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Qual o papel da Rússia e da Turquia no conflito da Líbia

Mesmo em frentes opostas, russos e turcos costuram cessar-fogo e tentam reduzir protagonismo dos EUA e da Europa no Magreb

    Os governos da Rússia e da Turquia anunciaram na segunda-feira (13) que estão perto de alcançar um cessar-fogo definitivo que possa levar ao fim da guerra na Líbia.

    O anúncio foi feito pelas chancelarias russa e turca numa conferência conjunta realizada em Moscou. Se confirmado, o acordo colocará fim numa guerra que já deixou 9.000 mortos em quatro anos.

    O capítulo mais recente do conflito teve início em 2014, mas suas raízes remontam à queda do ex-presidente líbio Muammar Gaddafi, em 2011. A mudança de regime fez a economia do país exportador de petróleo despencar e o território ser dividido entre diferentes facções.

    No conflito em curso, a Turquia apoia Fayez Al-Sarraj, que controla a capital, Trípoli. Ele lidera o que as Nações Unidas chamam de Governo de Unidade Nacional. A Rússia, por sua vez, apoia o marechal Khalifa Haftar, que avança com suas forças a partir do enclave de Tobruck e almeja unificar o país sob seu comando.

    O fato de russos e turcos apoiarem facções rivais não impediu que os governos desses dois países trabalhassem juntos para costurar uma saída combinada.

    Se prosperar, a manobra diplomática não terá influência apenas na realidade da Líbia. Ela poderá dar aos atuais governos russo e turco um papel proeminente no Magreb (noroeste da África), rivalizando com as potências europeias e com os EUA na hora de conduzir os rumos dos conflitos atuais e de tirar proveito da possível nova ordem geopolítica na região.

    Quais os interesses da Rússia e da Turquia

    A Rússia vê na Líbia uma nova plataforma de projeção de força e de influência. Esse movimento surge quase como uma aspiração natural de maior protagonismo, após o papel vencedor que os russos tiveram ao sustentar o mandato de Bashar al-Assad na Síria, a despeito de toda pressão contrária exercida por europeus e americanos.

    Foto: Alexei Druzhinin/Reuters - 08.01.2020
    Putin e Erdogan em cerimônia em Istambul
    Presidentes da Rússia, Vladimir Putin (esq), e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em Istambul

    Não há forças regulares russas presentes no conflito líbio atualmente. A empresa de segurança privada Wagner, com sede em Moscou, é quem faz esse papel. O número de mercenários – agentes privados de segurança com perfil militar, a exemplo da americana Blackwater, que teve forte penetração no Iraque – ligados à Wagner na Líbia é calculado entre 500 e 2.000.

    A Turquia situa-se numa rotatória de interesses cruzados entre a Europa, a Ásia, a África e o Oriente Médio. O país busca ter protagonismo crescente em questões geopolíticas, e apela, para isso, à idealização de um passado glorioso, a exemplo de discursos nacionalistas que também embalam muitos governos europeus.

    Em todo caso, a Líbia é um trampolim do movimento migratório que parte da costa do norte da África em direção aos países europeus banhados pelo Mediterrâneo. O controle desse fluxo também dá aos turcos maior poder de barganha na hora de negociar com as potências europeias.

    No passado, o governo turco já ameaçou “abrir os portões” de seus campos que hoje abrigam mais 3,6 milhões de refugiados, a maioria vítima do conflito na Síria, caso a União Europeia não liberasse os recursos prometidos para lidar com a problemática migratória nos campos turcos, ainda em 2016.

    Articulações de alto nível

    Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, estão diretamente envolvidos nas negociações pelo fim da guerra na Líbia.

    Ambos estiveram reunidos em Istambul no dia 8 de janeiro para discutir os termos do cessar-fogo entre as tropas de Sarraj (apoiado pelos turcos) e de Haftar (apoiado pelos russos). O apelo surtiu efeito e as forças em conflito silenciaram as armas quatro dias depois, conforme acordado.

    Sarraj, acuado pelo que parece ser um avanço irrefreável das tropas de Haftar, já assinou o acordo proposto por russos e turcos. O lado contrário, liderado por Haftar, ainda não. O chanceler russo, Sergei Lavrov, disse que o rebelde líbio pediu prazo maior, até terça-feira (14), para dizer se assina ou não.

    Os últimos movimentos “fizeram a Rússia e a Turquia emergirem como os grandes vencedores em termos diplomáticos”, disse ao jornal francês Le Monde Emadeddin Badi, pesquisador do Instituto Oriente Médio, fundado em 1946, com sede em Washington.

    Disputa com os europeus

    O presidente da França, Emmanuel Macron, recebeu Sarraj em Paris em 2017. Oficialmente, as potências europeias apoiam o líder do Governo de Unidade Nacional. Nos bastidores, entretanto, são acusadas de fazer jogo duplo – dando declarações públicas de apoio a Sarraj enquanto fazem vista grossa para o avanço militar de Haftar.

    “Nós estamos surpresos e perplexos com a posição da França. Como um país pode aspirar à liberdade, aos direitos humanos e à democracia mantendo uma posição tão pouco clara em relação ao nosso povo, que aspira aos mesmos valores”, questionou Sarraj à época.

    O dilema para os europeus é que Sarraj é visto como próximo demais de grupos islâmicos que podem se envolver com ações terroristas no exterior no futuro, enquanto Haftar é tido como um comandante linha-dura ideal para combater grupos como o Estado Islâmico no país.

    A dubiedade europeia deve ser posta à prova no domingo (19) em Berlim, quando todos os países envolvidos na questão líbia – o que inclui ainda países africanos, entre os quais o Sudão é o mais atuante – devem sentar-se à mesa para discutir novos acordos. Russos e turcos esperam chegar em posição vantajosa na ocasião, tendo costurado por fora um acordo que até agora não esteve ao alcance das pretensões da diplomacia europeia.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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