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O que liga a Arábia Saudita ao hackeamento do celular de Jeff Bezos 

Dono do ‘Washington Post’ e da Amazon teve smartphone invadido, em ataque atribuído por relatores da ONU ao príncipe herdeiro do país

    Dois relatores especiais da ONU (Organização das Nações Unidas) afirmaram na quarta-feira (22) que o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, pode ter espionado o celular do empresário americano Jeff Bezos, dono da Amazon e do jornal Washington Post.

    A revelação sugere que o príncipe herdeiro, conhecido pela sigla MBS, teve acesso a conteúdos privados do celular de Bezos com a intenção de constrangê-lo e chantageá-lo a não publicar conteúdos negativos à monarquia saudita em seu jornal – um dos principais dos EUA e um dos mais influentes do mundo.

    O Washington Post, de Bezos, é a publicação para qual trabalhava o jornalista saudita Jamal Khashoggi, morto e esquartejado dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, em outubro de 2018. Khashoggi era um jornalista crítico da família real saudita, que controla um regime fechado – o oitavo pior país do mundo para o jornalismo, de acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras – e sobre o qual o Post tinha uma cobertura desfavorável.

    O hackeamento do aparelho de Bezos ocorreu em maio de 2018, cinco meses antes de Khashoggi morrer. Os relatores da ONU chegaram ao hackeamento de Bezos através das investigações da morte de Khashoggi. O caso é da alçada deles porque envolve um assassinato com fortes suspeitas de envolvimento oficial e ameaça à liberdade de expressão. Nas Nações Unidas, a francesa Agnes Callamard é relatora do primeiro tema e o americano David Kaye, do segundo.

    Qual a amplitude do caso

    A preocupação dos relatores da ONU não é apenas com Bezos, mas com um esquema muito mais amplo de perseguição da monarquia saudita contra seus críticos, dentro e fora do país.

    Essa perseguição, caso confirmada, representa uma violação das normas internacionais de direitos humanos por parte de um país-membro das Nações Unidas e, do ponto de vista dos relatores, enfraquece todo esse sistema de proteção – que é a própria razão de ser da ONU.

    Callamard e Kaye consideram haver um “padrão de vigilância de possíveis opositores” da Arábia Saudita por parte da monarquia, o que indica que o caso pode ter ido além de Bezos e Khashoggi. A dupla de relatores apela para os EUA e outros países-membros investigarem o ocorrido.

    Politicamente, o caso impõe um desafio aos EUA. A Arábia Saudita é o principal aliado árabe dos americanos no Oriente Médio. Essa aliança pressupõe implicitamente a tolerância dos EUA às violações de direitos humanos sabidamente cometidas pela monarquia saudita. Ao pedir que os EUA pressionem por investigações, os relatores da ONU colocam um dilema moral ao presidente Donald Trump em ano eleitoral.

    O que dizem os relatores exatamente

    No documento, Callamard e Kaye também chamam atenção para o risco de governos e empresas ocidentais compartilharem programas de espionagem com aliados como os sauditas, que “não têm controle judicial sobre seu uso”.

    Para eles, “esse é um exemplo concreto dos estragos que resultam de um mercado desregulado de venda e uso de spyware”, em referência aos programas maliciosos de captura de informação alheia.

    Com base em perícias feitas por empresas privadas do setor, os relatores informaram que uma grande quantidades de dados começou a ser puxada do aparelho de Bezos logo após ele ter visto um vídeo que havia sido enviado a ele pelo príncipe herdeiro MBS. O vírus usado foi provavelmente o Pegasus-3, desenvolvido por empresas como a israelense NSO e a italiana Hacking Team.

    Revelações paralelas

    O documento dos relatores da ONU não revela muito mais que isso. Eles pedem agora que os Estados-membros das Nações Unidas procedam com novas investigações e com pressão sobre a monarquia saudita.

    Enquanto isso, as informações dadas pelos relatores vem permitindo que algumas publicações estabeleçam ligações com casos paralelos envolvendo Bezos. Uma dessas publicações é o jornal americano Wall Street Journal. Num texto de quarta-feira (22) o jornal lembra do vazamento de mensagens íntimas de Bezos – um episódio que pode estar ligado ao acesso das informações no celular dele.

    Em janeiro de 2019, um tabloide americano de fofocas chamado National Enquirer publicou informações sobre um caso extraconjugal de Bezos. O tabloide publicou mensagens de texto vazados do celular do empresário. O caso resultou num divórcio no qual Bezos pagou US$ 38 bilhões à ex-esposa.

    O tabloide que publicou o caso de Bezos é de propriedade do conglomerado AMI, cujo um dos proprietários é o empresário David Pecker. De acordo com os responsáveis pela segurança de Bezos, Pecker tem proximidade com o príncipe herdeiro saudita, com o presidente Donald Trump e com um ex-cunhado de Bezos, que teria intermediado o vazamento das informações.

    À época, Bezos contratou a empresa FTI Consulting para investigar a origem do vazamento.As constatações dessa investigação também subsidiaram as preocupações dos relatores da ONU agora.

    O que dizem os sauditas

    O príncipe herdeiro da Arábia Saudita tem uma abordagem contraditória para o assassinato de Khashoggi e uma postura de negação total sobre qualquer envolvimento no vazamento das mensagens.

    Embora o príncipe MBS tenha assumido parte da culpa pelo assassinato do jornalista, em 2018 – enquanto líder do país e chefe dos serviços de segurança – ele nunca foi responsabilizado por nada disso. Em 23 de dezembro, a Justiça saudita condenou cinco pessoas à morte pelo episódio Khashoggi, aparentemente encerrando o caso.

    Já sobre o caso Bezos, a embaixada da Arábia Saudita nos EUA publicou uma mensagem afirmando: “Relatos recentes da imprensa que sugerem que o reino está por trás de uma invasão do telefone de Jeff Bezos são absurdos. Pedimos uma investigação sobre essas alegações para que possamos descobrir todos os fatos.”

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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