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O filme brasileiro que disputa o Urso de Ouro em 2020

‘Todos os mortos’ concorre ao principal prêmio do Festival de Berlim. Entenda por que a internacionalização é importante para o cinema nacional

    O Festival Internacional de Cinema de Berlim anunciou na quarta-feira (29) os 18 filmes que concorrem ao principal prêmio do evento, o Urso de Ouro. O filme brasileiro “Todos os mortos”, dirigido por Marco Dutra e Caetano Gotardo e coproduzido pela França, está entre os selecionados.

    Em 2020, a 70ª edição do festival acontece na capital alemã entre 20 de fevereiro e 1° março. Ao todo, ela conta com a participação do Brasil em 19 filmes – seis curtas e médias-metragens e 13 longas coproduzidos com participação minoritária ou majoritária brasileira.

    Além do representante na mostra competitiva, os demais estão presentes nas diversas seções paralelas do festival. Um deles é “Nardjes A.”, novo filme do cineasta Karim Ainouz, premiado em Cannes em 2019 por “A vida invisível”.

    O Brasil já conquistou o urso de ouro em duas ocasiões: por “Central do Brasil”, de Walter Salles, em 1998, e, uma década mais tarde, em 2008, por “Tropa de Elite”, de José Padilha.

    O festival está entre os mais importantes da Europa e do mundo e se distingue como o mais politizado entre os grandes eventos internacionais de cinema.

    O enredo do filme que concorre ao prêmio em 2020

    Ambientado em São Paulo logo após a abolição da escravidão, “Todos os mortos” é centrado nas mulheres da família Soares, antigas proprietárias de terra que tentam se agarrar ao que restou de seus privilégios.

    Segundo detalha o crítico Luiz Carlos Merten no Estado de S. Paulo, o filme começa com a morte da doméstica, uma antiga escrava. A família, a propriedade, tudo está implodindo. A mãe fica muito doente, a filha mais velha não tem tempo de cuidar dela e confia a tarefa à mais nova. Ana é seu nome, e ela é obcecada pelo passado escravocrata da família. A lembrança dos antigos escravos a assombra, e tudo se passa no período entre a data da independências, o Dia dos Mortos e o carnaval. Incapazes de se integrar ao clima de euforia – com as festas e a modernização de São Paulo –, as três mulheres perdem o contato com a realidade e mergulham na doença e na loucura”.

    Apesar de essa ser a primeira parceria na direção de Marco Dutra e Caetano Gotardo, os dois cineastas integram o coletivo paulista Filmes do Caixote e são colaboradores de longa data. Cada diretor do grupo trabalha à sua maneira com apropriações dos gêneros estabelecidos do cinema, como terror e fantasia.

    O crescimento da participação brasileira

    A presença do Brasil em Berlim vem crescendo ao longo dos últimos anos. De 2017 a 2019 foram 12 filmes – considerando a contagem que leva em conta tanto coproduções minoritárias quanto majoritárias.

    Em edições recentes, o país tem ficado atrás, em número absoluto de títulos selecionados, apenas da Alemanha, anfitriã do evento (em que há mostras específicas para o cinema alemão), e de França e Estados Unidos, conhecidos por suas indústrias cinematográficas pujantes.

    Ao Nexo o delegado brasileiro do Festival de Berlim, Eduardo Valente, afirmou que a visibilidade expressiva da produção nacional no festival europeu é resultado das políticas públicas para o cinema da última década e meia.

    Especialistas e profissionais do setor consideram que, após anos de implementação e aprimoramento, políticas colocadas em prática principalmente pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) atingiram certa maturidade, e seus frutos têm sido vistos nos festivais em anos recentes.

    A Ancine foi alvo de ataques do presidente Jair Bolsonaro ao longo de seu primeiro ano de governo, em 2019, e o futuro de mecanismos de financiamento do audiovisual é incerto.

    A importância da seleção para os cineastas

    Segundo Valente, a seleção para um festival como o de Berlim é um apoio importante à continuidade das atividades de cineastas e produtores brasileiros caso o cerco à produção cinematográfica brasileira se agrave.

    O representante brasileiro lembra que, ao longo da história, o ambiente internacional dos festivais cumpriu o papel de permitir a continuidade da carreira de artistas que não podiam filmar em seu país natal.

    É o caso do iraniano Jafar Panahi, que continua filmando mesmo após ter sido preso e proibido de fazer cinema e conta com o apoio de festivais como o de Berlim e o de Cannes, que seguem exibindo e premiando seus filmes.

    O processo de internacionalização também abre portas para parcerias. Isso inclui a aproximação com produtoras estrangeiras para viabilizar coproduções, além da possibilidade de viabilizar a exibição de obras em mercados internacionais. “A internacionalização é um processo que tem que começar com a existência dos filmes, passa primeiro de tudo por políticas públicas de produção”, disse Valente.

    Nos últimos anos, a promoção do cinema nacional no exterior foi feita pela Ancine em conjunto com órgãos como o Ministério da Cultura (atual Secretaria Especial de Cultura, sob o Ministério do Turismo), o Ministério das Relações Exteriores e o Programa Cinema do Brasil, uma iniciativa privada comandada por produtores.

    “É um processo longo que está sempre sob risco, mas tem coisas que ficam marcadas, principalmente as carreiras dos produtores e realizadores”, diz Valente. Sobre o futuro da internacionalização do cinema nacional, ele declara que “a facilitação econômica [da internacionalização] e a continuidade da produção [cinematográfica] se tornam questões complexas que a gente vai ter que ver passo a passo”.

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