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Por que Billie Eilish se tornou um fenômeno da música pop

Cantora americana de 18 anos é a primeira mulher e segunda artista na história a conquistar os quatro principais prêmios do Grammy na mesma noite

    Com 18 anos recém completados, a cantora americana Billie Eilish levou para casa os quatro principais prêmios do Grammy, principal honraria da indústria americana. A premiação aconteceu no domingo (26), em Los Angeles.

    São vários recordes ao mesmo tempo: Eilish foi a artista mais jovem e a primeira mulher a conseguir tal feito. É também a segunda vez na história que um artista ganha nas quatro categorias. O cantor e compositor Christopher Cross foi o primeiro, em 1981.

    Os prêmios são:

    • Álbum do ano por “WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?” (o nome do álbum de Eilish é todo em maiúsculas; as músicas são escritas em letra minúscula)
    • Canção do ano por “bad guy”
    • Gravação do ano por “bad guy”
    • Artista revelação

    O álbum de Eilish levou ainda Melhor Álbum Vocal de Pop. Seu irmão e produtor, Finneas O’Connell, também conquistou dois prêmios nas categorias Produtor do Ano, Não-Clássico e Melhor Engenharia de Som de Álbum, Não-Clássico.

    A novata competia nas diversas categorias com nomes estabelecidos da música americana, como Beyoncé, Ariana Grande, Lana Del Rey e Taylor Swift. Também se saiu melhor que outra das revelações do ano, a cantora e rapper Lizzo (que ganhou três prêmios na cerimônia).

    O surgimento do fenômeno

    Quanto tinha 14 anos, em 2015, Eilish gravou uma música para seu professor de dança, composta e produzida por seu irmão Finneas. A música foi colocada na plataforma SoundCloud e os dois seguiram com a vida. Ao acordar no dia seguinte, descobriram que “Ocean Eyes” tinha viralizado. A dupla foi bombardeada com mensagens de profissionais da indústria musical.

    Antes de seu álbum de estreia ser lançado, a cantora já acumulava 1 bilhão de plays no Spotify. Seus números de execuções e seguidores são grandiosos. No Instagram, por exemplo, ela tem mais de 50 milhões de seguidores (Anitta tem cerca de 44 milhões; Beyoncé contabiliza 139 milhões). “bad guy” conta com mais de 735 milhões de visualizações. Em janeiro de 2020, Eilish confirmou que será a compositora e intérprete da música-tema do novo filme da franquia James Bond, "007: Sem Tempo Para Morrer".

    O Nexo enumera abaixo alguns dos principais pontos que fazem o trabalho de Billie Eilish causar tanto impacto.

    A estranheza

    A cantora passa ao largo de vários traços comuns de cantores pop adolescentes. Ela não emana felicidade ou animação, nem busca cultivar uma imagem de boa moça. Ela não é de sorrir em fotos e usa roupas largas e desengonçadas. Sua estética privilegia o sombrio, o tenso e o desconfortável. “Billie Eilish e o triunfo do esquisito” afirmou a chamada de capa da revista Rolling Stone americana, que entrevistou a cantora em julho de 2019. A música de Eilish, que já foi obcecada por filmes de terror, é frequentemente referida como sendo “pop gótico”. No clipe de “bad guy” ela espalha pelo rosto sangue que escorre do nariz. Em “bury a friend” (“enterrar um amigo”), uma cena mostra a cantora sendo espetada nas costas por várias seringas.

    Autenticidade

    Esta imagem imperfeita, de uma pessoa que desdenha das convenções, dialoga com outra caraterística que fãs dizem apreciar na cantora: sua autenticidade. Entrevistas e reportagens com Eilish retratam uma menina normal, envolvida com dilemas juvenis rotineiros como a arrumação do quarto e o excesso de tempo na internet. Eilish mora com os pais em uma casa de subúrbio de Los Angeles. Suas gravações são todas feitas no quarto, com o irmão-produtor. Esse aspecto caseiro, despretensioso, é reforçado na introdução de 14 segundos do álbum, em que se ouve a cantora tirando o aparelho dental móvel dos dentes. “Tirei meu aparelho e este é o álbum”, diz a cantora, em conversa com o irmão-produtor. Ambos caem na gargalhada.

    Música de quarto

    Ao receber um dos prêmios Grammy, Finneas O’Connell reforçou o fato de que o trabalho não contou com grandes estruturas de gravação e finalização. “A gente só faz música no nosso quarto. Ainda fazemos assim (...) Dedico isso a toda a garotada fazendo música nos seus quartos hoje. Vocês vão conseguir um desses [em referência ao prêmio]”, declarou. Gravar no quarto ou fora de um estúdio profissional é uma situação que ficou mais comum ao longo da última década, com o aprimoramento de softwares e aplicativos para esse fim. O produtor americano Steve Lacy, que já assinou trabalhos para artistas como os rappers J. Cole e Kendrick Lamar, é conhecido por realizar produções inteiramente no seu iPhone.

    Geração Z

    “Com suas letras emocionalmente inteligentes e a total falta de sexualização em sua estética, Billie Eilish oferece um modelo instantâneo para sua vasta base de fãs jovens”, afirmou a Vogue britânica. Nascida em 2001, a cantora reflete gostos e questões da chamada geração Z (nascida a partir do início dos anos 2000), especialmente nos EUA e Europa. Em “xanny”, ela alerta sobre os riscos do abuso de Xanax, conhecido no Brasil como Frontal (“Não quero mais ver amigos morrendo”, afirmou). O medicamento da classe dos benzodiazepínicos é um dos mais receitados para transtornos de ansiedade. “bad guy” retrata uma menina empoderada, que se coloca como mais resistente que o namorado “de peito estufado”. Em “all the good girls go to hell”, ela canta sobre a sensação de impotência diante das mudanças climáticas. Eilish já declarou sua admiração pelo ativismo da sueca Greta Thunberg.

    Voz sussurrada

    A música de Eilish é voltada para dentro, criando um lugar de aconchego. O efeito é obtido pela conjugação de sua voz quase sussurrada, cantada bem próxima do microfone, e a base instrumental com graves fortes, mas agradáveis aos ouvidos. “Ela não está gritando ou projetando vocais, seu volume é baixo e seu tom está sempre no mesmo nível. Sua voz e disposição conseguem provocar conforto e tranquilidade, o que remete a artistas de ASMR no YouTube”, afirmou o fisiólogo e pesquisador americano Craig Richard. O ASMR, ou Autonomous Sensory Meridian Response (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano, em tradução livre), é o nome que se dá a uma popular categoria de vídeos em que pessoas sussurram, produzem ruídos e realizam atividades sonoras que trazem conforto ao espectador.

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