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Quando transtornos psicológicos viram humor na internet

Memes sobre temas como depressão e traumas ajudam a tirar estigma de assuntos sensíveis, mas podem contribuir para disseminar informações imprecisas

O termo meme costuma designar imagens, frases ou uma combinação de ambos caracterizados por um tom de humor próprio da internet e pela rápida viralização na rede. Com certa frequência, no entanto, essa comicidade vem acompanhada de exemplos de mal-estar psicológico. Brincar com a depressão, ansiedade e sessões de terapia nas redes sociais se tornou comum, em particular entre os jovens.

Um exemplo é a expressão "gatilho", que vem do inglês “trigger”. Com origem na psicologia, o termo faz referência a eventos que podem desencadear uma reação emocional intensa, associada a um trauma, e faz parte da linguagem usada para tratar de sintomas da síndrome de estresse pós-traumático.

Em diversos ambientes, como o meio acadêmico e a própria internet, a expressão costuma ser acompanhada de um "aviso" para indicar que um conteúdo contém temas sensíveis. Já no humor online, o termo vem sendo reapropriado para representar situações e conteúdos estressantes em tom de ironia ou deboche.

O Twitter é notório por esse tipo de humor – o limite de 280 caracteres das postagens favorece observações rápidas sobre o estado emocional dos usuários. A rede social é fonte de muitas piadas que são posteriormente reproduzidas como capturas de tela em outras mídias.

Perfis como o “so sad today” (“tão triste hoje”, @sosadtoday no Twitter), da escritora norte-americana Melissa Broder, transmitem comentários sobre depressão a enormes audiências: a conta acumula mais de 900 mil seguidores, entre eles celebridades como as cantoras Katy Perry e Miley Cyrus. No Brasil, perfis que seguem a mesma linha podem ser vistos em páginas como “memes para pessoas tristes” (@memetriste, com mais de 100 mil seguidores) e “memes inuteis [sic] para salvar sua vida inutil [sic]” (@memeinutil, 500 mil seguidores).

Nem o Instagram escapa do humor triste. Contas de memes populares como a “melted videos” (@meltedvideos) e a “saquinho de lixo” (@saquinhodelixo) com frequência postam conteúdo relacionado com questões da saúde mental. Nesses círculos, o sofrimento emocional é tratado como um tópico tão propício para se fazer graça quanto qualquer outro.

A estética da depressão

O teor das piadas varia bastante, mas frequentemente assume um tom autodepreciativo. Um formato que se popularizou no Twitter, por exemplo, retrata um diálogo imaginado com um psicólogo, que repreende o tuiteiro por lidar de forma improdutiva ou nociva com seus sentimentos.

A tristeza há anos faz parte da cultura on-line. O Tumblr do início da década de 2010 costuma ser lembrado como um marco nesse processo. Nessa rede social, comunidades compostas em grande parte por adolescentes retratavam a depressão, condutas autodestrutivas e distúrbios alimentares com um olhar quase romântico. A dor subjetiva – muitas vezes, patológica – era transposta em imagens altamente editadas, com legendas melancólicas e poéticas.

Criava-se ali a identidade das chamadas “sad girls” (meninas tristes) da web, em conteúdos amplamente compartilhados, catalogados em hashtags e ilustrados com uma estética que misturava beleza e sofrimento. Em 2012, o Tumblr passou a exibir uma mensagem automática durante buscas por palavras como “automutilação” ou “bulimia” no site, redirecionando os usuários a recursos de aconselhamento e prevenção. Blogs que promovessem ativamente esse tipo de conteúdo também passaram a ser bloqueados. Outras redes sociais têm políticas parecidas.

A popularização de uma linguagem que inclui – e brinca com – transtornos psicológicos também acompanha um aumento nos casos diagnosticados de doenças mentais ao redor do mundo. Diversas pesquisas indicam um crescimento da proporção de jovens que sofrem com distúrbios como depressão e ansiedade.

Entre a naturalização e a banalização

A popularização dessas temáticas no humor online divide opiniões. Uma leitura positiva do fenômeno associa a capacidade de se brincar com a saúde mental com um esforço para eliminar o estigma que esse assunto carrega. Por meio de postagens engraçadas nas redes sociais, as pessoas estariam ampliando a conscientização sobre transtornos psicológicos e sobre os caminhos para se obter ajuda, como a terapia – recurso antes visto com preconceito.

Além disso, o compartilhamento desses memes serviria para criar um senso de comunidade em torno do sofrimento emocional, uma resposta à percepção de isolamento e incompreensão que comumente acompanha distúrbios psicológicos como a depressão. Para Cherry Baylosis, pesquisadora da Universidade de Sydney que estuda como pessoas com doenças mentais se expressam nas mídias sociais, os memes tratam de experiências em comum. "É uma forma de normalizar [os problemas] pelos quais eles estão passando e oferecer alívio cômico”, disse ao jornal Sydney Morning Herald.

A escolha do humor como abordagem ao tema também seria uma forma de criar um distanciamento do assunto, mesmo quando se discute tópicos difíceis e normalmente evitados. Esse ponto é ainda mais relevante quando aliado à anonimidade que a internet proporciona.

Por outro lado, muitas das publicações extraem sua comicidade de uma perspectiva conformista ou fatalista. A doutoranda em filosofia na Universidade do Sul da Califórnia Laura Nicoara argumenta em artigo à revista Areo, que o próprio formato das postagens encoraja uma complacência. “Se, no mundo dos memes sobre saúde mental, houvesse possibilidade de melhora ou escape das doenças mentais, as piadas deixariam de ter graça. Memes sobre saúde mental demandam uma sensação de desesperança por parte de quem os consome para que funcionem”, escreve.

Ao mesmo tempo, conteúdos sobre transtornos mentais sérios acabam sendo disseminados e usados também por pessoas que não necessariamente sofrem com eles. Piadas sobre depressão e suicídio por vezes são empregadas em tom hiperbólico para traduzir insatisfações gerais com a vida e a sociedade, embora só guardem significados mais graves para um número menor de indivíduos.

Disseminação e confusão

A divergência entre o tema da piada e quem a compartilha já resultou na disseminação de visões imprecisas ou mesmo incorretas sobre doenças mentais na internet.

É o caso do meme que usa a expressão “apaga, tá me dando gatilho”. A brincadeira começou na web brasileira quando uma reclamação sobre um suposto “gatilho” publicado no Instagram foi amplamente criticada, considerada inadequada e excessiva. Desde então, a palavra começou a ser usada em contextos impróprios como forma de zombaria e, depois, se tornou uma expressão jocosa de desconforto frente a conteúdos sensíveis – bem distante da seriedade de seu sentido original.

O termo “dissociação” ou “dissociar” também se tornou foco de confusão, principalmente em postagens em inglês. A palavra define um mecanismo de defesa em resposta ao trauma, marcado pela desconexão entre mente e corpo, perda de noção da realidade e até amnésia. Nas redes sociais, o termo foi adotado como equivalente a sonhar acordado ou perder-se em seus pensamentos.

Em entrevista à Vice, a psicanalista especializada em trauma Bethany Brand opinou que usar o termo casualmente demais pode minimizar a dor que ele acarreta. “Todos nós dissociamos em alguma medida”, disse, mas, em casos patológicos, a sensação de estar fora de seu corpo (conhecida como “despersonalização”) ocorre como uma forma de “anestesia física e emocional”, comum entre vítimas de abuso.

Natasha Tracy, autora que escreve sobre saúde mental e suas experiências pessoais com o transtorno bipolar, também expressou preocupação quanto à banalização do sofrimento. Ela comentou ao site Mashable que certas publicações nas redes sociais contribuem para o pensamento de que doenças mentais se resumem a uma leve ansiedade, facilmente tratável. “Isso normaliza uma visão de doenças mentais que não é realista para aqueles que têm doenças realmente sérias. Uma pessoa com distúrbio de ansiedade severo vai precisar de muito mais do que exercícios de respiração”, disse.

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