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Qual a influência de Roger Scruton no conservadorismo brasileiro

Escritor britânico foi saudado pelo presidente Jair Bolsonaro depois de sua morte, aos 75 anos. Tradutor e editor do autor falaram ao ‘Nexo’ sobre a repercussão de sua obra no Brasil

O escritor britânico Roger Scruton morreu no domingo (12), aos 75 anos de idade. Ele enfrentava um câncer desde meados de 2019.

Conservador, Scruton se notabilizou como um escritor de não ficção, especialmente de ensaios. Foi autor de dezenas de livros, como “Argumentos para o conservadorismo” e “Como ser um conservador”, lançados no Brasil em 2006 e 2014, respectivamente.

Scruton graduou-se em filosofia pela Universidade de Cambridge em 1965 e logo na sequência mudou-se para o sul da França, onde passou uma temporada como professor na Universidade de Pau. Também deu aulas nas universidades de Oxford e Boston (EUA).

Ele estava na França em 1968, quando protestos contra o sistema político, o capitalismo e os costumes franceses tomaram as ruas no mês de maio. Eminentemente estudantis, mas também com a participação de trabalhadores urbanos, as manifestações chamaram a atenção de Scruton.

Numa entrevista ao jornal britânico The Guardian em 2000, o escritor afirmou que ver os estudantes franceses quebrando janelas e destruindo carros fez com que ele se percebesse conservador.

“Eu de repente percebi que eu estava do outro lado”, disse. “O que eu vi foi uma máfia de fanáticos egoístas da classe média. [...] Foi então que eu me tornei um conservador, eu soube que eu queria conservar as coisas, em vez de destruí-las”, afirmou.

Bruno Garschagen, tradutor da edição brasileira de “Como ser um conservador” (Record), afirma que Scruton se diferenciou de outros pensadores conservadores por ter uma linguagem acessível, tanto por escrito quanto oralmente.

Outro mérito do britânico, segundo Garschagen, é discutir uma miríade de temas diferentes, como as artes e a literatura. “Scruton conseguiu mostrar que o conservadorismo não se reduz – e não deve ser reduzido – à sua dimensão política”, disse.

Carlos Andreazza, editor-executivo da Record, editora que publicou parte da obra de Scruton, categorizou-o como “um filósofo sofisticadíssimo, um dos mais cultos de seu tempo”.

“Ele ajudou a dar materialidade – carne, noção de dinâmica, de movimento – a algo que tendia ao velho, ao difuso, ao meramente conceitual. Mostrou que o cultivo das boas tradições – do legado dos que nos antecederam – resultou na firme institucionalidade, no valor da impessoalidade, no espírito das leis, portanto, no Estado de Direito”, afirmou Andreazza ao Nexo.

As ideias de Roger Scruton

Na prática, a atuação política de Scruton foi coligada à da conservadora Margareth Thatcher, primeira-ministra durante toda a década de 1980 no Reino Unido. Ele foi um dos fundadores do Conservative Action Group (Grupo de Ação Conservador), organização da sociedade civil pró-Thatcher.

Ao lado de Ronald Reagan, presidente dos EUA entre 1981 e 1989, Thatcher foi associada à ascensão do neoliberalismo na política global, com uma agenda de redução do papel do Estado e desregulamentação do mercado.

Anticomunista, Scruton prestou auxílio a intelectuais dissidentes dos regimes do Leste Europeu nos anos 1980, mais notadamente na Tchecoslováquia, onde montou um centro de estudos clandestino – a experiência foi contada no livro “As memórias de Underground”, lançado no Brasil pela É Realizações em 2019.

No campo das ideias, o escritor teve uma produção diversa. Andreazza, seu editor no Brasil, entende que um dos principais legados de Scruton é a sua noção de construção civilizatória, feita em um processo lento e sólido de reformas e aprimoramentos das instituições, e não por meio de rupturas e revoluções.

Em “Como ser um conservador”, Scruton argumenta que é mais fácil destruir valores do que conservá-los, e que a conservação de um conjunto deles é a base fundamental para a sociedade ocidental.

Nesse substrato, Scruton destaca a moral, a tradição, as leis e as autoridades. Para o escritor, apenas por meio da conservação desses valores é que a liberdade real poderia ser conquistada – em sua visão, os protestos de maio de 1968 e as ideias defendidas pela esquerda representavam apenas uma liberdade fantasiosa.

Numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, concedida em abril de 2019, Scruton definiu o conservadorismo como uma “atitude perante a vida”. Para ele, o conservador se baseia “no apego a coisas herdadas e na suspeita às mudanças radicais”.

Na mesma entrevista, Scruton categorizou a mudança climática e a poluição causada pelo plástico como o “tema mais urgente” da atualidade – apesar de, em diversas vezes, ter criticado a atuação de ambientalistas em seu país e fora dele. “Talvez possamos nos adaptar a um aumento na temperatura, mas não a um mundo em que tudo está contaminado pelo plástico”, afirmou.

Durante toda sua carreira, Scruton se posicionou como um “defensor da beleza”, categorizando como tal os ideais clássicos da arte e menosprezando, via de regra, a estética da arte contemporânea. Os meandros desse posicionamento estão no documentário “Por que a beleza importa” (2009), apresentado por ele e produzido pela BBC.

Outro valor caro ao escritor, considerado por ele fundamental para a democracia, era o que chamava de “lealdade nacionalista” – a decisão consciente de se fazer parte de determinada cultura –, que Scruton distinguia de nacionalismo – na sua avaliação, a defesa “quase religiosa” da ideologia vigente em determinado Estado.

Em 2007, um texto de Scruton a respeito da expansão dos direitos LGBTI no Reino Unido rendeu muitas críticas ao autor. Ele assinou um artigo no jornal “The Telegraph” no qual dizia que “a homossexualidade foi normalizada, mas não é normal”.

A obra de Scruton e a direita brasileira

Na década de 2010, a obra de Scruton ganhou força dentro da direita brasileira. O escritor Olavo de Carvalho, próximo a figuras centrais do governo do presidente Jair Bolsonaro, é considerado um dos introdutores da obra de Scruton para o público brasileiro, citando-o em artigos escritos na imprensa durante a década de 1990.

“Embora o conservadorismo que ele professava estivesse vinculado ao seu país, os elementos universais do pensamento conservador fizeram com que sua obra influenciasse conservadores de outras partes do mundo, incluindo o Brasil”, afirma Bruno Garschagen.

Carlos Andreazza endossa. “Penso que a obra de Scruton se tornou importante – referencial mesmo – para a direita brasileira, mesmo para aquela que não lê, e que não o leu, por essa razão; em resumo: por haver informado a um conservadorismo vago, afastado de uma tradição, a brasileira, que se perdera no tempo, que existia uma história, sobretudo europeia, capaz de legitimar, de oferecer algum grau de pertencimento, ao conservador brasileiro sem lastro literário”, escreveu, por email.

Em uma resenha publicada na revista Quatro Cinco Um em dezembro de 2019, a socióloga Angela Alonso analisou a obra do britânico e a sua influência no pensamento brasileiro. E, apesar de reconhecer a qualidade da prosa de Scruton, criticou o que chamou de “evasivas sobre a desigualdade social”. “Aí está a âncora funda do conservadorismo, patente em suas versões antiga e moderna, cultural e política e em suas variedades nacionais: a crença na desigualdade como um dado da natureza”, escreve Alonso. “A sociologia inteira prova o contrário. A desigualdade é socialmente construída, intergeracionalmente transmitida, chancelada por instituições políticas, jurídicas e escolares e legitimada por cérebros ora reluzentes, como o de Scruton, ora opacos, como o de Olavo de Carvalho.”

Na política, a figura de Scruton foi capitalizada pelo presidente Jair Bolsonaro. Em 2017, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro publicou um vídeo do britânico em seu perfil no Twitter, endossando uma fala dele sobre uma suposta “influência comunista nas universidades”.

Após o anúncio da morte do escritor, Bolsonaro publicou uma mensagem de tributo. “Seus livros estão entre os mais lidos e vêm contribuindo para a conscientização de muitos sobre a importância das nossas tradições e da nossa civilização”, escreveu o presidente.

Em coluna na Folha de S.Paulo, publicada horas depois da morte de Scruton, o cientista político João Pereira Coutinho afirmou que parte da direita brasileira adotou o britânico como “pai de santo”, sem nunca ter lido a obra do autor.

Essa visão é apoiada por Andreazza. “Muitos leram Scruton rapidamente, e somente a parte de sua obra destinada a desconstruir – com pancadas duras – pensadores de esquerda, e com isso saíram convencidos de que um conservador como ele endossava o ressentimento reacionário que ora se chama de conservadorismo no Brasil”, afirmou.

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