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O que está em jogo na coleta de dados pessoais na internet

Escândalo envolvendo o governo dos EUA e o Facebook acirrou debate entre os defensores da privacidade e os da comodidade. Empresas dizem que não fornecem identidade de usuários para anunciantes

    A privacidade digital se tornou um tema recorrente no debate público durante a década de 2010. Em 2013, o ex-técnico da CIA Edward Snowden divulgou um esquema massivo de coleta de dados por parte do governo americano. Em 2018, um escândalo envolvendo o direcionamento de publicidade política manchou a reputação do Facebook.

    A preocupação popularizou o uso de formas de navegação anônima, dada a crescente preocupação de usuários que querem proteger suas identidades e minimizar a coleta de seus dados pessoais.

    Para entender o que de fato está em jogo, o Nexo apresenta aqui alguns trechos dos Termos de Serviço de quatro das maiores empresas de tecnologia do mundo: Facebook, Twitter, Google e Amazon.

    Facebook

    Na política de uso de dados do Facebook, a plataforma afirma que a coleta de dados do usuário – feita a partir de conteúdos publicados, comentários feitos, publicações compartilhadas e páginas curtidas – é usada para pesquisas de tecnologias de reconhecimento facial, desenvolvimento de produtos e aplicações comerciais.

    As aplicações comerciais envolvem sugestão de conteúdos e páginas com base na geolocalização do usuário e o direcionamento de publicidade personalizada.

    O Facebook afirma não vender ou fornecer diretamente dados de usuários para terceiros – embora dados de milhões de usuários tenham sido coletados pela Cambridge Analytica. A plataforma diz que a distribuição de anúncios personalizados é feita a partir de um direcionamento por parte dos anunciantes. O texto diz que o próprio Facebook se encarrega de fazer essa distribuição.

    Os Termos de Serviço do Facebook também se aplicam ao Instagram.

    Twitter

    A política de privacidade do Twitter deixa claro ao usuário que toda ação feita dentro da plataforma, do login à publicação de mensagens, está gerando informações que são recebidas pela empresa.

    O texto afirma que a combinação dessas informações com outras fornecidas por anunciantes permite o direcionamento de publicidade personalizada para o usuário, além da sugestão de conteúdos recomendados.

    A empresa veta o direcionamento de publicidade com base em informações sobre gênero, etnia, religião, ideologia e saúde.

    Google

    O Google afirma que a coleta de dados de usuário é feita para fornecer serviços, corrigir erros e desenvolver novas tecnologias com base nos hábitos de usuários.

    Além disso, a empresa afirma que os dados coletados também são usados para o direcionamento de publicidade personalizada e para a sugestão de conteúdos recomendados com base em hábitos de pesquisa.

    Assim como o Twitter, o texto veta o direcionamento de publicidade com base em informações sobre etnia, religião, orientação sexual e saúde.

    O direcionamento de publicidade não é baseado no usuário, individualmente considerado. Segundo a empresa, o anunciante não tem conhecimento da identidade de quem acessa a plataforma, mas sim de uma “ampla base de dados”.

    Por exemplo: caso o usuário seja homem, se interesse por balonismo e more em São Paulo, a publicidade não vai ser individualmente direcionada para a ele, mas sim para um grupo de homens moradores de São Paulo interessados em balonismo.

    Para o Google Assistente, o assistente de voz da empresa, os comandos dados pelo usuário são usados para o direcionamento de publicidade e de conteúdos recomendados.

    Todas as regras que valem para o Google, também valem para o YouTube, Gmail e o sistema operacional Android.

    Amazon

    A política de privacidade da Amazon diz que a empresa coleta dados pessoais e informações de navegação e geolocalização no seu site, bem como em outros serviços da qual é proprietária.

    A Amazon diz que as informações coletadas são criptografadas, e que os anunciantes não conseguem identificar o usuário. Os dados são usados para direcionar ofertas e anúncios, e compartilhados com prestadores de serviço terceirizados, como transportadoras e operadoras de cartão de crédito, e com as empresas que cuidam do sistema de segurança da Amazon.

    No caso da Alexa, o alto-falante inteligente da Amazon que conta com um microfone embutido, os comandos de voz dados pelo usuário são criptografados e enviados aos servidores da empresa, a fim de fazer com que o dispositivo tenha um maior entendimento de vocabulário e fonética dos usuários, e também para poder fazer recomendações personalizadas (como uma playlist que seu dono gostaria de ouvir).

    Os comandos de voz dados para a Alexa podem ser revisados por funcionários da Amazon, mas não estarão ligados à identidade do usuário.

    Privacidade vs. Comodidade

    A coleta de dados pessoais na internet criou um debate sobre o que de fato está em jogo.

    O argumento pró-privacidade

    De um lado, os usuários que se preocupam com a privacidade defendem a ideia de que não querem que suas vidas pessoais se tornem um produto nas mãos dessas grandes empresas.

    “A privacidade é a raiz de todos os outros direitos”, afirmou Edward Snowden, ex-agente da CIA responsável por revelar o esquema de vigilância dos EUA em 2013. “Ter privacidade não é sobre esconder algo”, acrescentou, em entrevista ao jornal Business Insider em 2016. “Privacidade se trata de proteger algo – e esse algo é quem você é. A privacidade faz parte da nossa linguagem, dos conceitos base da democracia e da identidade. É por isso que usamos o termo ‘propriedade privada’. Sem privacidade, nada é realmente seu”, disse.

    “Argumentar que você não se importa com privacidade por não ter nada a esconder é o mesmo que dizer que não se preocupa com a liberdade de expressão por não ter nada a dizer”

    Edward Snowden

    Ex-analista da CIA, em entrevista ao Business Insider em 2016

    Snowden afirma que empresas como o Facebook e o Google fizeram um “pacto com o diabo” e, apesar dos termos de serviço dizerem o contrário, fornecem dados de usuários para agências governamentais sem nenhum tipo de autorização judicial.

    Jameson Lopp, chefe de tecnologias da Casa, empresa que oferece soluções de segurança digital para criptomoedas, acredita que, além de esquemas de vigilância em massa, fraudes, golpes e outras ações de terceiros mal-intencionados também são fonte de preocupação.

    “O maior problema é que não sabemos o que vai se tornar um problema”, afirmou Lopp à revista Forbes. “Você não sabe quem você pode irritar se for ativo nas redes sociais. Não é possível entender completamente os processos mentais de todo mundo que está na internet e que pode ler ou ouvir algo que você tem a dizer, e nem saber o que eles podem fazer como resultado disso”, disse.

    Também à Forbes, Lopp relatou medidas que tomou para proteger sua segurança – que podem ser consideradas extremas. Ele nunca revelou seu verdadeiro nome para seus vizinhos, e nem abre emails ou redes sociais enquanto está em casa, para não atrelar seus dados digitais à geolocalização de sua residência.

    O argumento pró-comodidade

    Há também quem acredite que o usuário comum não deveria se preocupar tanto com a privacidade digital, dada a comodidade proporcionada por empresas e serviços de tecnologia, como a capacidade de acionar eletrodomésticos e aplicativos com um comando de voz ou então fazer compras instantaneamente no celular.

    Naveen Joshi, diretor de tecnologia da empresa Allerin, que desenvolve soluções de segurança para outras companhias, afirma que trocar a privacidade por conforto não é uma ideia tão ruim.

    “Nós já tivemos casos de roubo de identidade e fraudes”, afirmou, em texto publicado no blog da Allerin. “Mas apesar disso, a experiência mais irritante que as pessoas têm por causa da falta de privacidade é receber anúncios de produtos que elas nunca procuraram, mas que talvez precisem”, disse.

    “Os casos de fraudes não são significativos em relação às milhões de pessoas que se aproveitam de toda a comodidade oferecida pela revolução digital”

    Naveen Joshi

    Diretor de tecnologia da Allerin, em 2018

    A troca de segurança por conveniência é uma opção adotada por uma parcela significativa de usuários. Em 2015, a Escola de Comunicação da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, conduziu um questionário com 1.506 adultos que vivem no estado, de diferentes classes sociais e ascendências. 45% deles disseram que não há problema algum em uma loja online coletar dados de navegação para oferecer um serviço personalizado para cada cliente.

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