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Como o Boeing 737 Max protagonizou dois desastres em menos de 6 meses

Com desenvolvimento apressado, sistema 100% automatizado e falta de treinamento para pilotos, aeronave esteve em dois acidentes fatais em seis meses. Foram 346 mortos em voos na Etiópia e na Indonésia

Em 2017, a empresa americana Boeing lançou no mercado o avião comercial 737 Max. A operação do modelo foi suspensa apenas dois anos depois, após ele protagonizar dois acidentes fatais.

O primeiro ocorreu em outubro de 2018, quando um voo da companhia indonésia Lion Air caiu e matou 189 pessoas. O segundo, em março de 2019, envolveu a Ethiopian Airlines e matou as 157 pessoas a bordo.

Os dois acidentes fizeram com que o 737 Max fosse considerado “o avião comercial mais mortal do mundo”, com uma taxa de quatro voos com fatalidades a cada 1 milhão de decolagens. O modelo anterior do 737 tinha uma taxa de 0,2 voos com fatalidades a cada 1 milhão de decolagens.

Os acidentes estão relacionadas ao Sistema de Aumento de Características de Manobra desse modelo, um programa de computador cuja ativação é 100% automática e que foi concebido para manter a estabilidade do voo e assegurar a sustentação do avião.

A falta de treinamento sobre o sistema para os pilotos do 737 Max é apontada pelas investigações como a principal causa das tragédias.

Na terça-feira (21), a Boeing anunciou que espera que o 737 Max volte a operar “em meados de 2020”, após as correções relacionadas ao uso do Sistema de Aumento de Características de Manobra serem aprovadas por órgãos reguladores do mundo inteiro.

A história do 737 Max

A família Boeing 737 é fabricada desde 1966. Antes do lançamento do 737 Max, a fabricante havia produzido 10 modelos dessa linha de aviões.

O 737 Max foi anunciado em 2011, quando começou a ser desenvolvido. Ao todo, o projeto teve um custo de cerca de US$ 5 bilhões. Cada unidade do avião custa a partir de US$ 100 milhões.

No Brasil, a Gol Linhas Aéreas encomendou sete unidades do 737 Max. Pouco tempo depois do anúncio da Boeing, Richard Lark, vice-presidente financeiro da Gol, se pronunciou dizendo que a empresa pretende colocar os aviões em operação até abril, após a fabricante corrigir a falha no sistema.

O voo inaugural do 737 Max foi em maio de 2017, pela indonésia Malindo Air.

O acidente da Lion Air

O primeiro acidente fatal do 737 Max aconteceu em 29 de outubro de 2018, num voo local da indonésia Lion Air.

O voo saiu da capital Jacarta e tinha como destino a cidade de Pangkal Pinang. Treze minutos após a decolagem, o avião começou a apresentar problemas e caiu no Mar de Java.

Entre passageiros e tripulação, estavam presentes 189 pessoas. Todos eles morreram no momento da queda, bem como um mergulhador que, após o acidente, tentou ajudar no resgate das vítimas.

O acidente da Ethiopian Airlines

O segundo acidente envolvendo o 737 Max aconteceu em 10 de março de 2019, num voo da Ethiopian Airlines que sairia de Addis Abeba, capital da Etiópia, com destino a Nairobi, no Quênia.

Cerca de seis minutos após a decolagem, o 737 Max mergulhou em direção ao solo, caindo na área rural de uma cidade próxima ao local de decolagem. As 157 pessoas a bordo morreram imediatamente.

Os problemas por trás dos acidentes

A causa dos dois acidentes está no Sistema de Aumento de Características de Manobras, um programa de computador que baixa o nariz do avião quando detecta a incidência de estol.

O estol ocorre quando a aeronave perde sustentação. Nesses casos, o avião se inclina verticalmente, e o ar, que deveria fluir naturalmente por cima das asas, bate diretamente na superfície delas.

Foto: Anac/Reprodução
Um desenho que mostra o funcionamento do estol
O estol acontece quando o avião está inclinado, com o ar batendo nas asas

Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil, o estol pode ocorrer involuntariamente com alguma frequência, com pilotos dos mais diversos graus de experiência.

De acordo com uma reportagem da revista especializada The Air Current, o problema com o Sistema de Aumento de Características de Manobras ocorreu porque a Boeing não deu aos pilotos o treinamento necessário para entender o funcionamento do sistema.

Mais do que isso, a revista teve acesso a um documento enviado pela Boeing à companhia aérea americana Southwest Airlines no qual dizia não julgar necessário incluir orientações sobre o sistema no manual de tripulação do modelo, já que ele é totalmente automatizado.

Ao site The Verge, Laura Einsetler, comandante de voo há mais de três décadas, afirmou discordar veementemente da decisão da Boeing.

“Nós precisamos entender como funciona tudo no avião, para que possamos fazer com que a aeronave faça o que tem que fazer, para que nós não sejamos apenas passageiros que estão aproveitando o trajeto”, disse.

A decisão da Boeing em relação ao Sistema de Aumento de Características de Manobras gerou falhas humanas, causadas por falta de informação a respeito do funcionamento do 737 Max.

O sistema ativava automaticamente sem que os pilotos soubessem, fazendo com que eles lutassem pelo controle da aeronave. À inclinação do nariz para baixo, ativada automaticamente, somavam-se manobras do piloto que tiravam a sustentação do avião. Os dois acidentes foram resultado desse descontrole.

Segundo o The Verge, os problemas no sistema também foram resultado da pressa excessiva da Boeing em finalizar o projeto antes que sua principal concorrente, a Airbus, terminasse o desenvolvimento do avião A320Neo.

A Boeing deu aos envolvidos no projeto um prazo 18 meses mais curto do que aquele usado para o desenvolvimento do Boeing 787, modelo lançado em 2007.

Dada a correria para a finalizar o projeto, o The Verge afirma que, em diversas ocasiões, a Boeing mandou plantas incompletas para as fábricas responsáveis pela produção das peças que formam o 737 Max.

Além disso, para que a transição fosse feita rapidamente, a Boeing ofereceu um curto treinamento para que os pilotos pudessem operar o 737 Max, com uma aula de 2h30 de duração, dadas as semelhanças da aeronave com os outros modelos da linha 737.

De acordo com a reportagem, os pilotos podiam ler o manual de voo em casa de noite, fazer uma aula online na manhã seguinte e operar o 737 Max horas depois.

Tal decisão também foi criticada por Einsetler. “Eu não tenho as plantas. Eu não tenho acesso aos painéis da cabine. Eu não tenho um instrutor para quem eu possa fazer perguntas”, disse.

“Você espera pilotar o Max pela primeira vez num dia limpo. Mas pode não ser o caso, e então você precisa embarcar de noite ou numa tempestade em um avião que está cheio de mudanças”, afirmou.

As características do 737 Max

A mudança mais visível do 737 Max com relação a seus antecessores é o winglet dividido. Os winglets são componentes aerodinâmicos que são incluídos na extremidade das asas da aeronave.

Com o objetivo de gastar combustível de forma mais eficiente, a aeronave tem um motor um pouco maior do que os modelos anteriores.

Internamente, o 737 Max tem capacidade para comportar entre 138 e 230 assentos. O número e a disposição das poltronas ficam a juízo das companhias aéreas.

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