Por que o coronavírus mexe com mercados ao redor do mundo

Bolsas caíram após notícias de novas mortes pela doença na China. O ‘Nexo’ ouviu especialistas para entender quais podem ser os efeitos mais duradouros na economia mundial 

O número de vítimas fatais do coronavírus chegou a 106, segundo balanço do governo chinês divulgado na noite de segunda-feira (27). O número de infectados também subiu, ultrapassando a marca de 4.500 pessoas.

O coronavírus causa uma doença agressiva que afeta principalmente o sistema respiratório da vítima, causando pneumonia. As pessoas mais suscetíveis às consequências graves do vírus são crianças, idosos e pessoas com problemas cardiovasculares.

O surto de coronavírus na China tem como epicentro a cidade de Wuhan, uma metrópole com 11 milhões de habitantes. Na segunda-feira (27), o prefeito do local, Zhou Xianwang, admitiu ter omitido informações sobre a doença nos primeiros momentos do surto. Ele também estimou que 5 milhões de pessoas tenham deixado a cidade antes de ela ter sido isolada, em uma quarentena que começou em 23 de janeiro.

Além de fechar Wuhan, as autoridades chinesas estenderam o feriado do Ano Novo Chinês para tentar conter a expansão da doença. A ideia é reduzir o deslocamento de pessoas, diminuindo o risco de contágio pelo vírus.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) reviu no início da semana o perigo de que o coronavírus se espalhe em escala global, passando o risco de moderado para elevado. Até a manhã de terça-feira (28), outros 17 países também tinham registrado casos de coronavírus. A lista inclui países asiáticos como Japão e Coreia do Sul e também EUA, Austrália e França.

A rápida disseminação do vírus levou a um temor nas bolsas de valores ao redor do mundo, que registraram quedas generalizadas na segunda-feira (27).

A queda dos mercados

Os principais mercados do mundo retraíram diante do quadro do coronavírus na China. No Brasil, o Ibovespa, principal índice da bolsa de valores de São Paulo, caiu 3,29% na segunda (27).

Na Europa, os índices DAX e FTSE, das bolsas de Frankfurt e Londres, respectivamente, tiveram quedas acima de 2%. Nos EUA, os principais índices financeiros – Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq – também recuaram.

Na terça (28), as bolsas apresentaram alta, recuperando parte das perdas de segunda. Analistas ouvidos pelo jornal Valor Econômico apontaram que a situação ainda exigia cautela, pelo desconhecimento das dimensões do contágio.

As projeções sobre a economia chinesa

O efeito do coronavírus pode ir além das bolsas de valores, de acordo com a Standard & Poor’s, uma das principais agências de risco do mundo.

O surto da doença pode reduzir o consumo na China, segunda maior economia do mundo. O impacto total sobre a atividade econômica chinesa poderia chegar a 1,2 ponto percentual do PIB (Produto Interno Bruto), segundo economistas da agência ouvidos pela Bloomberg. Os efeitos dessa queda podem ecoar nos investimentos em outros países, afetando a economia mundial.

Em 9 de janeiro de 2020 – antes do agravamento do surto de coronavírus na China –, o FMI (Fundo Monetário Internacional) publicou um relatório em que projetava um crescimento de 6% para a economia chinesa em 2020. Se o diagnóstico inicial (de queda de 1,2 ponto percentual do PIB) da Standard & Poor’s se comprovar, o crescimento da China no ano ficaria abaixo de 5% pela primeira vez desde 1990.

O caso da Sars

Em 2002 e 2003, outra doença traçou um caminho similar ao registrado em 2020. A Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), causada por um vírus da mesma família do coronavírus, também iniciou seu surto na China, chegando a 37 países e deixando quase 800 mortos. Mais de 8.000 pessoas foram infectadas pela síndrome.

À época, o impacto sentido pela economia chinesa foi de desaceleração no segundo trimestre de 2003. O ritmo anualizado de crescimento da China no primeiro trimestre foi de 11,1% – no trimestre seguinte, a taxa caiu para 9,1%.

A economia global também foi afetada pelo avanço da Sars em 2003. As estimativas variam desde perda de 1 ponto percentual do crescimento global no segundo trimestre daquele ano até queda de 0,1 a 0,5 ponto percentual no PIB mundial em 2003.

Como o coronavírus afeta a economia

O Nexo conversou com dois especialistas para entender como o surto de coronavírus muda as decisões de agentes econômicos – sejam eles investidores na bolsa ou consumidores.

  • Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP
  • André Pimentel, diretor de investimentos da Infinity Asset

Por que o coronavírus leva investidores a tirar dinheiro da bolsa?

Claudia Yoshinaga É o receio. A declaração da OMS dizendo que errou quando não reconheceu que o risco de epidemia era grave causou um certo pânico entre os investidores.

Tivemos eventos que assustam os investidores. Primeiro, o aumento grande no número de casos de contaminação e casos de morte. E vemos que hoje, em um mundo mais globalizado, as pessoas transitam muito mais, viajam muito mais. Estamos vendo os reflexos de algumas notícias de uma série de repercussões imediatas no geral, de chineses viajando menos.

Fecharam a cidade de Wuhan, mas, além disso, há uma série de recomendações para que as pessoas não viajem. E isso sem dúvida começa a ter impacto sobre várias empresas que estão listadas na bolsa, que dependem do setor de turismo. É o caso de companhias aéreas e hotéis, que começam a ter uma quebra de demanda muito forte por conta do receio das pessoas. Há diversas recomendações para que as pessoas não façam viagens à China. Isso vai limitar muito a demanda por serviços, o que sem dúvida vai ter algum impacto imediato na receita dessas empresas.

André Pimentel Primeiramente, e pensando diretamente no caso do Brasil, você tem diversas ações que sofrem influência da China de alguma forma. A China é o principal país que compra as commodities brasileiras commodities metálicas e na parte de proteínas. E, naturalmente, em um cenário como este, desafiador, que pode de alguma forma impactar o PIB da China, essas empresas são afetadas por adversidades.

Em relação ao mundo, a China é um dos principais vetores do crescimento global. E quando há algo dessa dimensão – ou melhor, de dimensão desconhecida – acontecendo em um país com tanta relevância global, você tem essa aversão nos mercados em geral.

Isso é acentuado ainda mais porque as bolsas já estão em um preço alto. Eu diria que as bolsas globais estão quase que operando em um cenário perfeito. Diversos indicadores mostram que a bolsa estaria cara, então, em um momento em que aparece um cenário de perigo e cautela, é natural que haja uma retração.

O desconhecido causa muita aversão a risco. Ontem [segunda, 27 de janeiro], isso foi agravado principalmente depois do pronunciamento do prefeito da cidade de Wuhan, dizendo que ele já sabia dos problemas sem divulgá-los, e que mais de 5 milhões podem ter deixado a cidade porque nada havia sido feito. Wuhan é uma cidade bastante relevante para a China e está localizada em uma reunião central, junto com as principais cidades. Pensando em contágio e em doença, isso torna a cidade ainda mais perigosa. As pessoas ali poderiam rapidamente sair para cidades ainda mais populosas na China.

Quais setores da economia podem ser afetados? E qual pode ser o efeito sobre a atividade econômica como um todo?

Claudia Yoshinaga É bem difícil prever. Turismo e companhias aéreas talvez sejam os setores mais diretamente afetados. Com a limitação e recomendação para as pessoas ficarem mais em casa, também podemos imaginar que o varejo pode ser afetado. As pessoas já circulam menos, a recomendação é ir de casa direto para o trabalho e do trabalho direto para casa.

Podemos imaginar que tenha repercussão sobre varejo e outras coisas que demandam circulação das pessoas, pessoas nas ruas para consumir. Se essas pessoas não circularem, pode ter algum efeito. Além disso, podemos começar a pensar em efeitos secundários, como menos pessoas viajando, menos aviões e redução na demanda de combustível. Podemos começar a ver, de repente, um efeito cascata em outros setores que fornecem para os setores diretamente afetados.

O que ninguém sabe ainda – e que é a grande dúvida – é como a doença está se espalhando pelo mundo. “Vira e mexe” aparecem algumas notícias falando da suspeita de casos aqui no Brasil. Isso já começa a causar preocupação em investidores. Se houver alguma confirmação no Brasil, isso pode ter impactos na circulação de pessoas e na economia como um todo aqui no Brasil também.

André Pimentel Diversas coisas podem acontecer. Por exemplo, quando olhamos para a China prorrogando feriados, o setor de turismo é afetado. Dependendo da dimensão que isso possa tomar, muita gente vai preferir ficar em casa a sair para fazer compras. E isso afeta a economia como um todo.

Falando de Brasil, mineração e siderurgia sofrem efeitos imediatos. Tanto que foram as ações que mais sofreram ontem [segunda-feira, 27 de janeiro]. Você tem também as empresas de proteína, que foram muito beneficiadas pela situação da gripe suína da China [que afeta apenas animais] e que tendem a se comportar de forma oposta caso a situação se agrave na China. Eu diria que esses dois seriam os principais vetores.

Só que esse é o impacto direto. Uma eventual desaceleração da China tem também impacto sobre outras commodities. Uma delas é o petróleo, que já vinha sofrendo e a situação e se agravou ainda mais desde sexta-feira [24 de janeiro]. Dado o impacto da China no crescimento global, a gente poderia ter mais um vetor de desaceleração no caso de agravamento dessa gripe.

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