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Qual o risco de a Líbia se tornar uma nova Síria

Série de negociações fracassadas faz crescer o temor de que o conflito líbio repita a tragédia da guerra civil no país do Oriente Médio

    A guerra civil que se arrasta na Líbia desde a morte do presidente Muammar Gaddafi, em 2011, tornou-se um dos maiores desafios da diplomacia atual. Sem um governo unitário no comando e dividido por uma disputa armada entre facções rivais, o país corre o risco de tornar-se a próxima Síria.

    Duas conferências recentes buscaram um acordo de paz, mas terminaram sem resultado. A primeira, em Moscou, em 13 de janeiro. A segunda, em Berlim, seis dias depois. A série de reveses trouxe consigo o temor de que uma saída negociada seja impossível.

    O paralelismo entre os contextos sírio e líbio deve-se à conjunção de pelo menos três fatores. O primeiro deles é a existência de um longo conflito armado interno que opõe facções rivais. Síria e Líbia vivem conflitos diferentes, separados geograficamente, mas contemporâneos. Em ambos os países, os enfrentamentos tiveram início em 2011. Desde então, seguiram dinâmicas distintas. No caso da Líbia, a guerra civil ganhou novo impulso em 2014, quando entrou em seu estágio atual, com duas facções principais disputando o poder.

    Uma das facções é a liderada por Faïez al-Sarraj, considerado pelas Nações Unidas como o líder legítimo do GAN (Governo de Acordo Nacional), criado em 2016 para unificar o país. A unificação nunca aconteceu e o “acordo” ao qual a sigla se refere nunca foi efetivo, porque o marechal Khalifa Haftar controla a maior parte do território e comanda uma lenta ofensiva que pretende tomar a capital, Trípoli, onde estão as tropas de Sarraj.

    Mapa mostra a localização da Líbia

    O segundo elemento presente no contexto líbio, que levanta temores de que o país siga destino semelhante ao da Síria, é a participação de países estrangeiros nessa guerra civil. A Rússia mantém mercenários ligados à empresa privada Wagner atuando ao lado das forças rebeldes de Haftar. A Turquia despachou tropas para apoiar o governo de Sarraj. A França faz um jogo duplo: oficialmente, declara apoio a Sarraj, mas já chegou a enviar armas a Haftar. Outros países mais próximos, como o Egito e a Arábia Saudita, também interferem no conflito (em favor de Haftar).

    Por fim, o terceiro paralelismo entre a Síria e a Líbia é o impacto humanitário. A guerra fez da Síria o maior país exportador de refugiados – há hoje 5,5 milhões de sírios nessa condição. A Líbia tem 400 mil refugiados internos e 1,3 milhão de pessoas dependendo de ajuda humanitária para sobreviver. O país é ponto de partida de 90% dos imigrantes que tentam cruzar o Mediterrâneo na direção dos países europeus. O acirramento do conflito pode piorar esses números.

    A Líbia tem a maior reserva de petróleo da África e uma das maiores do mundo. A qualidade do óleo extraído e sua proximidade com o mercado consumidor europeu fazem do país um foco de interesse comercial de importância global.

    A guerra civil fez a extração do produto atingir no início de 2020 o seu nível mais baixo desde a queda de Gaddafi, em 2011. Encontrar uma solução para o conflito tornou-se, então, não apenas um desafio de fundo humanitário, mas também econômico. Apesar dos esforços, liderados por diferentes frentes, os resultados foram, no máximo, modestos. Não há sinal de acordo de paz.

    A primeira tentativa frustrada

    Uma das tentativas mais recentes e importantes ocorreu em Moscou, no dia 13 de janeiro. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, recebeu Haftar e Sarraj em Moscou, mas os dois líderes líbios não se encontraram.

    Sarraj aceitou a proposta russa de pôr fim ao conflito, mas Haftar – que é apoiado por Moscou – pediu tempo para pensar, consultou suas bases e saiu no fim sem assumir compromissos.

    O máximo que o governo russo conseguiu foi um cessar-fogo parcial, obtido após encontro dos presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, em Istambul, no dia 8 de janeiro.

    Turcos e russos apoiam lados opostos no conflito líbio, mas assumiram o primeiro plano das negociações internacionais na esperança de colocar de lado o protagonismo europeu. Eles não tiveram sucesso, mas o que se veria uma semana depois, em Berlim, tampouco foi muito melhor.

    A segunda tentativa frustrada

    Seis dias depois da tentativa da Rússia e da Turquia, a Alemanha sediou em Berlim um encontro com mais de dez países envolvidos na questão líbia.

    Dado o risco de fracasso, ninguém manifestou a ambição de chegar a um acordo de paz definitivo,. As metas, menos ambiciosas que isso, eram de estender o cessar-fogo e minimizar os danos, abrindo espaço para diálogos mais profundos no futuro.

    O máximo que o encontro em Berlim produziu foi reafirmar a importância do respeito, por parte de todos os países estrangeiros, às resoluções adotadas pela ONU nos últimos anos determinando o embargo da venda de armas e munições à Líbia.

    Como ganho colateral, a União Europeia anunciou a retomada de um programa criado em 2015, chamado Sophia, para controlar o fluxo de balseiros vindos da Líbia pelo Mediterrâneo – um assunto de primeira grandeza para as disputas políticas domésticas na Europa.

    Russos e turcos torciam pela adoção de uma força multinacional que separasse os beligerantes à força, como acontece por exemplo atualmente na República Democrática do Congo. Os europeus se opõem à presença de tropas estrangeiras na Líbia, e propõem apenas um mecanismo de vigilância do cumprimento do acordo de cessar-fogo.

    Após as duas tentativas fracassadas de encerrar o conflito, Sarraj e Haftar voltaram a suas trincheiras na Líbia, de onde seguem na queda de braço pelo controle de um país cada vez mais esfacelado pela guerra.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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