Enem: o cálculo das notas e o impacto do erro na correção

Cerca de 172 mil pessoas procuraram o MEC para relatar problemas. Ministério diz que 5.974 candidatos foram afetados por problema mecânico na gráfica, e que pontuações já foram corrigidas

    Um problema mecânico na gráfica que imprimiu o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) fez com que 5.974 candidatos que fizeram a prova em 2019 tivessem problemas na contagem de suas notas. A falha foi reconhecida pelo Ministério da Educação ainda no sábado (18), um dia após a abertura para a consulta da pontuação.

    O erro, de acordo com a pasta, ocorreu na gráfica Valid. Desde 2009, a responsável pela produção dos cadernos do Enem era a RR Donnelley, que pediu falência em abril de 2019. No mês seguinte, o MEC obteve autorização do TCU (Tribunal de Contas da União) para dispensar licitação, devido à urgência do caso, e assinar um contrato com a Valid.

    O ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que houve um problema mecânico de impressão que descolou algumas provas de seus gabaritos, o que interferiu na hora da conferência dos acertos e erros. A falha atingiu candidatos, em especial, em quatro cidades de Minas Gerais (Viçosa, Ituiutaba e Iturama) e Bahia (Alagoinhas). Mas o MEC identificou casos em todos os estados, com exceção de Roraima e Amapá. O ministério disse ter corrigido as notas.

    O número de estudantes afetados é menor do que a estimativa inicial feita no sábado (18) pelo presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), Alexandre Lopes, de que 1% dos candidatos teriam sido prejudicados, o que chegaria a 39 mil. Ligado ao MEC, o órgão é responsável pela avaliação.

    5.095.388

    pessoas se inscreveram no Enem de 2019

    3.935.237

    inscritos foram fazer as provas, o que representa uma taxa de participação de 77,23%, a maior desde 2009

    Mesmo com o problema, o governo manteve a data do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), que seleciona alunos para cursos de graduação das instituições federais de ensino superior por meio do Enem. Por ele, os estudantes escolhem até duas vagas e identificam qual delas preferem.

    As inscrições serão abertas na terça-feira (21). Inicialmente, iriam até sexta-feira (24), mas o MEC prolongou o prazo até domingo (26) para dar mais tempo para os estudantes que tiveram as notas corrigidas.

    Na noite de segunda-feira (20), no entanto, pouco depois do anúncio do MEC, o Ministério Público Federal pediu a suspensão do Sisu até que as falhas sejam solucionadas. A procuradoria deu ao Inep 24 horas para informar o que causou os erros na correção.

    Como é aplicado o exame

    Para evitar fraudes no Enem, os cadernos do exame são produzidos em quatro cores: rosa, amarela, azul e branca. A prova é a mesma, ou seja, possuem as mesmas questões. O que muda de uma cor para a outra é a ordem das perguntas. Quando elas são distribuídas nas salas, nenhum aluno senta perto de um candidato com a mesma cor de prova.

    Em 1998, quando foi criado durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, o Enem tinha 63 questões. Em 2009, na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, a prova foi reformulada e passou a ter 180 questões, aplicadas em dois dias. Atualmente, o exame ocorre em dois domingos consecutivos.

    Os dias de prova

    Primeiro dia

    São 45 questões de linguagens e códigos, 45 de ciências humanas e uma redação. O estudante tem cinco horas e meia para responder tudo. Em 2019, a primeira prova ocorreu em 3 de novembro.

    Segundo dia

    São 45 questões de matemática e 45 de ciências da natureza (biologia, física e química). O tempo de aplicação é de cinco horas. Na edição do ano passado, a segunda prova aconteceu em 10 de novembro.

    Inicialmente, o ministério havia reconhecido as falhas apenas no segundo dia. Depois, o Inep anunciou que foram nos dois.

    ‘O melhor Enem’

    Devido ao aparente sucesso na realização da edição de 2019, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, cuja demissão chegou a ser cogitada em dezembro, devido às polêmicas em que se envolveu, passou a usar o Enem como um feito de sua gestão.

    Na sexta-feira (17), quando as notas começaram a ser divulgadas, ele voltou a exaltar a execução da prova em 2019.

    “Esse Enem foi comprovadamente o melhor Enem de todos os tempos em termos de questões, de execuções. Não teve problema algum aqui dentro do MEC, pouquíssimas ocorrências fora, a maior participação de todos os tempos, um custo bem mais baixo por aluno. Isso que vocês estão vendo no Enem é resultado de boa gestão”

    Abraham Weintraub

    Ministro da Educação, um dia antes da pasta reconhecer problemas na edição de 2019 do Enem

    Apesar das críticas ao ministro, o presidente Jair Bolsonaro elogiou seu trabalho e disse que Weintraub continuaria à frente da pasta em 2020.

    O problema na gráfica

    A Valid cuidou da diagramação, manuseio, embalagem, rotulagem e entrega dos cadernos de provas para os Correios, que distribuem o Enem para 1.725 municípios em todo o país.

    Segundo Weintraub, a máquina de impressão deu algumas “engasgadas”, o que descolou a prova do gabarito. Por causa disso, o sistema corrigiu algumas provas como se fossem de outra cor.

    R$ 538 milhões

    foi o custo do exame em 2019

    Na sexta-feira (17), os resultados individuais dos candidatos foram liberados para a consulta. No mesmo dia, participantes começaram a relatar nas redes sociais que as notas estavam erradas. No Twitter, o assunto tornou-se um dos mais comentados.

    172 mil

    pessoas procuraram o MEC para alertar sobre problemas

    O sistema TRI

    Para calcular a nota de um estudante, o Enem usa uma metodologia diferente, chamada de TRI (teoria da resposta ao item). Diferentemente de outras provas, a nota não é simplesmente a soma de acertos.

    As questões possuem pesos diferentes, de acordo com a dificuldade de cada uma. Isso significa que alunos que acertaram o mesmo número de questões podem ter notas diferentes ao final da prova.

    Mas o modelo também leva em consideração alguns padrões. Alunos que acertam questões difíceis e erram as fáceis, por exemplo, podem ter chutado, e esse padrão é considerado inconsistente, o que acaba também definindo sua pontuação final. Desta forma, o MEC diz conseguir “estimar a habilidade de um candidato avaliado”.

    Quando os candidatos começaram a questionar as notas nas redes sociais, o Inep afirmou para alguns estudantes que utilizava a metodologia, o que explicava a discrepância entre número de questões acertadas e nota final. Ao analisar, porém, casos específicos, notou que o problema era na impressão da prova.

    Com o erro na correção, alguns estudantes chegaram a apresentar uma queda de 55% no desempenho nesta disciplina. Outros tiveram a nota melhorada, por conta do erro.

    53

    estudantes obtiveram a nota máxima (1.000) na redação em 2019

    6.286

    candidatos foram eliminados por descumprirem as regras, como portar aparelhos eletrônicos

    143.736

    zeraram na redação por entregarem em branco ou fugirem do tema, entre outros motivos

    Na noite de domingo (19), o Inep informou que o prazo para mandar e-mails com questionamentos sobre as notas iriam até as 10h do dia seguinte, decisão criticada por estudantes por ser um prazo curto. O órgão disse, porém, que não conferiu erros apenas em quem encaminhou o e-mail.

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