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Como o coronavírus se espalha pela política mundial

Surto de doença que teve origem na China leva a prejuízos no mercado global e alimenta guerra ideológica contra o governo comunista

O surto da doença identificada como 2019-nCov – um novo tipo de coronavírus – já deixou pelo menos 106 mortos na China e mais de 4.000 pessoas infectadas em 18 países, na contagem feita até terça-feira (28).

Um dia antes, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alterou a classificação de risco de propagação do vírus de “moderado” para “alto”. Dentro da China, o risco de contaminação é considerado “muito alto”.

Passados 44 dias do registro do primeiro caso da doença, em 16 de dezembro de 2019, os prejuízos para a economia global começam a aparecer, assim como as primeiras acusações de que a China, epicentro do surto, foi negligente ou até mesmo agiu deliberadamente para que o vírus se espalhasse.

O governo chinês “censurou seus críticos, deteve pessoas responsáveis por espalhar o que considerou como ‘rumores’ e está suprimindo informações que considera alarmantes”, escreveu na quarta-feira (22) a jornalista do jornal americano The New York Times em Pequim, Li Yuan.

Como acontece com o vírus, as notícias – verdadeiras e mentirosas – também se espalham rapidamente. A partir de comentários em podcasts e postagens em nichos da extrema direita, influenciadores com milhares de seguidores vêm disseminado teorias conspiratórias que têm como alvo o Partido Comunista Chinês.

Steve Bannon, ex-estrategista do presidente americano Donald Trump que se apresenta como arquiteto da nova onda de extrema direita populista no mundo, sugeriu que o coronavírus é parte de um programa de “guerra biológica” da China.

Manifestações similares têm sido feitas por influenciadores da extrema direita brasileira. “Nada me tira da cabeça a possibilidade de o governo comunista chinês ter espalhado o coronavírus para arrefecer as manifestações contra a tirania do Estado”, disse, por exemplo, Bernardo Küster, diretor de uma publicação na internet chamada Brasil Sem Medo, que se apresenta como “o maior jornal conservador do Brasil”.

Küster é influente no meio conservador brasileiro. Ele é seguido por mais de 300 mil pessoas no Twitter, e sua postagem a respeito do coronavírus teve mais de 10 mil interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) em 24 horas.

As críticas a um regime fechado

Há 70 anos a China vive sob um dos regimes mais fechados do mundo. Não existem jornais, rádios e TVs que não sejam controlados pelo governo, e mesmo o trabalho da imprensa estrangeira sofre restrições no país.

Por isso, há desconfiança sobre a veracidade das informações a respeito da propagação do vírus, embora a OMS (Organização Mundial da Saúde) não tenha manifestado nenhuma crítica à forma como a interação com as equipes médicas chinesas tem funcionado.

O país que hoje enfrenta uma grave epidemia deu saltos de melhoria em seus índices de saúde. Sob o governo comunista, a taxa de mortalidade despencou. A expectativa de vida, que em 1960 era de apenas 43 anos, passou a ser de 66 anos em 1978 e 76 anos em 2016.

Todo esse crescimento ocorreu, entretanto, às custas da supressão das liberdades individuais e dos direitos humanos. Não existe imprensa livre nem partidos políticos, além do Partido Comunista, na China. Também não há eleições livres. A liberdade de expressão é controlada por agentes do governo, que espionam e censuram o uso da internet.

Relatos punidos pelo governo

Todo esse aparato repressivo cerceou a circulação de informações sobre a propagação do vírus. Os primeiro casos foram registrados no dia 16 de dezembro, mas as autoridades só notificaram a OMS (Organização Mundial da Saúde) 15 dias depois, em 31 de dezembro.

Wuhan, capital e maior cidade da província Hubei, epicentro da doença, foi completamente isolada do restante do país a partir do dia 23 de janeiro.

Mapa mostra localização de Wuhan

O prefeito da cidade, Zhou Xianwang, assumiu ter omitido informações sobre a epidemia e colocou seu cargo à disposição, juntamente com o secretário do Partido Comunista na localidade, Ma Guoqiang. “Nossos nomes estarão em meio à infâmia”, disse o prefeito à TV estatal chinesa.

Nesse mesmo dia, os Ministérios da Saúde de China, Japão, Tailândia e Coreia do Sul notificaram à OMS a existência de 557 casos confirmados. No dia 27, o número saltou para 1.300 mil casos, só na China.

Mais de 40 milhões de chineses na área afetada foram colocados de quarentena. Serviços sanitários das Forças Armadas foram despachados para a região.

A emissora estatal CCTV disse que pelo menos oito pessoas “foram tratadas de acordo com a lei” por terem compartilhado informações que o governo considera “boatos” sobre a doença na rede social Wiebo, equivalente chinês do Facebook.

Algumas contas no Twitter que desafiam a censura chinesa publicaram vídeos em que cidadãos criticam a forma como o governo lida com a crise. Uma delas, a Himalayan Global, traz diversos vídeos gravados por celular nos quais chineses criticam abertamente o Partido Comunista pela gestão do surto.

25%

é o percentual de “casos severos” entre todas as pessoas contaminadas, de acordo com a OMS

3%

é o percentual de mortes entre as pessoas infectadas

Respostas de outros países

Os governos de Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Espanha, Alemanha e Japão planejam mandar aviões fretados para resgatar seus cidadãos das regiões afetadas. Pelo menos 15 cidades chinesas estão total ou parcialmente bloqueadas.

No Brasil, o Ministério da Saúde informou na terça-feira (28) que analisou 7.000 rumores de contaminação de cidadãos brasileiros. Destes, 127 precisam de confirmação.

18

é o número de países que notificaram casos de 2019-nCov até 27 de janeiro

O único caso suspeito de contaminação no país envolve uma brasileira que voltou da China para o estado de Minas Gerais. De acordo com o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, o quadro dela é “bom, estável e sem complicação”. Ainda assim, o ministro anunciou estado de perigo iminente no país, o que corresponde ao nível dois de alerta, numa escala que vai até três.

Reflexos em Hong Kong

O maior foco de contestação ao regime chinês está hoje em Hong Kong, onde manifestantes defendem uma separação política total entre a ilha e o continente.

Lá, havia apenas oito casos da doença registrados até 28 de janeiro. Ainda assim, a chefe-executiva da China na ilha de Hong Kong, Carrie Lam, anunciou na terça-feira (27), o fechamento de estações de trem e de terminais marítimos que ligam a ilha ao continente.

Lam, que portava uma máscara para evitar contaminação durante seu pronunciamento público, avisou que também haverá redução no número de autorizações de viagem internacional que tenham Hong Kong como origem e destino.

A relação com o meio ambiente

A OMS afirma que essa nova mutação do coronavírus teve início a partir da contaminação de humanos por animais. Os morcegos são apontados como suspeitos.

O avanço das áreas urbanas sobre locais selvagens aumenta o contato com novos vírus. Esse é um dos reflexos possíveis da devastação de florestas em todo mundo, dizem especialistas como David Quammen, escritor e jornalista americano, autor do livro “Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic” (Transbordamento: infecções de animais e a próxima pandemia humana, em tradução livre para o português).

Em artigo de opinião publicado no jornal americano The New York Times, Quammen diz que o problema também é de “autoridades que se vangloriam ao povo por derrubar florestas para criar empregos ou cortar recursos do orçamento para pesquisas na área de saúde pública”.

Ele diz ainda que “a distância entre Wuhan ou a Amazônia para Paris, Toronto ou Washington é curta para alguns vírus, medindo em horas, considerando quão bem esses vírus podem lidar com um avião de passageiros. Se você acha que financiar políticas de prevenção de pandemias é algo caro, espere só para ver o custo final que será provocado pelo 2019-nCov”.

O efeito no mercado de automóveis

Wuhan é um dos maiores polos mundiais de desenvolvimento de carros elétricos. Há 10 fábricas de automóveis instaladas na região e cerca de 500 fabricantes de peças e acessórios. De lá, saíram 1,7 milhão de veículos em 2018 – mais da metade de todos os carros novos vendidos no Brasil no mesmo ano.

O grupo PSA Peugeot Citröen tem três fábricas na região. Os veículos produzidos ali seriam lançados em 2020. A Nissan também se instalou no mesmo local em 2011 e investiu US$ 900 milhões na construção de uma nova fábrica.

A aliança Nissan-Renault-Mitsubishi desenvolve também na região de Wuhan, em parceria com a empresa chinesa Donfeng e com a subsidiária Amperex, as baterias que serão usadas em seus carros elétricos.

A Honda inaugurou sua terceira fábrica nessa mesma região em 2019. A General Motors ampliou negócios em Wuhan em 2016, com investimento de US$ 1,1 bilhão.

Há, além disso, toda uma cadeia produtiva associada ao setor, com fábricas de sistemas elétricos, bancos, estofamentos, radiadores e motores. O consumo chinês de carros elétricos é importante para gerar economia de escala, antes de esses produtos serem lançados no mercado mundial.

O prejuízo não será medido apenas na venda de produtos, mas no atraso no desenvolvimento de todas as tecnologias empregadas na criação de novos carros elétricos.

Além do setor automotivo, 60% dos trilhos de trens de alta velocidade da China também são produzidos em Wuhan. As empresas estão pedindo que seus funcionários trabalhem de casa quando possível.

Impacto na economia local

O surto da nova doença coincidiu com o feriado do Ano Novo chinês, que tem início em 25 de janeiro e dura uma semana inteira.

Em 2019, durante esses seis dias, a economia chinesa movimentou o equivalente a US$ 145 milhões nas áreas de alimentação, turismo e lazer. Pelo menos 10% dos ingressos das bilheterias de cinema na China também são vendidos nessa época do ano.

Por causa do novo tipo de coronavírus, muitos chineses – e estrangeiros – cancelaram as viagens e estão evitando locais de aglomeração, como trens, ônibus, navios e aviões.

Prejuízos até no Brasil

As políticas restritivas adotadas pelo governo chinês, com o isolamento de regiões do país e com o corte do fluxo de viagens, têm impacto sobre todo o mercado global, assim como no preço das commodities – matéria-prima para a indústria mundial.

Duas empresas brasileiras, a Vale e a Petrobras, perderam R$ 34,1 bilhões no pregão de segunda-feira (27). A China é um dos principais compradores de minérios de ferro da Vale.

A crise sanitária teve impacto também em bolsas pelo mundo (que caíram) e na cotação do dólar, que, no Brasil, chegou a R$ 4,22 na segunda-feira (27).

A economia da China cresceu 6,1% em 2019, o menor avanço em 29 anos. Por si só, essa desaceleração já provocaria impacto negativo na economia global. Especialistas tentam determinar ainda em que extensão o surto da doença pode prejudicar esse quadro.

Em 2003, a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), outra variante do coronavírus, chegou a 37 países e matou 800 pessoas. À época, a doença tirou entre 0,1 e 0,5 ponto percentual do PIB (Produto Interno Bruto) mundial.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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