Ir direto ao conteúdo

O filme de Terry Jones que irritou católicos, protestantes e judeus

Membro do grupo humorístico Monty Python e diretor de 'A vida de Brian' morreu aos 77 anos 

    Temas

    Em 1979, “A vida de Brian” provocou reações de repúdio pela maneira satírica como retratou o tempo de Jesus Cristo. O filme perdeu seu investidor na fase de pré-produção por causa do tema e foi alvo de passeatas nos Estados Unidos e condenações de autoridades religiosas.

    Diretor e ator com vários papéis no filme, Terry Jones, natural do País de Gales, morreu aos 77 anos. Diagnosticado com afásia, uma doença neurológica degenerativa, Jones teve a morte confirmada por seu agente nesta quarta-feira (22).

    Jones era um dos seis integrantes do Monty Python, grupo britânico que se tornou referência da comédia mundial ao revestir de absurdo as situações mais banais do cotidiano. Além de seus anos de programas para a TV britânica, o grupo realizou diversos longa-metragens em que investia contra os poderes estabelecidos, da religião ao capitalismo.

    “Acho que o Monty Python tem muito a ver com Beatles, eles têm uma importância parecida. O que os Beatles fizeram para música, eles fizeram para o humor”, explicou o humorista Gregório Duvivier, do grupo brasileiro de humor Porta dos Fundos, em entrevista à Revista Trip. Recentemente, um especial de Natal da trupe, em que Jesus é retratado como homossexual, recebeu criticas de religiosos e foi alvo de censura. A produtora do grupo sofreu um atentado com coquetel molotov.

    No tempo de Jesus

    Certo dia, numa reunião informal, Eric Idle, um dos membros do grupo, brincou sobre fazer um filme chamado “Jesus Cristo: Desejo de Glória”. “Todos rimos”, lembrou Michael Palin, outro integrante. “Mas curtimos o desafio de fazer um filme sobre religião. Alguém então sugeriu que ele se passasse na mesma época em que Jesus estava vivo, mas que fosse um caso de confusão de identidade.”

    No filme, o judeu Brian Cohen sofre por ser confundido com Jesus Cristo o tempo todo. Ele nasceu no mesmo dia que Jesus e em um estábulo vizinho ao do Messias. Eventos banais, mas incomuns, são considerados milagres pelo crescente número de seguidores de Brian. Tentativas de explicação são inúteis. “Ele não é o Messias, ele é um menino muito levado”, grita a mãe de Brian (interpretada por Jones) para a multidão, que, tomada pelo fanatismo, não lhe dá ouvidos.

    O roteiro “extrai o máximo de comédia da falsa religião e das ilusões religiosas”, segundo o veredito de uma autoridade da Igreja Anglicana consultada pelo grupo. A medida foi tomada pelos membros do Monty Python tendo em mente o potencial ofensivo da produção.

    Justamente por esse temor, o financiador inicial do projeto, a EMI Films, pulou fora ainda na fase de pré-produção de “A vida de Brian”. Foi então que o ex-Beatle George Harrison entrou em cena. Fã de longa data do Monty Python, Harrison penhorou sua casa e levantou US$ 5 milhões para o filme. Perguntado sobre o motivo, teria dito: “Porque quero vê-lo”.

    “A vida de Brian” acabou condenado por setores conservadores e censurado em 38 localidades do Reino Unido. Um legislador que votou para banir o filme confessou à imprensa na época que não o tinha assistido, apenas lido a respeito em uma publicação evangélica.

    Diversos grupos religiosos protestaram contra o filme nos Estados Unidos. “Conseguimos irritar os católicos, os protestantes e os judeus [nos EUA]”, declarou Terry Gilliam, outro integrante do grupo, falando ao jornal britânico The Guardian. Irlanda, Itália e Noruega baniram completamente “A vida de Brian”. O distribuidor sueco aproveitou a deixa, afirmando no cartaz do filme que “era tão engraçado que foi banido na Noruega”.

    Como de hábito, a controvérsia tornou o filme muito mais conhecido, o que engordou suas bilheterias. Nos EUA, o circuito inicial de exibição, de 200 salas, saltou para 600 depois dos protestos de grupos religiosos. “Na verdade, eles me enriqueceram”, afirmou John Cleese, um dos membros do Monty Python, em uma entrevista na época. “Sinto que a gente deveria mandar uma caixa de champanhe para eles ou algo assim." No Reino Unido, a produção obteve a quarta maior bilheteria do ano de 1979.

    “Nunca pensei que seria tão controverso como acabou sendo”, afirmou Jones em uma entrevista de 2011. "Na época, a religião parecia estar em segundo plano e a gente se sentiu meio que chutando um cachorro morto. Ela voltou com tudo e pensaríamos duas vezes em fazer o filme agora."

    O talento de Terry Jones

    Graduado em Língua Inglesa e Literatura pela Universidade de Oxford, Jones colaborou com Michael Palin em diversos programas de comédia britânicos. Em 1969, os dois começaram o Monty Python ao lado de amigos egressos de Cambridge. O tipo de humor pelo qual o grupo ficou conhecido deve muito à visão de Jones, segundo já comentaram em diversas ocasiões os outros integrantes.

    Jones era também historiador especializado em Idade Média. Foi autor de livros e apresentou documentários sobre o tema. Em paralelo a seu trabalho com o grupo de humor, Jones também escreveu diversos livros infantis, incluindo “As fantásticas fábulas do magnífico Terry Jones”, publicado no Brasil.

    A origem do Monty Python

    Em 1969, o Monty Python estreou na emissora de televisão BBC com o programa “Flying Circus”, baseado em esquetes de humor. Documentos tornados públicos nos anos 2000 revelaram que diretores da emissora consideravam muito do material repulsivo e inadequado.

    Entretanto, o grupo pôde desenvolver seu trabalho sem interferências. “A BBC geralmente nos deixava em paz e tínhamos liberdade total. Apenas quando o programa ficou muito popular é que eles começaram a vigiar mais de perto o que fazíamos”, disse Palin ao jornal The Independent, em uma entrevista de 2006.

    O primeiro longa-metragem produzido pelo grupo foi “Monty Python e o Cálice Sagrado”. Lançado em 1975, o filme se inspira no universo de histórias do rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda.

    Em abril de 2018, a Netflix disponibilizou em seu catálogo todos os longa-metragens do grupo, incluindo “A vida de Brian”. Os 45 episódios da série televisiva “Monty Python’s Flying Circus” também entraram no serviço de streaming no Brasil.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!