O que Regina Duarte pensa da cultura brasileira em 3 pontos

Atriz da Globo aceitou convite de Bolsonaro para assumir secretaria da área. Ela tem se manifestado politicamente desde os anos 1970

    A atriz Regina Duarte aceitou nesta quarta-feira (29) assumir oficialmente a Secretaria Especial da Cultura do governo do presidente Jair Bolsonaro. A pasta é submetida ao Ministério do Turismo e volta a ter um titular após a demissão de Roberto Alvim em 17 de janeiro.

    A queda do diretor de teatro se deu após a divulgação de um vídeo em que parafraseava trechos de um discurso do ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels. O material foi produzido para lançar o Prêmio Nacional das Artes e causou forte reação entre políticos e na comunidade judaica.

    Apoiadora do governo, Regina viajou a Brasília cinco dias depois, em 22 de janeiro, para almoçar com o presidente. Depois, reuniu-se com os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência) e Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). A Secretaria de Cultura está submetida à pasta do turismo.

    Apesar do encontro, organizado para que ela conhecesse melhor a estrutura que assumiria, a atriz não confirmou de imediato o convite. Preferiu usar a metáfora de Bolsonaro segundo a qual ambos estavam “noivos”.

    “Agora vão correr os proclamas do casamento”

    Regina Duarte

    atriz e futura secretária especial da Cultura do governo Bolsonaro

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a atriz será anunciada formalmente para o cargo após acertar questões contratuais com a TV Globo.

    A relação de Regina Duarte com o meio político

    A atriz, que iniciou a carreira em 1965, na TV Excelsior, descreve-se como conservadora, embora diga que tenha tido “atitudes de vanguarda” no começo da vida profissional.

    Nos anos 1970, ela participou de protestos contra a ditadura militar. Em 1975, integrou uma comitiva de artistas que entregou uma carta ao então presidente Ernesto Geisel contra a censura imposta pelo governo à novela “Roque Santeiro”, impedida de estrear.

    Em 2002, passou a ser alvo da esquerda ao aparecer numa peça de campanha do então candidato à Presidência José Serra (PSDB) em que dizia ter medo de uma provável eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, por conta de um suposto retrocesso na economia do país com o resultado das urnas.

    Regina voltou à cena em 2015 ao participar de protestos de rua contra a presidente Dilma Rousseff, que acabaria sofrendo processo de impeachment.

    Após a eleição de Bolsonaro, em 2018, encontrou-se com o presidente eleito e disse que ele tinha “uma alma democrática”. Também descreveu o capitão reformado do Exército como dono de um “humor brincalhão típico dos anos 1950, que faz brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca pra fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada”.

    Regina é filha de Jesus Nunes Duarte, primeiro-tenente do Exército que morreu em 1981. Na sexta-feira (24), o jornal Estado de S. Paulo revelou que a atriz recebe R$ 6.843,34 mensais dos cofres públicos a título de pensão militar. O benefício é pago desde 1999.

    Em diversas entrevistas, ela tem expostos suas opiniões sobre o setor da Cultura. O Nexo destaca a seguir três pontos centrais no discurso da atriz para a área.

    ‘Estado mínimo’ na cultura

    Em maio de 2019, a atriz foi entrevistada pelo apresentador Pedro Bial, da TV Globo. No programa, falou sobre a Lei Rouanet, mecanismo de fomento à cultura que permite aos artistas a captação de recursos de empresas privadas por meio de isenção fiscal.

    Regina defendeu que o Estado não deveria patrocinar a cultura “nos moldes atuais”. “Eu tenho encontrado pessoas modernas que defendem uma proposta muito interessante: um modelo de financiamento coletivo (...) em plataformas digitais que captem com pessoas físicas e jurídicas de todo o país os recursos para produção de eventos culturais com todas as contrapartidas entregues e em prestações de contas previstas num contrato”, disse a atriz, ressaltando que toda a negociação seria feita “sem intervenção do Estado”.

    Segundo ela, “gente famosa e consagrada”, que pode vender produtos devido à própria imagem, não deveria “demorar para encontrar patrocinadores que queiram linkar seus nomes a elas” nesse modelo. “O povo deseja e precisa de um Estado menor, uma coisa a menos para o Estado tomar conta. O governo precisa mais é cuidar do surgimento de novos talentos, dar força para novos artistas, promover a renovação e acesso de novas plateias”, disse.

    Sobre projetos que usariam recursos públicos, a atriz defendeu maior transparência. “Sendo um dinheiro do povo é preciso ter critérios transparentes, é preciso prestação de contas rigorosas. O que eu acho da Lei Rouanet? Tem uma história de que os artistas mamam nas tetas do governo. Será pedir muito rigor na prestação de contas?”, afirmou.

    Desde 1999, sua produtora já captou mais de R$ 1,4 milhão em três peças teatrais por meio da Lei Rouanet, segundo o jornal O Globo. Ela teve rejeitada a prestação de contas de um projeto que captou R$ 321 mil para o espetáculo teatral “Coração Bazar”, que ficou em cartaz entre 2004 e 2005, de acordo com a revista Veja. Segundo portaria publicada no Diário Oficial em março de 2018, a empresa da atriz precisa devolver R$ 319,6 mil aos cofres públicos. O filho de Regina e sócio na empresa, André Duarte, declarou que cumprirá o que a Justiça determinar.

    Arte não pode ter ideologia

    Em dezembro de 2019, a atriz foi entrevistada pelo também ator Carlos Vereza, que apresenta o programa “Plano Sequência”, na TV Escola. Em determinado momento, ela se mostra contrariada ao falar de política, mas responde sobre qual papel, em sua opinião, a arte deveria ter.

    “A nossa função é essa: dar humanidade para o sonho, para o bem e para o mal, liberar o humano para criar, para abraçar a pluralidade humana. E todo mundo tem razão. Cada um escolhe o seu. Se eu não gosto do seu, eu não vou te reprimir. Por que que eu vou te reprimir? Deixa você exercer sua liberdade de ser quem você é, pensar como você quiser”, afirmou.

    Segundo ela, a arte serve para “nos ensinar a ser justos com o humano, sem repressões, sem partidarismos, ideologias”. Para Regina, a “arte não tem e não pode ter ideologia”, pois isso “confunde e atrapalha tudo”. “Nem 8 nem 80. No meio. A gente caminha no meio e acima da reles realidade. A gente paira acima desse mundo sórdido e cruel e tão belo”, disse.

    Durante o encontro em Brasília com os integrantes do governo Bolsonaro, ela chegou a contestar o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, segundo o jornal Folha de S.Paulo. O ministro teria defendido, na reunião, que o filme “Bruna Surfistinha” era um exemplo de projeto que o governo não deve apoiar. Ele repetia um argumento de Bolsonaro, que várias vezes criticou o filme.

    Regina respondeu que o longa possui classificação indicativa e que “a prostituição é a profissão mais antiga do mundo”. Também afirmou ser uma artista e que o governo não poderia se esquecer disso.

    Por causa de posicionamentos não aceitos pelo bolsonarismo, apoiadores mais radicais do presidente têm divulgado nas redes sociais vídeos em que a atriz aparece dizendo ser favorável à legalização da maconha e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

    Alinhamento ao bolsonarismo

    Mas a atriz também tem se engajado em temas bolsonaristas. No domingo (26), em sua conta no Instagram, publicou um vídeo que mostra o ex-BBB Adrilles Jorge criticando o que chama de “marxismo cultural”. Com isso, ela reforçou uma bandeira que era assumida pelo ex-secretário Roberto Alvim, que buscava incentivar uma arte conservadora em detrimento da cultura produzida por artistas de esquerda.

    Nas imagens, o ex-BBB afirma: “O que o marxismo cultural faz? Coloca negros contra brancos, mulheres contra homens, homossexuais contra heterossexuais”. Regina indica não conhecê-lo. “Quem é esse cara?!”, questiona em sua publicação. E diz. “Que depoimento bacana, profundo, super real”.

    Na entrevista a Vereza, na TV Escola, a atriz reclama que uma das grandes dificuldades do Brasil no momento é “essa desunião, essa polarização, eu sou isso, eu sou aquilo, inspirados por questionamentos partidários, políticos”. “O que isso tem a ver com a gente? O que isso tem a ver com a nossa criação? Com a nossa fantasia? Com a nossa vontade de ser plural? De aceitar o humano na sua totalidade?”, questiona.

    Segundo ela, sua briga política é para “reconstruir os tijolinhos da nossa liberdade, da nossa correção ética, moral, tudo isso está tendo que ser revisto, refeito, reconquistado”.

    Mas embora diga que não se deva reprimir manifestações com as quais não se concorde, ela também divulgou em seu Twitter um outro vídeo com Carlos Vereza em que o ator culpa o Porta dos Fundos por “colher o que planta”. A produtora foi responsável por um especial de Natal no Netflix que retrata Jesus como gay. A Justiça chegou a determinar que o programa fosse retirado do ar, mas o Supremo Tribunal Federal barrou a censura. A produtora do grupo humorístico sofreu um atentado à bomba a sua sede no Rio, em dezembro de 2019.

    Regina também divulgou em 15 de janeiro uma imagem da avenida Paulista cheia durante os protestos contra o governo Dilma, com o seguinte texto: “Um Oscar pra você que foi pra rua derrubar o governo mais corrupto da história”. A publicação ocorreu dois dias depois da divulgação dos indicados ao Oscar. Na lista, consta o documentário brasileiro “Democracia em Vertigem", da diretora Petra Costa, que mostra o processo de impeachment de Dilma Rousseff do ponto de vista da esquerda.

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