Ir direto ao conteúdo

Como manifestantes de Hong Kong usam post-its para protestar

Papéis com mensagens e desenhos se espalharam pelos espaços públicos da cidade, numa reedição moderna do ‘muro de Lennon’ contra o regime comunista em Praga

    Mais de 100 muros de Hong Kong foram cobertos com papéis coloridos auto-adesivos (popularmente conhecidos como “post-its”) em 2019.

    Os bilhetes, que contêm desde palavras de ordem, recados para governantes e mensagens de esperança até palavrões em cantonês e desenhos, se tornaram uma das ferramentas chave de comunicação do movimento que vem abalando a região desde meados de 2019.

    Os locais da cidade tomados por esses papeizinhos são chamados de “muros de Lennon”, uma referência a um muro existente no centro de Praga, capital da República Tcheca, que desde a década de 1960 concentra poemas e mensagens de protesto. Após o assassinato do músico John Lennon em 1980, o muro passou a ser coberto com grafites de letras e retratos do ex-Beatle, além de mensagens ligadas aos principais temas de sua obra, como amor e paz, tornando-se um mural de denúncias contra o regime comunista tcheco.

    O uso de post-its com mensagens de protesto ou encorajamento também emergiu em estações de metrô de Nova York e de outras cidades americanas após a eleição do presidente Donald Trump, em 2016, em um projeto que ficou conhecido como Subway Therapy.

    Qual a situação de Hong Kong

    Os protestos, que seguem em curso, tiveram início em março de 2019 e foram desencadeados por um projeto de lei que permite a extradição de cidadãos de Hong Kong para a China continental. A onda de protestos fez o governo local recuar, mas as pautas dos manifestantes foram ampliadas ao longo dos seis meses e passaram a incluir pedidos de maior liberdade de expressão, fim da violência policial e maior democracia na ilha.

    Hong Kong foi colônia britânica até 1997. Ao sair, os britânicos garantiram um acordo em favor da região, que dá a Hong Kong autonomia em relação à China até 2047. Depois dessa data, os chineses pretendem incorporar Hong Kong ao seu território. Entre habitantes do território, no entanto, é forte o desejo de independência definitiva.

    ‘Seja como a água’

    Os muros de Lennon já haviam sido usados pelos habitantes de Hong Kong em 2014, durante uma onda de manifestações que ficou conhecida como “revolta dos guarda-chuvas” devido ao uso do objeto por manifestantes que tentavam se proteger do gás lacrimogêneo e spray de pimenta lançado por policiais. O mosaico de cores das mensagens se tornaram uma das imagens memoráveis do movimento.

    Em 2019, os papéis colados voltaram a ser usados não só em muros mas em outras superfícies do espaço público, como vitrines de lojas e postes. Alguns manifestantes chegaram a cobrir o próprio corpo com eles em sinal de protesto contra a violência policial. O método se enquadra nas ações descentralizadas que caracterizam o movimento, uma estratégia para dificultar a repressão pelas autoridades.

    Esse estilo fluido e ágil de protestar fez com que os manifestantes adotassem uma frase do lutador e ator Bruce Lee como slogan. “Você deve ser sem forma, disforme, como a água. Quando se coloca água num copo, ela se torna um copo. (...) A água pode pingar e pode bater. Seja como a água, meu amigo”. A expressão “be water” passou a definir a maneira de protestar adotada na região.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!