Como Roberto Alvim imitou o discurso de Goebbels no vídeo que levou à sua demissão

Exonerado após repercussão, ex-Secretário Especial da Cultura fez pronunciamento emulando discurso de ministro nazista que era braço direito de Hitler na Alemanha

    O dramaturgo Roberto Alvim foi demitido do cargo de Secretário Especial da Cultura nesta sexta-feira (17).

    A decisão foi tomada pelo presidente Jair Bolsonaro após a repercussão de um vídeo veiculado na quinta-feira (16) pela conta oficial do órgão então chefiado por Alvim, no qual ele anunciava o edital de um prêmio na área e falava sobre os planos da secretaria para os próximos anos.

    No vídeo, Alvim reproduz parte de um discurso feito pelo nazista Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do ditador alemão Adolf Hitler de 1933 a 1945.

    A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo. Ou então não será nada

    Roberto Alvim

    ex-Secretário Oficial da Cultura em pronunciamento oficial divulgado nas redes sociais

    “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”

    Joseph Goebbels

    ministro da Propaganda nazista em discurso feito em maio de 1933 a um grupo de diretores de teatro alemães

    Outros elementos corroboram para aproximar o discurso de Alvim à estética nazista.

    Parece que ele se fantasia, ele tentou fazer um Goebbels contemporâneo, na forma de se vestir, na postura, a imagem do presidente atrás, a música de Wagner. A estética copia uma estética de extrema direita, e particularmente existe sim uma referência ao nazismo, afirmou ao Nexo Taísa Palhares, professora de estética do Departamento de Filosofia da Unicamp.

    No vídeo, Alvim falou sobre a importância para a identidade nacional da área então comandada por ele. Ele teria sido chamado por Bolsonaro para “criar uma cultura que salvasse a juventude”. “Quando a cultura adoece, o povo adoece junto”, afirmou. Em outro momento, disse que “a arte brasileira será heróica, e será nacional”.

    Veja o vídeo completo no tuíte abaixo:

    Pouco tempo antes da veiculação do pronunciamento, Alvim participou da tradicional live de quinta-feira feita por Bolsonaro em suas redes sociais. Na conversa, o secretário e o presidente falaram em criar uma “arte para a maioria” e sobre os filtros temáticos em projetos públicos de fomento à cultura – que ele negou configurarem censura.

    O texto de Goebbels

    Em “Joseph Goebbels: Uma biografia”, o historiador alemão Peter Longerich conta o episódio que levou ao discurso de Goebbels.

    Era o dia 8 de maio de 1933, e Goebbels tinha uma reunião marcada com diretores de teatro da Alemanha no hotel Kaiserhof, um dos mais importantes e luxuosos de Berlim.

    Na reunião, Goebbels discutia os planos para a cultura alemã da época e criticava a “degradação da arte” causada pelos movimentos vanguardistas do começo do século 20, que haviam deixado de lado os elementos estéticos das artes clássicas em prol de experimentação e expressão. Eles abandonaram, por exemplo, a necessidade de retrataç��o fidedigna de figuras e cenários.

    Em dado momento, o ministro fez o discurso que fala sobre a arte alemã heroica.

    Dois dias depois da realização do discurso, Goebbels promoveu uma queima de livros massiva na praça Bebelplatz, em Berlim. Centenas de volumes foram incendiados, incluindo obras de autores como Karl Marx, Albert Einstein e Thomas Mann, que se tornaram proibidos dentro do território nazista.

    Quem foi Joseph Goebbels

    Paul Joseph Goebbels nasceu em 1897 na cidade alemã de Rheydt. Em 1921, se tornou doutor em filosofia pela Universidade de Heidelberg. Ao lado de Heinrich Himmler e Hermann Göring, compunha o núcleo duro do alto comando nazista, sob as ordens do ditador Adolf Hitler.

    No Ministério da Propaganda, Goebbels era encarregado de criar estratégias de comunicação para espalhar os ideais nazistas pela Europa. Isso incluía a produção de filmes, panfletos, peças de teatro e músicas. Além disso, o órgão realizava a função de censor de quaisquer obras artísticas que fossem contrárias ao ideário nazista – tanto em termos de discurso quanto em termos estéticos.

    Goebbels mantinha um diário, que foi publicado depois de sua morte. Nele, ele afirmava que o Holocausto, o extermínio praticado pelos nazistas que vitimou 6 milhões de pessoas, a maioria judeus, era “merecido”.

    Há registros de que Goebbels tenha demonstrado comportamentos antissemitas desde muito jovem, enxergando a comunidade judaica como a raiz de todos os males que se faziam presentes na Europa da época.

    Em 30 de abril de 1945, Adolf Hitler se suicidou com um tiro na cabeça. Antes de morrer, nomeou Goebbels como o novo chanceler da Alemanha.

    Goebbels permaneceu apenas um dia no cargo. Em 1º de maio de 1945, o ministro convocou médicos em sua casa para sedar seus seis filhos e posteriormente administrar nas crianças uma dose de cianeto, veneno de efeito rápido que impede o transporte de oxigênio aos tecidos do corpo.

    Com os filhos mortos, Goebbels e sua esposa, Magda, se suicidaram na sequência.

    A ária de Wagner

    O vídeo de Alvim tem como trilha sonora a abertura de “Lohengrin”, ópera composta pelo músico alemão Richard Wagner em 1850.

    A ópera, ambientada no século 10, conta a história das idas e vindas da corte do Ducado de Brabante, na atual Bélgica.

    Em 1925, Hitler escreveu o “Mein kampf”, livro que serviu para apresentar as bases ideológicas do nazismo. Nele, o ditador cita Wagner como seu compositor favorito e afirma que “Lohengrin” marcou sua vida, por ter sido a primeira ópera a que assistiu ao vivo, fazendo com que se interessasse por música.

    O conceito de arte nacional

    O governo nazista teve como um de seus pontos centrais na área cultural o combate à chamada “arte degenerada”.

    Eram consideradas “artes degeneradas” todas as formas de expressão artística que iam contra a concepção de arte adotada pelos nazistas caso de movimentos de vanguarda do século 20, como o cubismo, o expressionismo e o surrealismo.

    Os nazistas acreditavam que a verdadeira arte é aquela que traz consigo valores estéticos clássicos, retomando os ideais greco-romanos, apostando no heroísmo, no épico e no romantismo.

    Em 1937, Hitler determinou que milhares de obras consideradas degeneradas fossem confiscadas de museus e exposições públicas, como uma tentativa de combater a “decadência cultural”.

    Afastando a “arte degenerada”, Hitler acreditava que teriam caminho livre para construir uma “arte nacional”, uma arte que representasse os valores do Estado alemão da época.

    As reações ao vídeo de Alvim

    Após as reações nas redes sociais, Alvim se pronunciou no Facebook se defendendo das acusações de apologia ao nazismo. “Todo o discurso foi baseado num ideal nacionalista para a Arte brasileira, e houve uma coincidência com uma frase de um discurso de Goebbels. Não o citei, e jamais citaria”, afirmou. “Foi, como eu disse, uma coincidência retórica”, acrescentou.

    “Mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na Arte nacional”, concluiu.

    Em entrevista à Rádio Gaúcha, Alvim afirmou que a secretaria está investigando a origem da situação. “Se eu soubesse que era do Goebbels, não teria usado. Uma casca de banana dessa”, disse.

    Mesmo com o posicionamento de Alvim, o vídeo causou reações tanto em aliados como em opositores ao governo atual.

    Olavo de Carvalho, escritor que é considerado um dos ideólogos do governo, se pronunciou no Facebook. “É cedo para julgar, mas o Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça. Veremos”, disse.

    Na Rádio Gaúcha, Alvim respondeu ao escritor. “Eu vou provar para o professor Olavo, que é meu mestre, ao longo dos próximos meses, que eu estou bem de cabeça”, afirmou.

    Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara dos Deputados, usou o Twitter para criticar Alvim. “O secretário da Cultura passou de todos os limites. É inaceitável. O governo brasileiro deveria afastá-lo urgente do cargo”, disse.

    A Confederação Israelita do Brasil emitiu uma nota oficial pedindo o afastamento imediato de Alvim. “Emular a visão do Ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels, é um sinal assustador da sua visão de cultura, que deve ser combatida e contida”, diz o texto.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: