Brumadinho, 1 ano: as causas da tragédia e a realidade dos atingidos

Elementos que contribuíram para o rompimento da barragem da Vale aparecem em auditoria externa e denúncia do Ministério Público de Minas Gerais. Tragédia deixou 270 mortos, sendo que 11 corpos ainda não foram encontrados

Em 25 de janeiro de 2019, uma barragem da Vale com 9,7 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, o equivalente a uma lagoa e meia do tamanho da Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, ruiu na cidade mineira de Brumadinho, às 12h28. A ruptura ocorreu em menos de dez segundos. Cinco minutos depois, 75% do material foi parar no meio ambiente que rodeava a estrutura.

O que tornava a tragédia mais dramática, para além dos potenciais danos ambientais, era o fato de que a mineradora mantinha, imediatamente abaixo da Barragem 1, as áreas industriais e administrativas de sua mina do Córrego do Feijão. Refeitório, vestiário, oficina e almoxarifado instalados na área eram usados por 600 pessoas.

Em apenas 63 segundos, um tsunami de lama numa velocidade de 80 km/h engoliu as instalações da empresa. “A magnitude do rompimento da Barragem 1 pode ser representada pelo abrupto desabamento de uma dezena de prédios de 24 andares se comportando como uma onda fluida de rejeitos”, descreveu o Ministério Público de Minas Gerais ao denunciar, em janeiro de 2020, os responsáveis pela tragédia.

Ao todo, 270 funcionários da mineradora morreram, no maior acidente de trabalho já registrado no Brasil. Onze das vítimas não foram encontradas.

Em 21 de janeiro de 2020, às vésperas do aniversário de um ano da tragédia, 16 pessoas, incluindo o ex-presidente da Vale Fabio Schvartsman, foram denunciados pela Promotoria, sob acusação de homicídio doloso. A Vale e Tüv Süd, contratada para certificar a segurança da estrutura, vão responder ainda por crimes ambientais.

Juntos, a denúncia feita pelo Ministério Público de Minas Gerais e um laudo externo contratado pela própria Vale ajudam a ilucidar o que aconteceu naquele dia e quais atores estavam diretamente envolvidos.

A ruptura da barragem

A construção

A estrutura da Vale utilizou o método a montante, o mais barato e menos seguro dos existentes. Isso significa que a barragem foi construída para dentro de si mesma, ao longo de 37 anos. Sua parede de contenção foi, gradativamente, erguida até 2013, e seu reservatório recebeu rejeitos da Vale até 2016. Desde então, estava inativa. A auditoria contratada pela própria mineradora para investigar a ruptura notou os seguintes aspectos que seriam cruciais na tragédia: a barragem era “relativamente íngreme”; no início, houve um recuo (afastamento da parede) para dentro, o que moveu sua parte superior “para cima de rejeitos” mais fracos; e a ausência de “recursos de drenagem significativos” também fez com que o nível de água dentro da barragem ficasse “muito alto”.

O material armazenado

“Uma descoberta significativa foi que os rejeitos retidos pela barragem tinham um teor muito alto de ferro, superior a 50%”, diz o relatório encomendado pela Vale. O alto teor de ferro, segundo o documento, foi responsável por dar aos rejeitos “um alto peso específico total”. Por conta desse peso e da pressão da água, o material tornou-se “fofo” e capaz de se contrair com uma carga constante. “Estas características resultaram em um material com potencial de perda de resistência significativa e rápida”, diz o relatório.

A causa

O documento concluiu que o rompimento se deu por “liquefação estática” dos materiais da barragem, ou seja, eles perderam resistência e passaram para um estado fluído. Isso ocorreu pela combinação dos elementos observados pelos peritos: partes significativas da estrutura estavam “sob carregamentos muito elevados” por causa da inclinação da barragem, com alto peso dos rejeitos (devido ao teor de ferro e do recuo) e alto nível de água. “A combinação de uma barragem íngreme construída a montante, alto nível de água, rejeitos finos fracos dentro da barragem e a natureza frágil dos rejeitos gerou as condições para o rompimento”, diz o relatório. Os auditores apontam ainda que as chuvas às vésperas da tragédia podem ter contribuído para a ruptura.

As responsabilidades

Vale

Segundo a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais, Fabio Schvartsman foi escolhido em 2017 para presidir a Vale com a função de tornar a empresa a “maior mineradora do mundo em valor de mercado”. Essa liderança, segundo os promotores, não seria alcançada apenas aumentando a produção de minério, mas incrementando o valor de mercado da empresa, o que passava por sua reputação. Desde 2017, a Vale sabia dos riscos com a Barragem 1, mas optou, deliberadamente, de acordo com a denúncia, por omitir dados e “assumir riscos criminosos” em troca de seu objetivo.

R$ 8,8 milhões

era o custo da morte de cada pessoa na ruptura da barragem, segundo cálculo da Vale antes da tragédia

R$ 622 milhões

era o custo calculado pela Vale com possíveis sanções de órgãos públicos, em caso de ruptura

R$ 7 bilhões

era o custo para a empresa caso sua imagem fosse manchada por mais um desastre socioambiental, segundo estimativa interna

Tüv Süd

A estratégia da diretoria da Vale, segundo a acusação, era ocultar e dissimular informações de seus acionistas sobre os riscos das estruturas. Para tanto, a Vale contratou a Tüv Süd para emitir falsos relatórios de estabilidade da barragem “para evitar impactos reputacionais negativos de curto prazo”. Os promotores dizem que a Tüv Süd chegou a distorcer um estudo para diminuir o fator de segurança considerado na inspeção e, assim, garantir a estabilidade da barragem.

O que as empresas dizem

A Vale afirmou ter recebido a denúncia com “perplexidade” e que é prematuro “apontar assunção de risco consciente para provocar uma deliberada ruptura da barragem” já que outros órgãos, além do Ministério Público de Minas Gerais, também investigam o caso. A empresa disse confiar no “completo esclarecimento das causas da ruptura e reafirma seu compromisso de continuar contribuindo com as autoridades”.

A Tüv Süd afirmou estar “consternada” com a denúncia e reiterou seu compromisso em “ver os fatos esclarecidos”. Três indiciados da empresa afirmam que a acusação “contém graves erros e faz uma interpretação completamente equivocada da prova técnica que foi produzida”. Eles dizem ter pautado seus trabalhos “nas melhores práticas e em acordo com os parâmetros internacionais de engenharia”.

Brumadinho, 1 ano depois

As vítimas

Como resposta à tragédia, a Vale distribuiu em 2019 um auxílio emergencial a todos os cidadãos adultos de Brumadinho, mesmo aos que não foram diretamente atingidos. O valor é de um salário mínimo, acrescentado de meio salário para cada adolescente e 25% de um salário para cada criança. Segundo a empresa, até 98 mil pessoas recebem o dinheiro, mas apenas 15 mil devem continuar recebendo o auxílio integral em 2020. A iniciativa, que será paga por mais dez meses, acabou gerando aumento no custo de vida da cidade, já que o preço da gasolina e do aluguel na cidade, por exemplo, subiram. O município também inchou: devido às contratações da Vale para as obras de reparo, a população, que era estimada em 40 mil pessoas, pulou para cerca de 70 mil. Familiares das vítimas e pessoas que perderam bens e propriedades têm recebido indenizações, cujos valores não são divulgados, e feito acordos com a mineradora. A empresa diz ter celebrado mais de 5.000 deles. Houve aumento também nos casos de depressão e no consumo de ansiolíticos e antidepressivos.

Os bombeiros

Desde o dia da tragédia, as buscas pelas vítimas ocorrem sem um único dia de pausa, incluindo feriados como o Natal. Os bombeiros afirmam que continuarão buscando os corpos restantes até que todas as vítimas sejam encontradas ou até que o material achado não permita mais o reconhecimento pelo DNA. O efetivo, que era de 150 bombeiros, foi reduzido a 90 homens devido à época de chuvas. As equipes também contam com 68 cães farejadores e estimam ter examinado 96% dos 7 milhões de m² de área atingidos pelo desastre, a uma profundidade de até 3 metros.

Rio Paraopeba

Brumadinho continua sendo abastecida por caminhões-pipa. Segundo monitoramento da Fundação SOS Mata Atlântica, o rio Paraopeba, que abastecia a cidade, continua impróprio e sem condição de vida em 2020, e os metais pesados presentes nas águas foram carregados pelas chuvas para pontos distantes. Na mais recente análise, no início de janeiro, nove dos 21 pontos monitorados passaram de ruim para péssimo em relação à qualidade da água. Não houve alteração em cinco pontos e, em seis deles, a condição foi de péssima para ruim.

A Vale

A mineradora, que enfrentou queda de 24,5% no valor de suas ações e teve perda de R$ 72 bilhões em valor de mercado em um único dia logo após a tragédia, recuperou seu valor antes mesmo que as mortes em Brumadinho completassem um ano. No início de 2020, suas ações subiram 3,3% devido aos bons indicadores da China, principal importador da mineradora. Os papéis chegaram a R$ 57, acima dos R$ 56,15 que eram registrados antes da tragédia. A Vale diz ter gasto com indenizações e outras despesas R$ 6,6 bilhões em 2019. A previsão é que o valor desembolsado seja de R$ 33 bilhões até 2031, incluído o descomissionamento (desmonte) de outras nove barragens.

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