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Quem é o Mr. Rogers encarnado por Tom Hanks em seu novo filme

Por 34 anos, apresentador americano manteve o programa diário 'Mister Rogers’ Neighborhood', que discutiu temas como divórcio e racismo para  várias gerações

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    “É um belo dia nessa vizinhança / Um belo dia para um vizinho / Você seria meu? / Você poderia ser meu? / Vizinho”. De segunda a sexta, crianças dos Estados Unidos sintonizavam na rede de TV PBS à espera de Fred Rogers. Cantarolando essas palavras, ele se desfazia do terno e do sapato social, buscava um cardigã colorido no armário e calçava um tênis mais confortável.

    Ao longo de 34 anos, de 1968 a 2001, ele repetiu o mesmo ritual, sempre com uma voz pausada e calma. Foram mais de 900 episódios de “Mister Rogers’ neighborhood” (O bairro do senhor Rogers, em tradução livre) que renderam ao apresentador dezenas de prêmios, como o Life Achievement Emmy (algo como Realização ao longo da vida) em 1997 e a medalha presidencial da liberdade dada pelo então presidente George W. Bush em 2002.

    Uma biografia e um documentário foram lançados em 2018 para detalhar a vida de um dos principais comunicadores da televisão americana. Agora, uma ficção estrelada por Tom Hanks leva a história ao cinema e à cerimônia do Oscar com "Um lindo dia na vizinhança", que estreou no Brasil na quinta-feira (23).

    Indicado à categoria de melhor ator coadjuvante, Hanks divide tela com Matthew Rhys, que interpreta um jornalista escalado para escrever um perfil de Rogers, e que é inicialmente cético à bondade do apresentador.

    Micah Fitzerman-Blue, um dos roteiristas do filme, afirmou que foi preciso encontrar um protagonista diferente de Rogers porque o apresentador “foi incrivelmente incrível por 73 anos”. Segundo ele, não parecia haver altos e baixos na história dele, o que prejudicaria o longa. Foi quando eles recorreram à história por trás do perfil escrito à revista Esquire por Tom Junod em 1998, que inspira o roteiro do filme.

    Ainda que seja um fenômeno restrito ao país onde fez carreira, a influência de Rogers extrapola gerações. Em um comentário com milhares de curtidas publicado em um vídeo do apresentador no YouTube, um usuário escreve que “como uma criança do gueto, Rogers foi o primeiro homem branco em quem confiei”. Outra diz que “como uma jovem latina sem pai e criada como filha única por uma mãe trabalhadora, eu secretamente fingia que Rogers era meu pai. Eu sabia todos os dias — não importasse o que acontecesse — que poderia contar que ele estaria ali”.

    Quem é Fred Rogers

    Nascido em 1928 na Pensilvânia, Fred McFeely Rogers se formou em composição musical pela Rollins College. Muitas das canções interpretadas por ele em “Mister Rogers’ neighborhood” são de autoria própria.

    Na televisão, os primeiros trabalhos foram como manipulador de marionetes, na década de 1950. Na WQED, canal público de Pittsburgh, ele desenvolveu vários dos personagens que o acompanhariam pelo resto da carreira, como o tigre listrado Daniel e o rei Sexta-feira 13. Foi nessa época também que ele decidiu que só usaria tênis por ser um calçado mais silencioso para as gravações.

    Sua estreia em frente às câmeras aconteceu em 1963, no Canadá, com “Misterogers”, quando ele já desenvolvia alguns dos cenários mais famosos do futuro programa. Ele retornou a Pittsburgh com o material e passou a usá-lo para a audiência local, até, em 1968, a PBS passar a exibir o programa por todo os Estados Unidos.

    Durante o tempo em que esteve no ar, os fantoches e arranjos eram bem simples. Os debates, por outro lado, traziam temas que muitos pais evitavam abordar, como divórcio e ciúmes. Para isso, Rogers trabalhava com uma equipe de psicólogos infantis, com especial apoio de Margaret McFarland, conhecida na época por usar a narrativa como ferramenta pedagógica.

    A confiança que o apresentador tinha nela era tão grande que muitas vezes ele deixava as filmagens para consultá-la sobre algum ponto do roteiro. Para ela, a empatia e as memórias pessoais poderiam ajudar a interpretar os comportamentos das crianças.

    Isso era transportado para as esquetes do programa quando Rogers convocava crianças para contar suas histórias de vida e tirar lições disso. Uma das principais era a de aceitar o próximo, através da máxima repetida ao longo de vários episódios, “eu gosto de você do jeito que você é” — que inclusive lhe rendeu críticas de que ele teria promovido uma geração de crianças que não querem trabalhar duro para melhorar a si mesmas.

    Na biografia publicada em 2018, o autor Maxwell King revela que alguns colegas de trabalho demonstravam frustração pela teimosia e o perfeccionismo do apresentador. Ainda assim, a fama que mantinha era de alguém compreensivo. Em 1983, ele foi à Suprema Corte americana discursar em favor das videocassetes: “Sou contrário às pessoas terem sua programação definida por outros. Acho que qualquer coisa que permita que alguém seja mais ativo no controle de sua vida, de uma forma positiva, é importante”.

    Anos antes, ele já havia testemunhado ao Senado americano contra um corte de US$ 20 milhões às televisões públicas proposto pelo então presidente Richard Nixon em 1969. Seu discurso teria convencido um dos senadores com fama de carrasco a mudar o voto.

    Um ano após o fim de “Mister Rogers’ neighborhood”, o apresentador seria diagnosticado com câncer de estômago, no final de 2002, vindo a falecer em fevereiro de 2003.

    Como sua fé moldou o programa

    Cristão, depois de terminar o curso de música Rogers entrou numa segunda graduação no Seminário Teológico de Pittsburgh. Paralelamente aos trabalhos na televisão, ele continuou os estudos e foi pastor em uma igreja presbiteriana conhecida pela inclusão sexual e racial.

    Para o programa, trouxe vários de seus princípios. Segundo Rogers, o espaço entre o set de televisão e a pessoa que assiste é território bastante sagrado. “Fui para a televisão porque eu a odiava, e pensei que haveriam outras formas de usar esse instrumento fabuloso para nutrir quem assistia e escutava”, disse à CNN.

    Para ele, a TV até os anos 1960 era tomada por constantes estímulos, que ameaçavam a gentileza, a imaginação e a contemplação da sua “congregação”, como se referia às crianças.

    A revolução pelo qual o horário nobre passava também influenciaria o trabalho de Rogers. Acompanhando os movimentos civis e feministas, surgiam cada vez mais programas que exploravam temas como o racismo, homossexualidade, emancipação feminina e Guerra do Vietnã.

    Rogers adaptaria várias dessas discussões para o público infantil, já que, para ele, a televisão era mais do que um instrumento passivo de entretenimento, mas sim algo que podia formar indivíduos em tempo real.

    Para isso, a principal estratégia era abandonar a imagem, comum em diversos programas da época, do adulto que finge ser criança. Segundo artigo de L. Benjamin Rolsky, professor de história, religião e antropologia da Universidade Monmouth, ele era adulto — “Mr. Rogers” e não “Fred” —, mas entendia o que era brigar com o irmão ou ter medo de alguém diferente.

    “Se Jim Henson [da Vila Sésamo] era o tio hippie legal que ensina a alegria da contagem e dos biscoitos, Rogers era o padrinho que fornecia orientação moral”, afirma.

    Nos anos finais de sua vida, Maxwell King conta na biografia que Rogers olhava com desânimo o crescimento da violência na televisão, mesmo nos programas infantis, a ponto de questionar quão útil seu trabalho como defensor das crianças tinha sido.

    Três episódios marcantes de “Mister Rogers’ neighborhood”

    O oficial Clemmons (episódio 65 da 2ª temporada)

    Numa época em que políticas de segregação não permitiam a negros dividir piscinas públicas com os brancos, Rogers convidou o oficial Clemmons, um policial negro, para lavar os pés juntos em uma piscina de plástico. Rolsky afirma que há também uma conotação do lava-pés bíblico.

    O cadeirante Jeff Erlanger (episódio 3 da 13ª temporada)

    Em dez minutos sem roteiro e sem treino, Rogers convidou Jeff Erlanger, um garoto de dez anos, para explicar para outras crianças porque ele precisa da cadeira de rodas. Ao fim, os dois cantam “É de você que eu gosto”, composta pelo apresentador. Mais tarde, ele consideraria esse momento “autêntico, de uma conversa entre duas pessoas que se importam uma com a outra”.

    Divórcio (episódio 1 da 13ª temporada)

    Como tratar de algo tão delicado para as crianças? “Às vezes, papais e mamães não amam mais um ao outro” seria como Rogers responderia. Deixando claro que isso não era culpa da criança, e que o amor dos pais por ela de forma nenhuma seria reduzido.

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