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Quem é a ativista Vanessa Nakate. E qual a sua atuação em Uganda

Jovem de 23 anos foi apagada de foto ao lado de ambientalistas que lutam pelo clima, incluindo Greta Thunberg. Nakate era a única negra da imagem

    A ativista ambientalista Vanessa Nakate, 23, que atua em Kampala, capital de Uganda, teve sua imagem cortada em uma fotografia de jovens que protestam contra a crise do clima publicada na última sexta-feira (24) pela agência de notícias americana Associated Press.

    A fotografia, que incluía a adolescente sueca Greta Thunberg, mostrava cinco ativistas que pediam ação climática durante o Fórum Econômico Mundial, que aconteceu de 21 a 24 de janeiro em Davos, na Suíça. Nakate, a única negra, aparecia no canto esquerdo da imagem. Todos os outros jovens, nenhum deles cortado da fotografia, eram brancos.

    Após a publicação, ativistas que participam das greves pelo clima, incluindo a fundadora do movimento, Greta Thunberg, manifestaram-se nas redes sociais. Eles mostraram apoio a Nakate e criticaram a AP, que foi acusada de racismo. A ativista americana Jamie Margolin, filha de colombianos, acusou a imprensa de “apagar consistentemente” jovens não brancos ao cobrir o ativismo climático.

    No Twitter, Nakate publicou um vídeo no qual compartilhou sua experiência em Davos e o que sentiu quando viu que sua imagem havia sido removida da foto com os colegas. “É a primeira vez na minha vida que entendo a definição da palavra racismo”, disse a ativista, que faz protestos por ação climática em Uganda desde o início de 2019.

    “Você [a AP] não apagou apenas uma foto. Apagou um continente”

    Vanessa Nakate

    ativista ugandesa, em tuíte publicado na sexta-feira (24)

    Apesar de terem menos visibilidade na mídia ocidental, jovens africanos estão entre os mais afetados pela mudança climática, por viverem em países menos preparados para lidar com os tipos de desastres que tendem aumentar com o aquecimento global. Para ativistas, o caso da foto não só sugere racismo contra Nakate, mas expõe uma imprecisão mais ampla de representação do movimento global pelo clima.

    Após as críticas, a Associated Press lamentou o caso, removeu a foto cortada e afirmou que não teve “má intenção”. O diretor de fotografia da agência, David Ake, disse que o fotógrafo responsável pela imagem estava trabalhando com pressa e que fez o corte por motivos de composição — havia um prédio considerado distrativo atrás de Nakate.

    Como Vanessa Nakate se tornou ativista

    Aos 22 anos, Vanessa Nakate tornou-se a primeira jovem a organizar as chamadas greves pelo clima (série de protestos de rua de adolescentes em greve escolar às sextas-feiras) em Uganda, em janeiro de 2019, inspirada pelo movimento iniciado um ano antes por Greta Thunberg.

    Assim como Thunberg, no início do ativismo Nakate protestou diversas vezes sozinha em frente ao Parlamento de Uganda, tentando chamar a atenção para os efeitos da crise do clima sobre o país, que segundo ela tem sofrido com fortes chuvas, secas e perda da cobertura florestal.

    A jovem, que se formou em marketing e administração pela Universidade Makerere, a mais antiga de Uganda, tomou conhecimento da mudança climática após uma conversa com um tio, em dezembro de 2018. Ela se queixava do aumento recente das temperaturas no lugar onde vivia, e ele dizia que antes aquele calor não era comum.

    “Vinte anos atrás, não era tão quente assim. O tempo era sempre fresco e calmo. Os agricultores costumavam amar [as estações], porque havia água nos jardins e os rios e voçorocas ficavam cheios, mas não mais”

    Vanessa Nakate

    ativista ugandesa, parafraseando o que seu tio lhe disse em 2018, durante entrevista de maio de 2019 ao site The Observer

    A partir de então, Nakate atraiu outros jovens para os protestos (como a ativista Leah Namugerwa) e fundou o The Rise Up Movement, rede de movimentos de jovens que pede ação climática em países da África. Ao ganhar evidência, participou da COP-25, conferência do clima na Espanha, em 2019, e do Fórum Econômico Mundial, no início de 2020.

    Apesar de ter ganhado projeção internacional, Nakate considera difícil mobilizar mais pessoas em seu país de origem. Ela diz que a crise climática não é ensinada o suficiente nas escolas, por isso a população em Uganda não sabe que se trata de um desafio. A jovem também conta que as pessoas se afastam do ativismo por conta da repressão a protestos no país, que em muitos casos (não o seu) já levou a prisões.

    Quais os efeitos da crise climática em Uganda

    A ativista conta que, ao mesmo tempo em que Uganda tem passado por chuvas intensas que levam a fortes inundações em algumas áreas do país, em outros lugares há ondas de calor e temporadas mais longas de seca, influenciadas pelo desmatamento e a degradação do solo no país.

    A situação que Nakate descreve reflete o aumento dos chamados eventos climáticos extremos (ou seja, os que são mais intensos e atípicos, como as grandes chuvas) em Uganda. A mudança do clima tem feito com que esses eventos aumentem em frequência, intensidade e duração, destruindo lugares que antes conseguiam suportá-los.

    8%

    era a cobertura florestal em Uganda em 2019; em 1990, eram 24%

    300%

    foi o aumento das chuvas entre outubro e novembro de 2019 no leste da África em relação à média do mesmo período em anos anteriores

    As consequências, no caso de Uganda, têm sido devastadoras. “A cada vez que uma chuva forte ocorre, alguém é morto”, disse Nakate em entrevista em dezembro de 2019. A temporada de chuvas se prolongou no país no último ano, resultando em mortes e pessoas desalojadas. Nas áreas de seca, as colheitas diminuíram e há poços secando.

    “Isso [a seca] está afetando a produção agrícola em algumas áreas [de Uganda]. No meu país, a maioria das pessoas depende de suas fazendas e colheitas para sobreviver. Mas, com todas essas secas e inundações, as pessoas ficam sem esperança para o futuro”

    Vanessa Nakate

    ativista ugandesa, em entrevista ao programa americano Democracy Now! em dezembro de 2019, durante a COP-25, na Espanha

    Além de ir às ruas pelos eventos climáticos recentes em Uganda, Nakate costuma protestar pela situação da Floresta do Congo, a maior floresta tropical da África, que, segundo estudos, está desaparecendo devido a queimadas e ao desmatamento em escala crescente.

    A Floresta do Congo, que perde em extensão apenas para a Amazônia, na América do Sul, abrange uma enorme região da África Central que inclui a República Democrática do Congo, o Congo, o Gabão, a Guiné Equatorial, Camarões e a República Centro-Africana.

    A região está perdendo a cobertura florestal devido ao avanço de pequenos agricultores, que derrubam a floresta para criar pastagens, e da extração ilegal de madeira, segundo estudos. A situação é grave, pois a Floresta do Congo abriga espécies únicas e tem papel importante no equilíbrio climático global, por conter grandes estoques de carbono.

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