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Depois dos americanos, o Irã enfrenta os iranianos

Após tensões com os EUA e ataque acidental a avião de passageiros, manifestantes saem às ruas de Teerã para protestar contra um governo cada vez mais questionado interna e externamente

    Pelo terceiro dia seguido, iranianos saíram às ruas da capital do país, Teerã, no domingo (12), para protestar contra o governo. Os protestos aumentam a pressão, no plano interno, de um governo que já enfrenta grande pressão internacional, com ameaças de guerra, embargos e isolamento crescentes.

    No sábado (11), o presidente do Irã, Hassan Rohani, admitiu que as forças armadas iranianas derrubaram por engano o Boeing 737 que caiu na quarta-feira (8) nas proximidades de Teerã, matando todas as 176 pessoas a bordo. O governo fala em falha humana, culpa de um militar que tomou uma “má decisão”.

    O ataque, fruto de um “erro desastroso”, segundo Rohani, ocorreu no mesmo dia em que o Irã lançou mísseis contra bases aéreas dos EUA no vizinho Iraque, em resposta ao assassinato de seu principal comandante militar, Qassim Suleimani – morto por drones americanos em Bagdá no dia 3 de janeiro.

    A escalada militar contra os EUA, o ataque acidental ao avião de passageiros e a condenação internacional que se seguiu ao incidente foram fatos acompanhados, na mesma semana, pela aplicação de novas sanções ao Irã por parte do governo americano.

    Essas novas sanções, anunciadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, na quarta-feira (8), são parte de uma guerra econômica que pretende estrangular o governo iraniano e forçar uma mudança no regime teocrático fechado que, desde a Revolução de 1979, controla o país.

    Esse cálculo americano só funciona, entretanto, se houver também pressão de dentro para fora contra o governo do Irã. Os embargos e sanções estrangulam a economia, e a população – já descontente com a repressão e atemorizada pelo risco de uma guerra sai às ruas contra os políticos.

    Foi por isso que, na segunda-feira (13), Trump publicou uma mensagem em farsi no Twitter dizendo: “os conselheiros nacionais de segurança [dos EUA] me disseram que as sanções e os protestos puseram o Irã ‘sob grande pressão’ e os obrigam a negociar. Na verdade, eu não ligo se eles estão negociando. É problema deles. Mas não tenham armas nucleares e ‘não matem seus manifestantes’”.

    Em outro post no mesmo dia, Trump escreveu em letras maiúsculas: “não matem seus manifestantes”. Ele também instou o governo iraniano a não bloquear as comunicações por internet no país e a permitir que a imprensa registre os fatos livremente.

    Protestos não são novidade

    Embora o Irã seja um país fechado – governado desde 1979 por uma teocracia islâmica e classificado como um dos 10 piores países do mundo para a imprensa livre – há protestos contra o governo, frequentemente reprimidos. Também no exterior, membros da comunidade iraniana e estrangeiros simpáticos à causa costumam sair às ruas para protestar.

    Ainda antes deste último capítulo na escalada com os EUA, o Irã foi palco, no início de dezembro de 2019, dos maiores protestos dos últimos 40 anos. Mais de 180 pessoas morreram na onda de manifestações que teve início após um aumento no preço dos combustíveis.

    Organizações de direitos humanos afirmam ter contabilizado pelo menos 2.000 feridos e 7.000 presos na onda de protestos de dezembro. Em onda semelhante, em 2009, 72 pessoas foram mortas quando protestavam contra a reeleição do então presidente, Mahmoud Ahmadinejad.

    Nos protestos de domingo (12), as universidades tiveram papel preponderante. Estudantes gritaram “nosso inimigo não é a América, nosso inimigo está bem aqui”.

    Muitos manifestantes diziam estar indignados com a derrubada do avião de passageiros, evento tido como a gota d’água da escalada que quase levou o país a uma guerra aberta. A imprensa oficial iraniana falou em pelo menos 3.000 manifestantes em Teerã. Nas redes sociais, imagens mostraram a polícia lançando bombas de gás lacrimogêneo. Parte da imprensa disse que houve uso de munição letal pela polícia.

    O embaixador do Reino Unido em Teerã, Rob Macaire, foi retido por mais de uma hora depois de participar de um ato em memória das vítimas da queda do avião ucraniano. Agentes iranianos disseram que o diplomata participou de uma assembleia não autorizada. O funcionário britânico afirmou que esteve por pouco tempo numa vigília e abandonou o local quando os presentes entoaram as primeiras manifestações.

    O governo iraniano acusa os americanos de agirem para desestabilizar o Oriente Médio. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, defendeu a união dos países da região contra essas ações externas de desestabilização.

    As potências europeias têm insistido na tentativa de salvar o acordo nuclear firmado em 2015 com o Irã. No domingo (12), os governos de França, Reino Unido e Alemanha reuniram-se em Paris e publicaram mais um comunicado conjunto – o segundo desde o início da crise – no qual defendem a volta de iranianos e americanos à mesa de negociação.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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