só vão ficar com febre no quarto dia.

    Existe sempre uma tendência a se criar um pânico nessas situações. Há motivo para preocupação?

    Edison Durigon É motivo de alerta. A imprensa tem que noticiar, avisar a população que está tendo uma doença nova, mas não é motivo para pânico, ela ainda não chegou aqui de verdade. Pode haver alguns casos suspeitos, até confirmados, mas de indivíduos que se infectaram lá fora. Se ela começar a ser transmitida para muitas pessoas aqui, e essas pessoas retransmitirem, aí sim a gente começa a ficar em estado mais de alerta. O problema todo é que os sintomas de coronavírus são idênticos a qualquer outra virose respiratória. E são várias que ocorrem nessa época do ano aqui. As chances de estar com algum outro vírus qualquer com sintomas semelhantes é muito grande. Quando se começa a gerar pânico, todo mundo, no primeiro espirro que der, vai para o hospital. Aí começa a lotar os serviços públicos e privados hospitalares, e começa a se criar um problema sério. Vou te dar um exemplo de máscara. Nos EUA, hoje, não se acha mais máscara. As pessoas começaram a comprar. Se for comprar na Amazon, não acha. Isso é um problema. É um pânico que a população foi criando, talvez sem necessidade. Talvez tenha alguns casos e pare. Só que eles têm uma desvantagem, pois estão em clima frio. O inverno duro pode complicar mesmo.

    Até quando deve durar a preocupação?

    Edison Durigon Acho que vamos ter mais alguns meses pois estão sendo tomadas medidas de prevenção. Coisas que ajudam muito são as medidas clássicas, como lavar a mão, usar o álcool em gel, que funciona bem para esse vírus. E máscara, em caso de contato com pessoas infectadas. O que o Ministério da Saúde está recomendando hoje é o certo. Para os médicos, ao recolher material, usar máscara. Mas andar na rua [com ela] é totalmente desnecessário.

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