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Por que o coronavírus desperta o temor de uma pandemia

17 pessoas morreram na China e casos foram registrados em pelo menos outros quatro países. No Brasil, primeiro caso possível de infecção foi registrado em Belo Horizonte

    Dezessete pessoas morreram na China em decorrência de um novo tipo de coronavírus, que causa infecções respiratórias. O surto ocorreu inicialmente em Wuhan, uma cidade de 11 milhões de habitantes, mas já foram registrados casos em outras áreas do país e também nos Estados Unidos, Japão, Tailândia e Coreia do Sul. O temor é de uma pandemia em nível global.

    Autoridades aeroportuárias de todo o mundo aumentaram a triagem de viajantes provenientes do país asiático. Na quarta-feira (22), a China decretou quarentena na cidade de Wuhan – a partir de 23 de janeiro, ninguém poderá entrar ou sair da cidade. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estuda declarar a situação uma emergência internacional de saúde.

    O primeiro caso possível do vírus no Brasil foi identificado na quarta, em Belo Horizonte. Segundo a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, uma brasileira de 35 anos que viajou a Xangai está sob observação por apresentar sintomas respiratórios compatíveis com a doença causada pelo vírus. De acordo com as autoridades, no entanto, ela afirmou que não esteve em Wuhan, epicentro do surto – por não ter passado pela região, o Ministério da Saúde afirmou que o caso não se enquadra na definição de suspeito segundo os critérios de risco da OMS.

    O Ministério da Saúde emitiu em janeiro de 2020 um comunicado às vigilâncias sanitárias e aeroportos do Brasil com cuidados e recomendações. O órgão recomenda lavar sempre as mãos, evitar locais com grandes aglomerações e prestar atenção a sintomas como febre, dores no corpo e problemas respiratórios.

    De acordo com a Comissão Nacional de Saúde da China, o número de casos de pneumonia relacionada ao vírus confirmados no país é de mais de 400. No entanto, um incremento de registros é esperado à medida que chegam informações de diferentes províncias.

    O feriado do Ano Novo chinês, celebrado no próximo dia 25 de janeiro, aumentou as preocupações das autoridades, pois é uma época em que centenas de milhões de chineses viajam pelo país.

    Acredita-se que o surto tenha se originado em um mercado de peixes e aves em Wuhan e que, inicialmente, a transmissão tenha acontecido de animais para humanos. Depois, o vírus passou a ser transmitido de humano para humano. A OMS afirmou em nota que é preciso entender ainda a dimensão desse tipo de transmissão. Entre as orientações à população do órgão incluem evitar grandes aglomerações.

    Em pronunciamento transmitido pela rede estatal CCTV, o presidente chinês Xi Jinping disse que “a segurança da vida da população e sua saúde física têm de ser prioridade”.

    A nova onda de contaminação ecoou o surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), ocorrido na China em 2002 e 2003, também causado por um coronavírus. Na época, a doença se espalhou por 37 países e matou quase 800 pessoas.

    Um estudo da OMS divulgado em 2019 relaciona surtos ocorridos durante crises humanitárias, crescimento populacional, maior urbanização, economia globalizada, popularização e maior rapidez das viagens, migração e mudanças climáticas como fatores que têm contribuído para uma maior vulnerabilidade mundial para surtos de doenças infecciosas.

    Na terça-feira (21), o primeiro caso de contágio foi confirmado nos EUA. A vítima é um morador do estado de Washington que recentemente retornou de Wuhan. Ele foi colocado em isolamento em um centro médico.

    Como é o novo vírus

    Descobertos na década de 1960, os coronavírus podem causar infecções respiratórias em seres humanos e animais. A maioria das infecções por esse tipo de vírus resulta em doenças leves e moderadas, como resfriados comuns. Quase toda pessoa acaba infectada por algum tipo de coronavírus ao longo da vida. Entre os mais comuns estão os alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43 e HKU1.

    O causador do Sars, em 2003, foi uma nova variante de coronavírus, desconhecida até então. Em 2012, um coronavírus distinto foi detectado como sendo responsável pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio, ou Mers. A doença foi inicialmente identificada na Arábia Saudita e se espalhou depois para outros países da região.

    Os surtos relacionados a coronavírus geralmente têm origem em animais infectados. No caso do Sars a suspeita recaiu sobre morcegos. Já o Mers pode ter vindo de camelos ou morcegos contaminados.

    O novo coronavírus foi descoberto no surto atual e é conhecido como 2019-nCoV. Entre os sintomas registrados até agora estão febre, dificuldade de respirar e lesões nos pulmões.

    Como acontece uma pandemia

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) define uma pandemia como “espalhamento mundial de uma nova doença”. O termo também é restrito a doenças contagiosas, não sendo aplicável, por exemplo, a uma condição como o câncer.

    Para a OMS, o impacto ou a severidade de uma gripe pandêmica tende a ser maior do que o de uma gripe sazonal porque atinge um número muito maior de pessoas sem imunidade ao novo vírus. Mesmo que a doença não evolua para um estágio mais grave na maioria dos pacientes, o total de pessoas em estado grave tende a ser bem maior.

    Um mundo mais conectado por viagens e transportes é também um mundo em que doenças atravessam grandes distâncias com facilidade. Na maior pandemia do século 20, a gripe espanhola, os movimentos de milhares de tropas na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), facilitados por meios de transporte mais eficientes, são apontados como fator decisivo para a disseminação do vírus H1N1, transmissor da gripe.

    A gripe espanhola durou de 1918 a 1920 e matou entre 50 milhões e 100 milhões, dependendo da estimativa. Ela infeccionou cerca de 500 milhões de pessoas em todo o mundo.

    Em 2009, uma nova pandemia do vírus H1N1 correu o planeta. Apelidada de gripe suína, devido a sua origem em vírus encontrados em porcos, vitimou entre 150 mil e 580 mil pessoas. Foi a primeira pandemia do século 21, com casos registrados em quase todos os países do mundo.

    Um estudo da OMS divulgado em 2019 relaciona surtos ocorridos durante crises humanitárias, crescimento populacional, maior urbanização, economia globalizada, popularização e maior rapidez das viagens, migração e mudanças climáticas como fatores que têm contribuído para uma maior vulnerabilidade mundial para surtos de doenças infecciosas.

    “Entre 2011 e 2018, a OMS acompanhou 1.483 eventos epidêmicos em 172 países. Doenças de potencial epidêmico, como gripe, síndrome respiratória aguda grave (Sars), síndrome respiratória do Oriente Médio (Mers), ebola, zika, peste, febre amarela e outros, sinalizam uma nova era de surtos de alto impacto e com potencial de rápida disseminação que têm sido detectados com mais frequência e são cada vez mais difíceis de gerenciar”, declarou o relatório focado em avaliar o quanto o mundo está preparado para esses riscos.

    Intitulado “O mundo em risco”, o documento lista sete medidas urgentes a serem tomadas por autoridades em todo o planeta. A primeira da lista exige que governos priorizem e invistam financeiramente em ações preventivas e preparações, como parte de uma cobertura de saúde disponível a toda a população. “Instituições, doadores e países devem se preparar para o pior”, alerta outra medida que reforça a importância da pesquisa em vacinas, terapias, antivirais e capacidade de fabricação.

    Países mais pobres são mais suscetíveis e mais impactados pelas pandemias, de acordo com a OMS. Para além de problemas estruturais e financeiros, são locais em que existe mais desconfiança em relação a agentes de saúde e um maior apego a crenças religiosas em detrimento da medicina.

    NOTA DE ESCLARECIMENTO: Informações sobre número de mortos e contaminados e também sobre a transmissão do coronavírus de humano para humano foram atualizadas às 19h37 de 22 de janeiro de 2020.

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