Ir direto ao conteúdo

Por que o Oscar reluta em indicar mulheres para melhor direção

Desde a primeira edição do maior prêmio da indústria cinematográfica americana, em 1929, só cinco diretoras receberam indicações. Em 2019, ano em que elas tiveram destaque de crítica e bilheteria, lista de indicados inclui apenas homens

    Temas

    A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou na segunda-feira (13) os indicados ao Oscar 2020. A cerimônia de premiação está marcada para 9 de fevereiro e, assim como em 2019, não contará com um apresentador.

    As indicações foram anunciadas pelos atores Issa Rae e John Cho em uma transmissão ao vivo. “Coringa”, dirigido por Todd Phillips, foi o filme que recebeu o maior número de indicações – 11, no total. “O irlandês”, de Martin Scorsese, “Era uma vez em... Hollywood”, de Quentin Tarantino, e "1917", de Sam Mendes, vêm logo atrás: os três receberam dez indicações.

    Mais uma vez, uma das categorias principais do prêmio, a de melhor direção, não teve nenhuma mulher indicada. “Parabéns para estes homens”, chegou a enfatizar a apresentadora Issa Rae. Também houve poucos indicados negros. Indicada a melhor atriz por seu papel no filme “Harriet”, que conta a história da abolicionista Harriet Tubman, Cynthia Erivo foi a única pessoa negra a concorrer nas categorias de atuação.

    Outras premiações importantes da indústria, como Globo de Ouro e Bafta, tampouco tiveram indicações femininas na categoria de direção em 2020. A ausência de diretoras indicadas se repete em uma temporada com mais filmes dirigidos por mulheres em Hollywood, que em geral tiveram bom desempenho de público e crítica. Após se tornar alvo de protestos por maior representatividade e igualdade de gênero e raça em anos recentes (exemplificado pelas campanhas #OscarSoWhite e #MeToo), o Oscar fez alguns esforços para mudar, mas segue longe de superar a falta de diversidade.

    Desde o início da premiação em 1929, apenas cinco mulheres já concorreram ao Oscar na categoria de melhor diretor:

    • Lina Wertmüller, por “Pasqualino Sete Belezas” em 1977

    • Jane Campion, por “O Piano” em 1994

    • Sofia Coppola, por “Encontros e Desencontros” em 2004

    • Kathryn Bigelow, por “Guerra ao Terror” em 2010. Foi a primeira e única vencedora

    • Greta Gerwig, por “Lady Bird” em 2018

    Em 2020, elas se destacaram, porém, na categoria de melhor documentário de longa-metragem. Quatro dos cinco filmes indicados foram dirigidos ou codirigidos por mulheres, incluindo “Democracia em vertigem”, da brasileira Petra Costa. Concorrem também “Indústria Americana”, de Julia Reichert e Steven Bognar; “For Sama”, de Waad Al-Khateab e Edward Watts; e “Honeyland”, de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov.

    As mulheres na direção em 2019

    Greta Gerwig, indicada a melhor direção em 2018 por “Lady Bird”, era uma das apostas para a categoria com seu “Adoráveis mulheres”. O longa foi indicado a melhor roteiro adaptado e melhor filme.

    Além dela, o Oscar ignorou uma quantidade excepcional de possíveis candidatas, diretoras de filmes populares e elogiados pela crítica, como Lulu Wang (“A despedida”), Lorene Scafaria (“As golpistas”), Kasi Lemmons (“Harriet”) e Melina Matsoukas (“Queen & Slim”).

    A justificativa de que mulheres recebem menos indicações porque fazem menos filmes se tornou insuficiente. Mais de 10% dos 100 filmes de maior bilheteria nos EUA foram dirigidos por mulheres em 2019, um recorde em relação aos números da última década e meia. Entre eles, estão “Capitã Marvel”, “As panteras”, “Little”, as animações “Frozen 2” e “Abominável” e os já mencionados “Adoráveis mulheres”, “As golpistas” e “Queen & Slim”.

    A diretora Greta Gerwig relativiza os ganhos recentes: “Existe um impulso de contratar mais mulheres e colocar seus filmes no centro da conversa. Mas eu também diria que, para os estúdios, é como comer verdura”, disse ao jornal El País se referindo àquilo que se faz mais por obrigação do que por convicção ou prazer. “Hollywood não se importa de onde vem o dinheiro, desde que venha. Eles perceberam que os filmes dirigidos por mulheres como ‘Mulher Maravilha’ ou ‘As Golpistas’ funcionam financeiramente”.

    Ao mesmo tempo em que há avanços, mulheres cineastas seguem enfrentando obstáculos específicos na indústria, como dificuldades para viabilizar seus filmes e investimentos menores para promovê-los, o que faz toda diferença na temporada de premiações. Muitas histórias nem chegam tão longe: são descartadas no pitching (momento em que se tenta vender um filme para executivos da indústria) por serem consideradas “muito femininas”.

    Além de manter as diretoras de fora, as premiações estão enaltecendo filmes dirigidos por homens que foram questionados pelo tratamento dado a personagens femininas, como “O Irlandês”, em que Anna Paquin teve apenas sete falas, e “Era uma vez… em Hollywood”, em que Margot Robbie, no papel de Sharon Tate, também ficou a maior parte do tempo em silêncio.

    Mais do que isso, para alguns analistas, muitos dos filmes que competem pelo Oscar em 2020, como “Coringa”, “Ford vs. Ferrari”, “História de um casamento” são expressões da frustração masculina em meio a um mundo em transformação, o que, numa indústria historicamente dominada por homens, pode se traduzir na relutância em reconhecer o trabalho de diretoras.

    Ao jornal New York Times, a professora da Universidade do Sul da Califórnia Stacy L. Smith afirma que em um ano em que os números de bilheteria, os elogios da crítica e o número de produções estavam a favor das mulheres, elas não entraram na competição porque o modelo do que é ser um líder e, nesse caso, um diretor, ainda é masculino.

    Fatores que contribuem para a ausência de indicadas

    Academia continua tendo composição homogênea

    As pressões sofridas principalmente a partir de 2016 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas fizeram com que ela estabelecesse a meta de dobrar o número de mulheres e outras minorias entre seus membros até 2020, expandindo seu corpo de votantes para quase nove mil pessoas. Ainda assim, a organização segue sendo composta por 68% de homens e 84% de pessoas brancas.

    Narrativas focadas em mulheres são vistas como menos importantes

    Produtora de “Adoráveis mulheres” e ex-presidente da Sony Pictures, Amy Pascal afirma haver uma crença sistêmica na indústria do cinema de que histórias sobre homens importam mais, são mais comerciais e atraem mais público. Pascal discorda. Mas essa rejeição sexista está diretamente relacionada com o desempenho de muitos filmes dirigidos por mulheres nas premiações. “Não é que os prêmios sejam árbitros do progresso ou que eles devam ser determinados com base em representatividade. Mas eles conferem importância (...) estabelecem o molde daquilo que é considerado cinema bom, sério e ‘importante’, e esse molde ainda diz que histórias de homens são as principais, a configuração padrão, a norma. Todo resto é um desvio”, escreveu Adrian Norton para o jornal The Guardian.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!