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Como a crise do clima entrou na pauta da elite econômica global

Na reunião em Davos, Fórum Econômico Mundial classificou a mudança climática como o maior risco para a década, à frente de crises financeiras

A reunião do Fórum Econômico Mundial começou na terça-feira (21) e vai até o dia 24 em Davos, na Suíça, na expectativa de discutir os rumos para a economia global em 2020. No encontro deste ano, um desafio ganhou um destaque inédito, a crise do clima.

Após ganhar projeção em 2019, a crise foi apontada como maior risco global em relatório lançado pelo fórum na última quarta-feira (15). O estudo, que costuma analisar as tendências e riscos para o ano às vésperas do encontro de políticos e empresários em Davos, dá prioridade à pauta ambiental pela primeira vez desde que começou a ser publicado, há 15 edições.

A publicação, que faz projeções para a próxima década, afirma que todos os “principais riscos a longo prazo” no mundo estão ligados à mudança do clima e a prejuízos ao meio ambiente. Antes, os estudos do fórum costumavam destacar as crises econômicas e financeiras como maiores fatores de risco para as políticas globais.

5 maiores riscos globais, segundo o relatório

  • eventos climáticos extremos, como inundações
  • falhas no combate à mudança climática
  • perda de biodiversidade e esgotamento de recursos
  • catástrofes naturais, como terremotos e tsunamis
  • desastres ambientais causados pelo homem

A sustentabilidade é o principal assunto da reunião em Davos, que há décadas reúne líderes políticos e a elite empresarial global para debater políticas públicas. Assuntos como desigualdade, tecnologia e desafios para o crescimento econômico no mundo também devem ser discutidos.

Ao todo, o fórum deve receber 3.000 pessoas, incluindo cerca de 50 chefes de Estado. Após faltar ao último encontro, o presidente americano, Donald Trump, está presente, assim como a ativista sueca Greta Thunberg. Na terça (21), Trump falou pouco sobre clima, criticou ativistas como Greta e prometeu iniciativas de reflorestamento. Em sua fala, também na terça, Greta pediu que os líderes no evento ouvissem a ciência.

Após discursar em Davos em 2019, o presidente Jair Bolsonaro não foi ao evento. Na comitiva brasileira está o ministro da Economia, Paulo Guedes, que atribuiu problemas ambientais à pobreza.

“Para abraçar as possibilidades de amanhã, devemos rejeitar os profetas perenes da destruição e suas previsões do apocalipse”

Donald Trump

presidente dos EUA, em discurso em Davos, nesta terça (21)

“A ciência e a voz das pessoas mais jovens não estão no centro da conversa. [...] Trata-se de nós e das futuras gerações, [...] mas sobretudo se trata de trazer a ciência para o centro da conversa”

Greta Thunberg

ativista, em discurso no Fórum Econômico Mundial, nesta terça (21)

“O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer. [...] É um problema muito complexo, não há uma solução simples”

Paulo Guedes

ministro da Economia, em painel em Davos, nesta terça (21)

Por que o fórum destacou a crise do clima

A partir de uma série de indicadores ambientais, sociais e econômicos, a publicação atribui urgência às mudanças climáticas, dizendo que o fenômeno está mais forte e rápido do que o previsto e pode resultar em um colapso aos moldes da crise financeira de 2008 caso não seja enfrentado nas próximas décadas.

A publicação reproduz o discurso de diversos cientistas que têm publicado estudos sobre o clima nos últimos anos, defendendo que as emissões de poluentes que vêm das atividades econômicas caiam pela metade em 2030 e cheguem a próximo de zero 20 anos depois.

“A crise climática está nos atingindo de maneira mais forte e rápida do que muitos esperavam. [...] Os desastres naturais estão mais intensos e frequentes, e o último ano presenciou um clima extremo sem precedentes em todo o mundo”

Fórum Econômico Mundial

no Relatório de Riscos Globais 2020, publicado na quarta-feira (15)

Atingir essas metas exige transformações econômicas e sociais profundas, segundo a publicação, algo que depende da capacidade de inovação dos países e do compromisso dos governos e mercados. Até agora, critica o texto, as ações não correspondem à urgência do tema. O fórum convida os líderes a rever seus compromissos em 2020.

Qual a relação entre clima e economia

A crise do clima pode representar, ao mesmo tempo, oportunidades de inovação e negócio (durante a transição para uma economia limpa) e uma grave fonte de prejuízos para diversos setores caso não haja mudanças, diz a publicação.

US$ 165 bilhões

foram os custos dos desastres naturais no mundo em 2018, segundo o Relatório de Riscos Globais 2020 do Fórum Econômico Mundial

10%

do PIB (Produto Interno Bruto) é o custo estimado da mudança climática nos Estados Unidos até 2100, segundo o relatório

US$ 1 trilhão

é o custo estimado para 200 das maiores empresas do mundo caso não haja ação contra a crise climática, segundo o relatório

A crise do clima afeta as economias e o setor financeiro de duas formas. Primeiro, ela amplia as chances de haver desastres causados pelo aumento de eventos climáticos extremos (incêndios, enchentes, etc.), o que pode causar danos à infraestrutura, à propriedade e à terra. As nações mais pobres costumam estar mais expostas a esses riscos.

Outro risco associado à mudança do clima é o chamado risco de transição. Ele se refere aos custos das mudanças previstas na política, na tecnologia, no setor energético, no consumo e nos mercados para a transição da economia atual para uma economia de baixo carbono.

Os riscos também podem ser de curto ou longo prazo. O relatório do Fórum Econômico Mundial faz essas distinções, e os riscos relacionados à mudança do clima estão em todas as categorias.

A publicação diz que, quanto mais tempo durar a transição econômica, maior será o preço. “As empresas e mercados serão forçados a se ajustar mais rapidamente, o que poderia levar a custos mais altos, mais disrupções econômicas ou intervenções draconianas de formuladores de políticas em pânico”, diz o texto. As pessoas também sofrerão se seus empregos forem perdidos e não houver uma transição justa.

Qual o contexto da publicação

A publicação do Fórum Econômico Mundial acontece na esteira de uma série de eventos no meio ambiente e na política que tornaram a mudança do clima um dos assuntos mais relevantes do último ano.

O ano de 2019 marcou o fim da década mais quente desde o início dos registros, incêndios atingiram a Austrália com intensidade sem precedentes, a cidade de Veneza teve sua maior inundação em décadas, o ciclone Idai matou centenas em Moçambique e o derretimento de gelo quase bateu recorde no Ártico e na Groenlândia.

Ao mesmo tempo, a crise do clima ganhou destaque inédito no debate público. Mais de 1.000 locais decretaram emergência climática, cresceu o número de representantes políticos ligados à causa ambiental, novos estudos revelaram a dimensão da crise e o ativismo ficou mais forte, impulsionado por movimentos como as greves de jovens pelo clima.

A publicação chama sua seção sobre o clima de “uma década restante”. Se o ano de 2019 despertou a sociedade para a questão climática, os anos 2020 definirão como ela sairá da crise, sugere o texto. A ideia reproduz a projeção da ONU, que em 2018 afirmou que restavam mais 12 anos para a humanidade agir a tempo de evitar as previsões mais graves sobre o futuro do clima.

A crise do clima

Causas

A mudança climática começa com atividades como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e o desmatamento, que emitem grande quantidade de gases que acarretam no efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Entre as emissões de gases, destacam-se as de metano, óxido nitroso e gás carbônico (CO₂), que representa mais de 70% dos lançamentos. São poluidores os setores de energia, transportes e alimentos, entre outros.

Efeitos

A emissão de gases poluentes formadores do efeito estufa pelas atividades humanas, intensificadas após a era industrial, tem causado o fenômeno que se chama de aquecimento global. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento das temperaturas do ar e da água, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível de mares e oceanos. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição.

1ºC

foi quanto a temperatura média do planeta aumentou em relação ao período pré-industrial, antes do século 19

Previsões

Em 2018, um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU disse que a temperatura mundial pode aumentar 0,5ºC em uma década se as emissões de CO₂ não tiverem cortes imediatos. Outras projeções do clima mostram que o aquecimento pode chegar até 6ºC até 2100 se o ritmo da economia continuar o mesmo. As consequências da crise do clima devem ser sentidas nas próximas décadas, e, se o aumento das temperaturas se concretizar, o quadro de grandes tempestades, incêndios florestais, escassez de alimentos, inundações e secas severas deve piorar.

O que dizem outras organizações

A percepção dos riscos econômicos e financeiros relacionados à crise climática não é nova entre empresários, investidores e representantes de alguns dos principais organismos da economia global.

Antes do Fórum Econômico Mundial deste ano, o encontro anual do FMI (Fundo Monetário Internacional), em outubro de 2019, dedicou espaço privilegiado a discussões sobre políticas fiscais e a mudança do clima. A organização propôs, no evento, a taxação de carbono (ou seja, das atividades que causam emissões) como forma de combater os efeitos da crise.

“Se eu pudesse dar um conselho para todos nós é: todos temos responsabilidade de agir. [...] No FMI, sempre olhamos para os riscos. E essa [mudança climática] é uma categoria de risco que tem que ser absolutamente central no nosso trabalho”

Kristalina Georgieva

diretora-geral do FMI, em evento em outubro de 2019 do fundo

A preocupação com o clima foi também manifestada em um relatório do FMI lançado naquele mês, o Monitor Fiscal, que cobrou cooperação global e avanços nas metas de redução de emissões estabelecidas por mais de 100 países em 2015, durante a assinatura do Acordo de Paris.

Outro estudo, publicado em 2017, avaliou os riscos da mudança climática para os países mais pobres. A organização calculou uma perda estimada de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) per capita até 2100. O texto recomenda que as economias desenvolvidas ajudem esses países a fazer frente aos efeitos do aquecimento global.

Além do FMI, o Banco Mundial estuda constantemente os riscos da mudança climática para a sociedade e a economia global. Em 2016, eles estimaram que quase 75% das perdas econômicas causadas por desastres naturais desde 1980 são atribuídas a extremos climáticos. A expectativa é de que, no futuro, a crise jogue milhões na pobreza.

100 milhões

de pessoas podem ser empurradas para a extrema pobreza até 2030, segundo o relatório Shock Waves do Banco Mundial, de 2016

US$ 314 bilhões

pode ser o custo de desastres naturais nas regiões urbanas em 2030 se não houver investimentos significativos em infraestrutura e resiliência, segundo o relatório Investing in Urban Resilience, de 2016

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial afirma que investir em infraestrutura de adaptação aos desastres climáticos pode render aos países um benefício de US$ 4,2 trilhões, com US$ 4 em benefício para cada US$ 1 investido. Investimentos do tipo podem também promover melhorias em serviços essenciais como de transporte, saneamento e energia elétrica.

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