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Incêndios na Austrália: quais espécies estão em risco de extinção

Estimativas apontam que o fogo já matou mais de um bilhão de animais no país, conhecido por sua biodiversidade  

Cientistas estimam que a temporada de incêndios na Austrália que começou em setembro de 2019 e se intensificou na virada do ano tenha matado mais de um bilhão de animais. O fogo destruiu, até 22 de janeiro, cerca de 10 milhões de hectares — área maior que a Irlanda e Irlanda do Norte juntas. Pelo menos 30 pessoas morreram. E embora tempestades tenham varrido algumas áreas afetadas, autoridades afirmam que a crise está longe de ser superada.

Pássaros, roedores e insetos estão acostumados com a temporada anual de incêndios. O ano de 2019 foi, no entanto, o mais quente e seco em 120 anos, o que contribuiu para o fogo atingir regiões que não costumam queimar, como florestas tropicais e pântanos.

Os rebanhos de gado e ovelha do país, que está entre os maiores exportadores de carne no mundo, foi afetado. Pelo menos 10 mil camelos, espécie considerada peste na Austrália, devem ser abatidos por beberem muita água.

Mas a preocupação maior dos cientistas são as perdas significativas contabilizadas entre animais, alguns que existem só naquele país. De acordo com o governo australiano, o fogo ameaça o futuro de 331 espécies. Em 2016, a Austrália registrou seu primeiro caso de espécie extinta devido à crise do clima. Com a intensidade dos incêndios, ecologistas temem que novas espécies sejam adicionadas à lista pelo mesmo motivo.

A Austrália está entre os países considerados megadiversos. O grupo, que também inclui o Brasil, reúne 17 nações que ocupam menos de 10% da superfície do planeta, mas abrigam mais de dois terços de todas as espécies conhecidas de fauna e flora.

600 mil

espécies de animais e plantas são encontradas na Austrália, muitas das quais endêmicas (que só existem no país)

50

espécies de animais foram extintas na Austrália desde o início da colonização britânica, no século 18

Como é calculado o número de animais mortos na Austrália

A estimativa de que mais de um bilhão de animais foram mortos desde o início dos incêndios em 2019 foi feita pelo professor Christopher Dickman, da Universidade de Sidney. O número toma como base a densidade populacional de mamíferos, pássaros e répteis descritos em estudos acadêmicos publicados. Para chegar aos dados finais, esse valor é calculado com base na área atingida pelas queimadas.

À BBC, Dickman afirma que pássaros e animais maiores, como cangurus e emus, provavelmente são capazes de escapar conforme o fogo se aproxima, mas espécies menores e com menos mobilidade são mais suscetíveis à linha do fogo. Mesmo aqueles que sobrevivem ao incêndio podem morrer posteriormente por falta de comida e abrigo.

Após queimadas intensas, raposas e gatos selvagens – espécies trazidas para o continente durante as ondas de imigração – se deslocam até 30 quilômetros para caçar nessas áreas. Sem lugar para se esconderem, os animais nativos podem se tornar presas fáceis.

Alguns cientistas contestam o número estimado por Dickman por considerarem que muitos animais são mais resilientes e capazes de sobreviver do que se imagina. Outros, no entanto, apontam que a perda pode ser ainda maior. Isso porque em alguns casos o cálculo total se baseia em estudos de densidade populacional antigos, como um sobre répteis de 1985. Outras espécies sequer têm estimativas publicadas, como morcegos, sapos e invertebrados.

A situação dos coalas

Estima-se que cerca de 25 mil coalas tenham morrido nos incêndios. Esse número, segundo estimativas anteriores às queimadas, corresponde à metade da população dos mamíferos que habitavam o país.

Os animais costumam subir até a copa das árvores para se proteger do fogo, mas com ventos soprando a 60 km/h e as chamas alcançando mais de 70 metros acima do chão, as chances de sobrevivência dos coalas diminuem.

Os cientistas alertam que o número de mortes é mais grave porque grande parte delas aconteceu na Ilha Kangaroo, única região da Austrália onde os coalas estão livres da clamídia. A doença sexualmente transmissível, que também é encontrada nos humanos, costuma atingir populações inteiras no continente e afeta severamente a saúde desses animais.

Toda essa preocupação soou alarmes precoces na mídia de que o animal estaria “funcionalmente extinto”, termo não oficial usado para quando uma espécie não tem membros individuais suficientes para produzir gerações futuras ou desempenhar um papel no ecossistema.

Até agora, a espécie era classificada como “vulnerável”, terceiro nível dos sete na escala de risco de extinção. Alguns cientistas consideram elevar essa classificação para que eles sejam considerados “em perigo”.

Como funciona a classificação por grau de ameaça

Pouco preocupante

Do inglês “least concern”, é a categoria de risco mais baixo, empregada para quando se considera que há abundância da espécie de seres vivos, bem distribuídos em seus habitats.

Quase ameaçada

Em inglês, “near threatened”, a nomenclatura é empregada quando se detecta um processo de diminuição populacional que provavelmente fará com que a espécie passe para uma categoria considerada “ameaçada” em algum nível. A nomenclatura “ameaçada” é, por sua vez, composta por três níveis de risco.

Vulnerável

Do inglês “vulnerable”, é o termo mais brando da classificação das espécies ameaçadas, usado quando pesquisas indicam que há risco elevado de extinção se não houver melhoras das condições que permitam a sobrevivência e reprodução da espécie.

Em perigo

Do inglês “endangered”, é o segundo nível mais grave de ameaça, usado quando pesquisas indicam que a espécie provavelmente será extinta no futuro próximo.

Em perigo crítico

Do inglês “critically endangered”, é a categoria de maior risco dentro dos animais ameaçados, levando em consideração apenas a sua existência em ambientes naturais, e não em cativeiro. Ela inclui os animais que enfrentam risco “extremamente elevado” de extinção na natureza.

Extinta na natureza

Do inglês “extinct in the wild”, é usada quando não é possível encontrar nem ao menos um único espécime em ambiente natural. O ser vivo continua a existir, mas apenas em cativeiro.

Extinta

Do inglês “extinct”, é aplicado quando pesquisas indicam que já não há espécimes do ser vivo no planeta.

Os animais em risco de extinção

Desde o começo desta temporada de incêndios, vídeos de animais resgatados – normalmente cangurus e coalas – bombaram nas redes sociais. No entanto, pelo número grande de animais existentes no país, as espécies não são classificadas de forma preocupante na escala de ameaçados.

Abaixo, o Nexo selecionou cinco espécies menos conhecidas e endêmicas da Austrália que ocupam o nível “em perigo crítico” de extinção.

Dunnart da Ilha Kangaroo (Kangaroo Island Dunnart / Sminthopsis aitkeni)

Mapa da Austrália com detalhe da área de habitat do Dunnart na Ilha Kangaroo

A Ilha Kangaroo foi uma das mais afetadas pelos incêndios. Acredita-se que metade da região — mais de 215 mil hectares — tenha sido queimada. Nela, existem espécies únicas, que já eram consideradas em risco, como o dunnart da Ilha Kangaroo.

O animal é tão raro que, antes mesmo das queimadas, pesquisadores tinham dificuldade de avistar um na natureza. De hábitos noturnos, o pequeno roedor costuma se esconder debaixo das folhagens das xantorreias, conhecidas como árvores grama. Em condições normais, nem todas teriam pegado fogo, mas a intensidade desta temporada devastou essas plantas com força, deixando pouco abrigo para os dunnarts se esconderem.

Cacatua preta brilhante (Glossy black cockatoos / Calyptorhynchus lathami halmaturinus)

Mapa da Austrália com detalhe da área de habitat do honeyeater na Ilha Kangaroo

Há diversas espécies da cacatua preta espalhadas pela Austrália, mas a do tipo brilhante é endêmica da Ilha Kangaroo. Até então, ela era vista como um sucesso de conservação para o país, já que um programa iniciado em 1995 havia aumentado a população de 150 para 400 exemplares.

Após esse esforço, sua classificação havia sido reduzida para “em perigo”, quarto nível na escala de ameaça. No entanto, segundo Daniella Teixeira, doutoranda de ornitologia da Universidade de Queensland, o fogo alcançou seis das oito regiões habitadas pelas aves. A baixa pode custar uma década de trabalhos de recuperação e a volta da classificação “em perigo crítico”.

Honeyeater Regente (Regent Honeyeater / Anthochaera phrygia)

Mapa da Austrália com detalhe da área de habitat da cacatua no sudeste da Austrália

O pássaro amarelo e preto vive no sudeste do país, entre Nova Gales do Sul e Victoria, duas das regiões mais atingidas pelos incêndios na Austrália continental. Uma das regiões considerada uma fortaleza para a espécie, as Montanhas Azuis, teve 80% de sua área queimada.

As chamas devastaram eucaliptos e viscos da região, dos quais essas aves extraem néctar para se alimentar. Antes das queimadas, havia menos de 400 exemplares da espécie.

Sapo-corroborre do sul (Southern corroboree frog / Pseudophryne corroboree)

Mapa da Austrália com detalhe da área de habitat do sapo no sudeste da Austrália

Também nativos na Nova Gales do Sul, os sapos pretos e amarelos ocupam uma faixa pequena do Parque Nacional Kosciuszko, que foi tomado pelas chamas no começo de 2020. Segundo guardas florestais, a região pode levar séculos para se recuperar.

Em 2014, eram menos de 50 exemplares vivos na natureza, e especialistas temem que o impacto possa ser maior se os fogos alcançarem o Parque Nacional Namadgi, a 45 km de Kosciuszko, lar de uma espécie semelhante: o sapo-corroborre do norte.

Abelha carpinteira verde-dourada (Green carpenter bee / Xylocopa aerata)

Mapa da Austrália com detalhe da área de habitat da abelha na Ilha Kangaroo, e sudeste e leste da Austrália

No passado, queimadas e limpezas de terra levaram essa espécie de abelha à extinção no sul da Austrália e na região de Victoria. Hoje, ela se encontra principalmente na Ilha Kangaroo e em áreas de Queensland e Nova Gales do Sul, na costa leste do país.

Tal como muitos outros insetos, apesar de não ser classificada oficialmente na escala de extinção, cientistas suspeitam que a espécie tenha sofrido severas perdas. Isso porque a banksia, planta que as abelhas usam para fazer suas colmeias, demora 30 anos para crescer do tamanho e maciez de que as abelhas precisam.

Uma análise sobre o impacto dos incêndios na fauna

Ao Nexo, Simone Clarke, diretora-executiva da organização Proteção Animal Mundial (World Animal Protection) na Austrália, fala sobre o impacto dos incêndios para animais e os riscos de esse cenário se intensificar com a crise climática.

A Proteção Animal Mundial é uma organização global que atua, entre outras coisas, no resgate de animais durante desastres, como os da Amazônia e da Austrália.

Qual o impacto dessa perda de diversidade para o resto do mundo?

Simone Clarke Os animais e plantas da Austrália são globalmente únicos. Nossa biodiversidade está sendo reduzida por várias ameaças e agravada pelas mudanças climáticas. Até que os incêndios cessem, não conheceremos toda a extensão dos danos à diversidade genética, de espécies e do ecossistema. O impacto deste desastre será sentido nos próximos anos.

A devastação na Austrália deve servir de alerta para que outros países incorporem os animais no planejamento de redução de riscos de desastres. As mudanças climáticas continuarão a exacerbar o risco de eventos climáticos extremos, enfatizando a necessidade urgente de programas de gerenciamento de mitigação e reforma de políticas. Todos precisamos legislar e investir na proteção dos ecossistemas contra as mudanças climáticas, protegendo, mantendo e restabelecendo a biodiversidade.

Como a crise climática deve continuar a afetar a vida animal na Austrália nos próximos anos?

Simone Clarke Historicamente, a Austrália passa por incêndios florestais nos meses de verão. Mas as condições catastróficas vividas nesta temporada foram exacerbadas pelas mudanças climáticas mudanças nos extremos climáticos pontuadas por desastres mais frequentes. Períodos mais longos de seca, temperaturas mais altas, cargas de combustível maiores, padrões irregulares de vento e clima e níveis de umidade aumentam o risco de incêndio e são agravados pelas mudanças climáticas.

A preparação para incêndios florestais da Austrália também está em risco com as mudanças climáticas, à medida que as estações de incêndios florestais se prolongam, reduzindo as oportunidades de queima controlada e aumentando a pressão sobre os recursos de combate a incêndios e os esforços de recuperação. Os cientistas esperam que o clima propício para a proliferação do fogo continue se tornando mais frequente e severo, caso não haja ações substanciais e rápidas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Colaborou com os mapas Sariana Fernandez

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