Como a comunidade judaica se relaciona com o governo Bolsonaro

Confederação Israelita do Brasil estima que há 120 mil judeus no país, em um grupo marcado pela pluralidade política e diferentes tradições religiosas

    Em 16 de janeiro de 2020, a Secretaria Especial da Cultura do governo federal publicou um vídeo em que o então secretário Roberto Alvim copiava uma fala de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler. Além dos elementos da fala, o vídeo trazia referências à estética nazista, como a trilha sonora.

    O episódio levou à demissão de Alvim no dia seguinte, após forte pressão sobre o governo de Jair Bolsonaro. A repercussão negativa do vídeo ocorreu tanto nas redes sociais como entre aliados do presidente e pol��ticos em Brasília.

    As referências de Alvim à Alemanha nazista suscitaram reações da comunidade judaica no Brasil. A Conib (Confederação Israelita do Brasil) publicou uma nota condenando o discurso de Alvim, na qual pedia o afastamento do secretário. A Federação Israelita do Estado de São Paulo também repudiou a fala e de Alvim e cobrou sua saída do governo.

    “A Conib considera inaceitável o uso de discurso nazista pelo secretário da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim. Emular a visão do ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels, é um sinal assustador da sua visão de cultura, que deve ser combatida e contida. [...] Uma pessoa com esse pensamento não pode comandar a cultura do nosso país e deve ser afastada do cargo imediatamente”

    Conib (Confederação Israelita do Brasil)

    em nota publicada no dia 17 de janeiro de 2020

    “Quem recita Goebbels e o nazismo não pode servir a governo nenhum no Brasil”

    Federação Israelita do Estado de São Paulo

    em nota publicada no dia 17 de janeiro de 2020

    Com o caso do ex-secretário Roberto Alvim, voltou à tona a discussão a respeito da relação entre a comunidade judaica brasileira e o governo de Jair Bolsonaro, recorrente também durante as eleições de 2018. Representantes de diferentes entidades que compõem a comunidade judaica buscaram mostrar que o grupo abriga diferentes pensamentos políticos.

    “Num mundo em que versões prevalecem sobre fatos, criou-se a ideia de que a comunidade judaica brasileira em bloco apoia Jair Bolsonaro. A tese não procede. Como qualquer grupo razoavelmente heterogêneo, os judeus se dividiram em relação à candidatura do capitão reformado”

    Hélio Schwartsman

    jornalista, em coluna publicada na Folha de S.Paulo em 22 de janeiro de 2020

    A comunidade judaica nas eleições de 2018

    A revista piauí publicou em 19 de fevereiro de 2018 uma matéria em que entrevistava dois empresários judeus que endossavam a campanha de Bolsonaro na eleição de 2018. No pleito, o militar se posicionou desde o início em forte oposição à campanha do PT, em que Luiz Inácio Lula da Silva começou como candidato e deu lugar a Fernando Haddad, e eventualmente despontou como principal nome da direita. À reportagem, Meyer Nigri, fundador da construtora Tecnisa, e Fabio Wajngarten, publicitário, mencionaram como motivo do apoio ao ex-capitão a oposição à esquerda e o compromisso de Bolsonaro com o Estado de Israel.

    Em 2019, com o novo presidente eleito, Wajgarten assumiu o cargo de chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência. Em janeiro de 2020, o publicitário protagoniza uma crise por suspeita de conflito de interesses. Sua atuação está sendo questionada pelo fato de a empresa de marketing da qual Wajngarten é sócio ter como clientes redes de TV e agências que recebem verbas publicitárias da própria Secretaria de Comunicação.

    Na matéria da piauí, os empresários afirmavam que não viam problemas nas falas polêmicas do então candidato, e que só deixariam de apoiá-lo se fossem tomadas ações concretas de intolerância e perseguição a minorias. Nigri chegou a dizer que via na comunidade judaica um apoio maciço a Bolsonaro.

    “[Acredito que] 90% da comunidade judaica seja a favor de Bolsonaro. [Mas] Os 10% que não apoiam são mais barulhentos”

    Meyer Nigri

    empresário, em matéria publicada pela piauí em 19 de fevereiro de 2018

    Após a publicação das declarações de Nigri e Wajngarten, a Conib emitiu uma nota lamentando a “atitude de alguns de seus membros, que pretendem identificar a comunidade com um ou outro candidato”. Em uma nova matéria da revista piauí, publicada apenas quatro dias depois, representantes de instituições judaicas afirmaram que a comunidade no Brasil era marcada pela pluralidade de ideias e que, portanto, não seria possível falar em apoio maciço a Bolsonaro.

    “Meu temor é que a sociedade brasileira em geral tome as declarações dele [Meyer Nigri] como verdadeiras e acredite mesmo que a comunidade judaica é pró-Bolsonaro, o que é um equívoco”

    Fernando Lottenberg

    presidente da Conib, em entrevista à piauí publicada em 23 de fevereiro de 2018

    As manifestações contra Bolsonaro em 2018

    Se a campanha de Bolsonaro em 2018 contava com apoio de grandes empresários judeus, outra parte da comunidade se mobilizou contra o ex-capitão. Nas semanas que antecederam as eleições, grupos da comunidade judaica brasileira se organizaram para reagir ao crescimento de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto.

    Nas manifestações contra Bolsonaro organizadas nas semanas que antecederam o pleito, grupos de judeus levaram faixas com símbolos e referências judaicas, como a Estrela de Davi. Também foram feitas alusões a figuras como Iara Iavelberg e Vladimir Herzog, mortos pela ditadura militar na década de 1970.

    A comunidade judaica no Brasil

    A Conib estima que há 120 mil judeus morando no Brasil, com grande diversidade na origem geográfica e no momento em que as famílias chegaram ao Brasil.

    A primeira presença de judeus no país foi registrada no século 16, quando chegaram os chamados cristãos-novos – judeus convertidos ao cristianismo fugidos da Inquisição na Europa. Os cristãos-novos, no entanto, não chegaram a se juntar em comunidades organizadas.

    A primeira sinagoga fundada em solo brasileiro foi a Kahal Kadosh Zur Israel (Santa Comunidade Rochedo de Israel). Criada em 1636, em Recife, durante a ocupação holandesa, foi também a primeira de todas as Américas. A segunda comunidade organizada por judeus surgiu em Belém, no Pará, na década de 1820.

    A partir da virada do século 19 para o 20, a imigração judaica ao Brasil se intensificou e comunidades foram formadas em todas as regiões do país. O principal fluxo ocorreu nas décadas de 1920 e 1930, quando movimentos antissemitas ganharam força pelo mundo e em especial na Europa; na década de 1930, o número de judeus no Brasil ultrapassou a barreira dos 50 mil. A maioria dessas pessoas estava concentrada em núcleos urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, onde a presença judaica é forte até os dias de hoje.

    Os fluxos de imigrantes judeus nos séculos 19 e 20 tinham origem tanto no Oriente Médio como na Europa – seja Ocidental ou Oriental. Também vieram ao Brasil judeus do norte da África, geralmente fugindo da perseguição em países como o Egito.

    No judaísmo por todo o mundo, as diferenças de origem geográfica serviram como critérios para separação em diferentes grupos. Os dois principais são os ashkenazim, ligados a uma origem geográfica e histórica na Europa não-Ibérica, e os sefaradim, ligados a países árabes, Espanha e Portugal.

    Além das origens geográficas, a diversidade dentro das comunidades judaicas também está relacionada às diferentes correntes em que se separa o judaísmo. Há diversas variações dentro da religião; as três principais são as correntes ortodoxa, reformista e conservadora.

    Em termos sucintos, os ortodoxos seguem com maior rigor os escritos da lei judaica. Os reformistas, por sua vez, adaptam os princípios das leis judaicas e das tradições religiosas ao local e tempo histórico em que vivem. Por fim, os conservadores acabam ficando no meio termo entre as outras duas correntes. Há diferentes subdivisões entre esses grupos, cujas práticas também variam de acordo com a tradição e origem geográfica da família.

    A relação entre a comunidade judaica brasileira e Bolsonaro

    Para entender como a comunidade judaica no Brasil se relaciona com o governo de Jair Bolsonaro, o Nexo conversou com Bruno Leal, professor de história na UnB (Universidade de Brasília), pesquisador associado do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e editor do portal de divulgação científica Café História.

    Como definiria a comunidade judaica no Brasil?

    Bruno Leal A comunidade judaica, tanto no Brasil quanto em qualquer outro lugar, deve ser pensada sempre no plural. São “comunidades”, na verdade. Há pessoas religiosas e não religiosas, sionistas e não-sionistas, pobres e ricas, de diferentes origens geográficas, localizadas no quadrante de direita e da esquerda, e com várias outras identidades atravessando a sua identidade judaica.

    É uma comunidade bastante pulsante do ponto de vista cultural e que tem uma vida institucional muito ativa. Há clubes, federações regionais, uma confederação, hospitais, escolas, museus, casas de repouso e, claro, sinagogas.

    Como definiria a relação da comunidade judaica brasileira com o governo Bolsonaro?

    Bruno Leal É uma relação que reflete a heterogeneidade dessa comunidade e da própria sociedade brasileira como um todo. Há judeus que apoiam e judeus que não apoiam o governo do presidente.

    Nos faltam ainda pesquisas sociológicas para entendermos qual exatamente é a parcela da comunidade judaica que apoia Bolsonaro e os motivos desse apoio, mas eu acredito que muitos foram mobilizados pelo antipetismo, como ocorreu com protestantes, católicos e ateus. Além disso, eu acredito também que muitos dos judeus que votaram no Bolsonaro pertencem à classe média alta ou são pessoas que se identificam com o liberalismo econômico.

    O corte de classe é algo que definitivamente não devemos desprezar na análise política. Se eu estiver correto, isso apenas mostra que o apoio a Bolsonaro tem mais a ver com o recorte de classe, já que o governo Bolsonaro favorece as classes sociais mais altas e aqueles que se alinham à ideologia liberal, do que efetivamente com uma questão judaica em si.

    Como as instituições que formam essa comunidade lidam com as diferenças dentro da dela? Como essa pluralidade interna se traduz no meio político?

    Bruno Leal As instituições judaicas agem de maneira diversa, dependendo do seu quadro diretor no momento, que pode ser mais ou menos progressista. Mas o que é realmente interessante notar aqui é que tudo isso energiza bastante o tema da representatividade.

    No início dos anos 1950, a então Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro, atual FIERJ [Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro], criada em 1947 e muito associada ao sionismo, se chocou em vários momentos com o Comitê Unido, um grupo formado por diversas associações judaicas do Rio de Janeiro e de São Paulo, principalmente de esquerda, e que tinham uma posição mais internacionalista. A Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro considerava-se a única entidade judaica autorizada a falar em nome da comunidade judaica carioca, algo que o Comitê Unido não aceitava de jeito nenhum.

    Em 2018, durante a campanha eleitoral, vimos algo bem parecido. No ano anterior, 2017, a Associação Sionista Brasil-Israel (ASBI) [página de Facebook sem caráter oficial com em torno de 4.700 curtidas] fez um abaixo-assinado em defesa de Jair Bolsonaro [que obteve 35 mil assinaturas]. Logo depois a Federação Israelita do Rio (Fierj) publicou uma nota dizendo que ela seria a única entidade com legitimidade para se manifestar em nome da comunidade judaica estadual e que “repudia qualquer manifestação em nome de seus representados”. Ora, isso nos faz perceber como a comunidade judaica e suas instituições são múltiplas, e como a questão da representatividade é uma marca dela.

    Na semana passada [após o vídeo da Secretaria da Cultura], a Confederação Israelita do Brasil (Conib) repudiou e pediu o afastamento do secretário de Cultura, Roberto Alvim. A Federação Israelita do Rio de Janeiro também ficou bastante incomodada com o fato e está pensando se pode fazer alguma coisa juridicamente. O que me parece é que as instituições judaicas estão ensaiando uma desvinculação da imagem delas com a do governo Bolsonaro.

    Em vários momentos o governo Bolsonaro fez a defesa do que chama de "tradição judaico-cristã", apesar da laicidade do Estado brasileiro. Como avalia esse posicionamento?

    Bruno Leal É um discurso marcado pela exclusão, como quase tudo que caracteriza o governo Bolsonaro. O Estado brasileiro não pode favorecer uma ou outra crença religiosa ou ideologia, embora possa e deva ter suas convicções políticas. O Brasil é de protestantes, católicos, muçulmanos, judeus, umbandistas e qualquer outra denominação religiosa. Isso faz parte da democracia e está assegurado pela Constituição.

    Essa “tradição judaico-cristã” é uma retórica muito perigosa criada pelo próprio Bolsonaro. O presidente acredita que os valores cristãos e judaicos são os únicos valores compatíveis com o Brasil. O maior problema é quando esse tipo de visão se torna a visão do Estado. E aí nós temos uma grande ironia, pois o Estado brasileiro nos anos 1920 e 1930 também tinha uma visão do que era “compatível” com as “tradições brasileiras”, mas, naquele caso, essa visão excluía os judeus, além de negros e japoneses. Foi essa visão, inclusive, que gerou circulares secretas que restringiram e vetaram a imigração de diversos judeus que tentaram vir para o Brasil a fim de escapar do genocídio nazista na Europa. Muitos não conseguiram, tendo os seus vistos negados.

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