Por que a água encanada do Rio de Janeiro está turva

Consumidores da capital e da Baixada Fluminense reclamam de cheiro, gosto e turbidez. Autoridades atribuem problema à proliferação de algas, mas especialistas alertam para a poluição de rio que abastece as regiões

O início de 2020 na região metropolitana do Rio de Janeiro tem sido marcado por reclamações a respeito da qualidade da água fornecida pela Cedae, a empresa estadual de saneamento básico.

Desde o dia 3 de janeiro, moradores da Baixada Fluminense e das zonas norte e oeste da capital fazem denúncias nas redes sociais e à imprensa sobre o estado da água, que sai das torneiras turva e com cheiro e gosto de terra.

Moradores do Rio e da Baixada têm comprado água mineral engarrafada e água tratada de carro-pipa. Em uma distribuidora da zona norte do Rio, as vendas de água mineral aumentaram mais de 30%.

As reações das autoridades

Em 7 de janeiro, a Cedae admitiu a presença, em algumas amostras analisadas, de geosmina, uma molécula volátil (organoclorado) que resulta da proliferação acentuada de algas e bactérias nos mananciais (actinobactérias do solo ou cianobactérias aquáticas). A maior parte do abastecimento hídrico do Rio de Janeiro depende do rio Guandu e de seus afluentes.

A Cedae garante que, mesmo com a geosmina, a água continua própria para o consumo e dentro dos parâmetros exigidos pelo Ministério da Saúde. Ainda assim, a companhia mudou, de forma permanente, seu método de tratamento da água: desde segunda-feira (13), passou a aplicar carvão ativado pulverizado no início do processo, a fim de reter a geosmina em eventuais casos de proliferação excessiva de algas e bactérias.

Outras entidades estaduais que reagiram às denúncias

Secretaria de Saúde

Nas Unidades de Pronto Atendimento de Santa Cruz e de Campo Grande, na zona oeste do Rio, os casos de diarreia, gastroenterite e vômitos dobraram desde que começaram os problemas com a água: foram 660 pacientes registrados no mesmo período em 2019, contra 1.371 neste ano. No entanto, o órgão disse que ainda não é possível associar esse dado com a questão da água.

Subsecretaria de Vigilância Sanitária e Controle de Zoonoses

Segundo os resultados da análise de 57 amostras, das 107 coletadas, não há problema. A análise do órgão, porém, mede apenas cloro, pH, turbidez, coliformes totais e a bactéria Escherichia Coli, não sendo capaz de detectar outras substâncias químicas, geosmina ou outros micro-organismos.

Ministério Público

Na segunda-feira (13), agentes do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente do Ministério Público vistoriaram as instalações da estação de tratamento do Rio Guandu, em Nova Iguaçu, para avaliar as condições dos equipamentos da Cedae e a qualidade do tratamento da água. Estavam presentes também representantes da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), do laboratório privado Cafiquímica, do Comitê do Guandu e do Comitê de Bacias Hidrográficas. Equipes do Inea (Instituto Estadual do Ambiente), das vigilâncias sanitárias municipal e estadual e da própria Cedae coletaram amostras de água para análise, cujos resultados devem sair em até 15 dias.

Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico

Abriu um processo regulatório para tratar dos procedimentos realizados pela Cedae para o restabelecimento do abastecimento normal de água na região metropolitana.

Procon

Informou que irá instaurar inquérito para apurar os problemas no abastecimento de água aos clientes da Cedae. O diretor jurídico da instituição chegou a alertar os consumidores sobre possibilidade de cobrar da companhia os prejuízos que tiverem por causa da qualidade da água.

O que dizem os especialistas

Aproximadamente 8 milhões de pessoas dependem do rio Guandu para abastecimento de água. O curso original do rio foi aumentado com a transposição do Paraíba do Sul, de onde vêm 90% de sua vazão atual. Nele chegam rios altamente poluídos, como o Ipiranga, o Queimados, o Poços e o Cabuçu, que recebem esgoto industrial e doméstico da Baixada Fluminense.

Mapa do rio Guandu e seus afluentes

O comunicado da Cedae afirma que a proliferação de micro-organismos se deve a variações normais de temperatura, luminosidade ou índice pluviométrico, mas especialistas alertam que o fenômeno pode ser indicativo da poluição dos mananciais por esgoto não tratado ou por vazamentos industriais.

Há suspeitas de que o despejo de detergentes e produtos químicos usados nas indústrias da região tenha influenciado a proliferação das algas.

“Lançam toda essa sujeira no Guandu, também antes da captação da água para tratamento. Essa água precisa ser extremamente tratada para se tornar potável. [...] Para onde vai a sujeira decantada pela estação de tratamento do Guandu? Rio abaixo. Isso é também desperdício”

Sandra Azevedo

professora titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade do Rio de Janeiro, em entrevista ao jornal O Globo, em 10 de janeiro de 2020

Adacto Ottoni, professor e engenheiro sanitarista da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), também destaca a poluição das águas dos principais mananciais que fornecem água para a Estação do Guandu: “A gente vê, bem claramente, o alto grau de degradação da bacia, com ocupação das faixas marginais, desmatamento. A água vai passando pelas cidades e você vê as manchas de poluição entrando no rio”.

Os efeitos para a saúde

O Instituto de Microbiologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) editou um comunicado no qual afirma que o aumento de algas e bactérias na água não é capaz de explicar a turbidez da água e que, mesmo que a geosmina por si só, na quantidade atual, não seja nociva ao consumo humano, ela favorece a proliferação de micro-organismos prejudiciais à saúde.

Foi a mesma conclusão do professor Fabiano Thompson, também da UFRJ, sobre os resultados de estudo feito a pedido da Rede Globo, depois que o fenômeno se tornou visível. Os resultados indicaram que as amostras analisadas não atendiam aos parâmetros de potabilidade.

A geosmina em outros estados

A aplicação de carvão ativado pulverizado no tratamento da água, medida que será adotada no Rio, já é feita em São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul, onde a geosmina aparece com mais frequência. A represa paulista Guarapiranga, por exemplo, enfrenta a proliferação das algas há cerca de três décadas.

Em 2018, municípios do Rio Grande do Sul, incluindo Porto Alegre, também sofreram com o gosto e o cheiro da água. À época, empresa estadual de saneamento atribuiu a ocorrência de geosmina no lago Guaíba à combinação de incidência de sol, temperatura, nutrientes e movimento das águas.

No mesmo ano, a água de Campina Grande e de outras 18 cidades do Cariri, no agreste paraibano, também apresentou cheiro e sabor ruins. O fenômeno foi atribuído à variação do volume hídrico do açude que abastece a região, o que provocou o desequilíbrio do ecossistema.

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