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Como o Brasil ajudou a adiantar o Relógio do Juízo Final

Em mudança histórica, dispositivo criado em 1947 para medir a aproximação do fim do mundo passou a marcar 100 segundos para a meia-noite. Políticas ambientais do país foram citadas como uma das causas para o avanço dos ponteiros

Os ponteiros do Relógio do Juízo Final avançaram 20 segundos. Dos dois minutos medidos em 2019, agora o dispositivo marca que faltam 100 segundos para a meia-noite.

O Relógio do Juízo Final foi criado em 1947 pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, formado por pesquisadores e professores da Universidade de Chicago. O relógio é uma metáfora para simbolizar os perigos que ameaçam a humanidade. Nessa lógica, a meia-noite marca o fim da espécie.

Ao longo dos anos, os ponteiros do relógio foram para frente e para trás: em 1991, com o fim da Guerra Fria, eles marcaram 17 minutos para a meia-noite. Em 2002, quando as tensões entre Estados Unidos e Oriente Médio estavam aumentando após o 11 de setembro, o relógio marcava cerca de oito minutos para a meia-noite.

O Brasil no Boletim dos Cientistas Atômicos

A cada mudança nos ponteiros, o Boletim dos Cientistas Atômicos divulga um pronunciamento, explicando as causas da decisão. Em 2020, o Brasil foi citado pela primeira vez como um dos países que contribuíram para o avanço do relógio.

“No ano passado, alguns países tomaram decisões para combater a mudança climática [...] Mas outros deram passos grandes para trás, como os EUA, que formalizaram a saída do Acordo de Paris, e o Brasil, que desmantelou políticas de proteção à Amazônia.”

Em 2019, no primeiro ano do governo do presidente Jair Bolsonaro, o panorama ambiental brasileiro foi criticado em diversas ocasiões, tanto no plano doméstico quanto no internacional.

Em novembro, a ONU publicou um relatório a respeito emissão de gases causadores do efeito estufa no mundo todo, dando destaque negativo para o Brasil.

De acordo com estimativas divulgadas também em novembro pelo Sistema de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, referentes a 2018 (sob o governo de Michel Temer), o desmatamento foi a principal fonte de emissões no Brasil com 44% do total.

As queimadas, principal método de desmatamento, liberam gás carbônico e metano na atmosfera. Além das emissões ocasionadas pelas queimadas, o desmate da Amazônia também tem efeitos nocivos por conta da atuação natural do bioma na redução de gás carbono na atmosfera. Com 5 milhões de quilômetros quadrados, a maior floresta tropical do mundo armazena um estoque de carbono sob a copa das árvores

O relatório da ONU registra que entre 2004 e 2012 havia ocorrido uma “forte redução” nos níveis de devastação da floresta. No entanto, diversas medidas do presidente Jair Bolsonaro enfraqueceram a defesa do meio ambiente no país a partir de 2019.

Entre os diversos exemplos citados no documento da ONU estão a redução do orçamento do Ministério do Meio Ambiente, o relaxamento de regras para multas a infratores ambientais e o fim da maior parte das comissões e comitês com participação da sociedade civil na área.

Meses antes da divulgação do relatório, em agosto, a Amazônia teve mais de 30 mil focos de incêndio, um número três vezes maior aos dados consolidados de 2018.

A disparada de queimadas na Amazônia em 2019 desgastou o governo Bolsonaro, que já vinha enfrentando críticas pela alta do desmatamento detectada desde maio pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A crise recebeu atenção mundial, e o Planalto foi pressionado a tomar medidas para combater o fogo.

Os incêndios também foram estopim para uma crise diplomática entre Bolsonaro e o presidente francês, Emmanuel Macron.

Outros países, outras causas

O texto do Boletim de Cientistas Atômicos também cita o risco de proliferação nuclear a partir dos conflitos políticos envolvendo a relação dos EUA com a Coreia do Norte e o Irã.

Na virada de 2019 para 2020, Kim Jong-un, o mandatário norte-coreano, declarou que o país vai voltar a realizar testes nucleares, que estavam suspensos desde 2017. O ditador afirmou que as sanções impostas pelos americanos nesse contexto eram “exigências de mafiosos”.

Na primeira semana de 2020, o Irã anunciou a retomada de seu programa de desenvolvimento nuclear, após os EUA terem orquestrado um ataque com drones que matou o principal líder militar do país, Qassim Suleimani.

O boletim também cita a guerra da desinformação presente nas redes sociais e outras plataformas digitais.

“No último ano, muitos governos usaram campanhas de desinformação cibernéticas, campanhas para aumentar a desconfiança às instituições e a desconfiança entre nações”, diz o comunicado.

A história do relógio

O Relógio do Juízo Final foi criado em 1947. Naquele ano, o mundo ainda se recuperava da Segunda Guerra Mundial.

O Boletim dos Cientistas Atômicos à época se chamava Cientistas Atômicos de Chicago, e reunia pesquisadores que tinham trabalhado no Projeto Manhattan, a iniciativa do governo americano que resultou no desenvolvimento da bomba nuclear.

Quanto mais perto da meia-noite, mais se faz necessária uma atitude de governos do mundo todo para evitar uma “catástrofe global” – esse é o termo utilizado pelos cientistas para marcar o “Juízo Final”. Não há critérios quantitativos para o avanço dos porteiros – as conclusões dos cientistas são reveladas por ocasião da divulgação anual do boletim.

Ao ser criado, o Relógio do Juízo Final marcava sete minutos para a meia-noite. Desde então, ele teve seus ponteiros adiantados e atrasados em 23 ocasiões, e a marca de 2020 é a mais próxima da meia-noite já registrada.

O Relógio do Juízo Final já apareceu na cultura pop em algumas ocasiões. Na música, ele foi tema de “Two Minutes to Midnight”, canção composta pela banda britânica Iron Maiden em 1984. Nos quadrinhos, é elemento presente na trama de “Watchmen”, minissérie em 12 edições escrita por Alan Moore e publicada em 1986.

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