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Quais fatores devem influenciar a economia global em 2020

Embates no Oriente Médio trazem volatilidade aos mercados no começo de janeiro. Especialistas ouvidos pelo ‘Nexo’ falam sobre os impactos do conflito e as perspectivas econômicas internacionais para o ano

Nos primeiros dias de 2020, as atenções do mundo se voltaram para o Oriente Médio após a morte do general iraniano Qassim Suleimani em um ataque americano a Bagdá, capital do Iraque, na madrugada de 3 de janeiro. Suleimani, principal líder militar do Irã, foi morto em uma ação militar autorizada pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

O agravamento das tensões nas relações entre EUA e Irã abalou as bolsas de valores pelo mundo. O preço do petróleo disparou em um primeiro momento, alcançando estabilidade após a amenização dos discursos dos dois países.

Globalmente, o cenário do início de 2020 trouxe um novo fator de incerteza para os mercados. O ano começa com volatilidade após 2019 ter terminado em um quadro de alívio de tensões acumuladas.

As primeiras reações dos mercados

As tensões no Oriente Médio nos primeiros dias de 2020 levaram volatilidade aos mercados internacionais. No dia 3 de janeiro, após o ataque que matou Suleimani, as bolsas pelo mundo registraram queda. Ativos considerados seguros, como o ouro e o iene (a moeda japonesa), tiveram alta devido ao aumento da procura. Já o barril de petróleo, principal produto de exportação da região que é palco dos conflitos, teve os preços elevados em 3,5%.

Nos dias que se seguiram, as bolsas apresentaram sinais de recuperação. Mas o revide do Irã com ataques a bases militares americanas no Iraque na madrugada da quarta-feira (8) trouxe nova turbulência aos mercados. O temor de uma escalada militar derrubou os principais índices das bolsas de valores e fez disparar o petróleo. Nesse dia, o barril de petróleo Brent ultrapassou o patamar de US$ 71 pela primeira vez desde maio de 2019.

As movimentações não pararam por aí. Ainda na quarta-feira (8), o presidente americano Donald Trump afirmou em um pronunciamento em Washington não querer usar o poder militar. A principal alternativa anunciada pelo presidente americano para pressionar o Irã foram as vias econômicas, com imposição de novas sanções, anunciadas oficialmente na sexta-feira (10) contra militares e empresas de mineração e metalurgia.

O tom relativamente ameno do discurso de Trump levou as bolsas a se recuperarem novamente, o que foi acompanhado por queda forte no preço do petróleo.

As movimentações abruptas dos mercados no começo de 2020 apontam para um cenário internacional de indefinição. Tanto as bolsas de valores como o barril de petróleo – cujo preço pode influenciar preços de combustíveis pelo mundo – apresentaram alta volatilidade. O ano de 2019 já havia sido marcado por outros fatores que também trouxeram incerteza aos agentes econômicos. Na virada para 2020, antes do ataque americano ao aeroporto em Bagdá, o clima na economia global era de otimismo comedido.

Os fatores de incerteza em 2019

O ano de 2019 foi marcado por diferentes quadros de tensão internacional que levaram agentes a temer uma nova recessão global em 2020. Entretanto, a maioria dos cenários se atenuaram no final do ano. Abaixo, o Nexo relembra os principais pontos e eventos do mercado global em 2019

Guerra comercial EUA-China

Como foi ao longo do ano

Durante a maior parte de 2019, EUA e China mantiveram a relação tensa que havia se instalado desde o início da guerra comercial em março de 2018. As disputas se intensificaram em agosto, quando Trump anunciou uma nova leva de tarifas sobre a importação de produtos chineses. A China reagiu, ameaçando usar a desvalorização de sua moeda como arma estratégica no conflito e anunciando tarifas próprias sobre produtos americanos. A tecnologia teve um papel central no embate, com a Huawei, gigante chinesa do setor tecnológico, sendo alvo de acusações de espionagem dos EUA.

Como terminou 2019

Nos últimos meses de 2019, cresceu o entendimento entre agentes econômicos de que haveria um acordo entre EUA e China. Em dezembro, as conversas entre as duas maiores economias do planeta avançaram, animando os mercados. A primeira fase do acordo comercial deve ser assinada na primeira quinzena de janeiro, em Washington.

Brexit

Como foi ao longo do ano

O ano de 2019 começou com a rejeição do acordo do Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia – pelo parlamento britânico em janeiro. Os entraves e dificuldades para avançar o processo de saída do bloco europeu derrubaram, em maio, a primeira-ministra Theresa May. O novo premiê conservador, Boris Johnson, assumiu o poder em julho, com a missão de concretizar o Brexit e encerrar as incertezas em volta da relação Reino Unido-União Europeia. Novas derrotas do poder executivo no parlamento levaram à convocação de eleições antecipadas para tentar retirar o processo do limbo. A incerteza em torno do Brexit foi um dos principais marcos da economia europeia em 2019.

Como terminou 2019

A vitória esmagadora de Boris Johnson nas eleições de dezembro encaminhou a concretização do Brexit. Apenas uma semana após o pleito, o novo parlamento aprovou o texto do acordo com a União Europeia, encerrando as dúvidas sobre a materialização da saída. O texto ainda tramita entre os representantes britânicos, mas a retirada está prevista para acontecer em 31 de janeiro, quando deve ser encerrado o processo que durou ao todo três anos e meio. Os eventos de dezembro e janeiro aliviaram a tensão nos mercados, alavancando a bolsa de Londres e propulsionando a libra inglesa.

O cenário europeu

Como foi ao longo do ano

Ao longo de 2019, a economia europeia deu sinais de estagnação. O cenário levantou o risco da chamada “japonização” da economia europeia, com a possibilidade de alcançar um quadro que combina baixo crescimento, juros baixos e inflação quase nula. A Alemanha, principal economia do bloco europeu, não escapou da desaceleração, apresentando pequena evolução do PIB (Produto Interno Bruto) e apontando para baixa na indústria. O Banco Central Europeu agiu, buscando uma política monetária expansionista e persistindo na estratégia de aprofundar os juros em território negativo.

Como terminou 2019

Em termos de desempenho econômico, a economia europeia não deu grandes sinais de recuperação na virada do ano. A indústria alemã continuou com atividade fraca, mas ao menos ensaiou uma recuperação. O encaminhamento da resolução do Brexit, por sua vez, foi visto nos mercados como um sinal de otimismo para a economia europeia em 2020, com perspectiva de crescimento moderado do PIB e aceleração da inflação. No Banco Central Europeu, o discurso assumido após a troca de comando – de Mario Draghi para Christine Lagarde – é de que a Europa deve olhar para estímulos fiscais e aumentos nos gastos dos governos como uma alternativa para retomar o crescimento econômico.

As perspectivas para a economia em 2020

Em relatório divulgado em outubro de 2019, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projetou um crescimento de 3,4% da economia global em 2020. O prognóstico foi feito antes da eleição no Reino Unido e do encaminhamento de um acordo comercial entre EUA e China. As tensões entre EUA e Irã não foram contabilizadas.

Um relatório mais recente do Banco Mundial, publicado em 8 de janeiro de 2020, projetou para 2020 um crescimento da economia global de 2,5%. O órgão reduziu a previsão publicada anteriormente em junho de 2019, que era de 2,7%.

Diante dos novos eventos, o Nexo conversou com dois economistas sobre o que esperar da economia global em 2020 e os possíveis impactos das tensões entre EUA e Irã nos mercados.

  • Antonio Carlos Alves dos Santos, professor de economia na PUC-SP
  • Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da UFRJ

Quais podem ser os efeitos das tensões entre Irã e EUA para a economia global em 2020?

Antonio Carlos Alves dos Santos O Irã vai procurar usar os trunfos que tem na mão. Provavelmente vai renegociar o acordo nuclear. O Irã não tem condições de fazer frente ao poderio americano, então vai responder da maneira como respondeu até o momento. Não acredito que haverá grandes impactos na economia mundial, a não ser que Donald Trump faça alguma besteira. Mas por parte do Irã, não; o Irã é um regime extremamente habilidoso na diplomacia da política internacional. O problema é Trump, que é um tanto quanto instável.

Olhando para os EUA: Trump não vai sofrer o impeachment – ele será absolvido pelo Senado. O que aconteceu no Irã só vai ficar mais grave se Trump quiser usar isso para ganhar as eleições. Mas é pouco provável: tudo indica que ele será reeleito. Trump avançou bastante na discussão com a China, ao estilo dele: primeiro disputa violentamente para depois negociar. Mas aquilo que teríamos, que é um agravamento das relações com a China, na verdade não se materializou. Nesse plano dos EUA, não acredito que tenhamos muita surpresa.

Luiz Carlos Delorme Prado Todos os estudos de projeção feitos no ano passado para a economia em 2020 eram baseados numa perspectiva de que a tensão internacional iria se reduzir. Havia até uma avaliação moderadamente positiva que este ano seria um ano com alguma recuperação, e que o cenário de crise viria ou no final deste ano [2020] ou no ano que vem [2021]. No entanto, a premissa para que isso ocorresse seria o cenário internacional positivo, com as negociações dos EUA com a China caminhando a bom termo.

O ano [2020] começa com cenário de maior instabilidade do que estava sendo previsto ao final do ano passado. Ainda é muito cedo para fazer alguma avaliação do impacto disso sobre a economia em 2020. A economia mundial começa o ano em um cenário muito volátil, em que é muito difícil desenhar exatamente o que deve acontecer.

Mas, principalmente, há um fator que não é positivo para a aceleração do crescimento mundial, que é um provável aumento do preço do petróleo. Independentemente dos rumos desse conflito EUA-Irã, os efeitos sobre o preço do petróleo já estão dados: certamente esse cenário vai ser de aumento de custo de energia em geral.

2019 foi um ano marcado por muitas incertezas no mercado internacional. Além do conflito EUA-Irã, quais outros fatores de incerteza podem ser apontados para a economia global em 2020?

Antonio Carlos Alves dos Santos A novidade é como será resolvida a relação entre o Reino Unido e a União Europeia. E essa é uma área realmente com grandes incertezas, porque Londres é uma praça financeira importante, e não está muito claro qual será o papel de Londres depois do divórcio. Também não está muito claro se, afinal, o divórcio será amigável ou não; tudo indica que vai ser. Enfim, o Brexit em seu estágio final ainda causa certa preocupação.

Não há no cenário europeu nada muito diferente do cenário que nós tínhamos no ano passado. Na área econômica, continuamos com o mesmo problema de 2019. Hoje enfim começamos a conhecer os limites da política monetária, porque temos e tivemos em 2019 taxas de juros negativas – ampliou o número de países que estão fazendo uso dessa prática. E, naturalmente, a partir do momento em que a taxa de juros é negativa, você volta a ter que colocar em campo a política fiscal. Ou seja, precisa discutir a questão de gastos do governo e de tributação, que é a grande questão da macroeconomia atual. Além disso, nos países de economia central, como Europa, a deflação é um fantasma que já acompanha essas economias há um bom ano. Por enquanto, está sob controle; mas continua sendo sempre um motivo de preocupação.

Por fim, o Oriente Médio continua problemático. Continuamos com problemas não resolvidos ainda totalmente na Síria, na Líbia, na Arábia Saudita e no Iêmen. E são [problemas] importantes porque ainda é a região onde você tem a grande oferta de petróleo.

Luiz Carlos Delorme Prado Um cenário que está colocado para 2020 é o Brexit. E exatamente os efeitos sobre a economia britânica vão começar a ser sentidos ao longo deste ano. E muito provavelmente a Europa vai também responder no sentido de fazer alguma política para acelerar seu crescimento depois da saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Esse é outro cenário em que é difícil fazer agora previsões sobre o desenrolar do processo. A única coisa que está definida é que a saída britânica já está dada e não há mais retorno. Fala-se muito na Europa em um Green New Deal – a ideia de se usar a questão ambiental como forma de tentar aumentar o gasto público para efetivar o crescimento econômico dos países europeus e aumentar a coesão entre eles.

A China, por sua vez, está com um projeto gigantesco de expansão de investimentos de infraestrutura não apenas dentro dela mas também em países vizinhos e até chegando à África. A China continua com um vigor de crescimento – nada como já foi no passado, mas ainda bastante vigoroso. Há uma instabilidade em andamento em Hong Kong, mas não parece que isso vai escalar para alguma coisa que vai afetar a China continental. E, por outro lado, a Rússia vem se mostrando muito mais vigorosa do que se imaginava, na medida em que vem aumentando seu conteúdo tecnológico de maneira rápida, aproveitando sua mão de obra muito qualificada.

Ainda há a questão americana: afinal de contas, até que ponto Trump será ou não reeleito? Certamente o impeachment não passará no Senado, isso já sabemos. Mas a questão é até que ponto ele tem condições de se reeleger. A economia americana está tendo um desempenho razoável, com desemprego baixo, embora os cenários de piora na distribuição de renda dos EUA continuem muito claros.

Dentro do que está desenhado no cenário internacional, o que podemos esperar do desempenho do Brasil em relação ao setor externo em 2020?

Antonio Carlos Alves dos Santos É uma pergunta complicada. Tivemos um fato infeliz, mas que acaba sendo benéfico ao produtor brasileiro, que foi a perda de gado na Austrália [por causa dos incêndios]. Não sabemos como isso vai impactar no preço mundial da matéria prima bovina, mas poderá impactar porque a Austrália é o terceiro maior produtor mundial. Então, abre um espaço para o Brasil trabalhar nessa área.

[O desempenho do comércio externo] vai depender de o governo atrapalhar ou não. O Brasil exporta bastante para o Irã, então seria recomendável que o Brasil ficasse de boca fechada; mas o Brasil tomou a atitude errada. Pode ser que o Brasil mude. O comércio internacional é uma variável econômica que sofre forte influência das decisões políticas dos países. O Brasil pode querer exportar um produto para um país e o país pode dizer não, porque não é de seu interesse diplomático.

O nosso problema é interno, me parece. Temos um governo que tem dificuldades de definir linhas claras de política econômica. Quer dizer, se o governo não atrapalhar, o país tem condições de melhorar. Porque o problema do país é que se tem uma insegurança muito forte e uma instabilidade política que é criada pelo governo.

Luiz Carlos Delorme Prado A política de relações exteriores brasileira é lamentável. O Brasil sempre foi um país pragmático nas suas relações com o exterior, tem uma longa tradição de pragmatismo e nacionalismo. Temos agora um governo que carece dessas duas coisas.

Isso tem consequências econômicas. Elas não são diretas e nem imediatas, mas são consequências econômicas. A postura com referência ao caso do Irã, em que o Brasil tem interesses comerciais, tem implicações. A piora nas relações com a Argentina, que é um parceiro absolutamente fundamental para o Brasil, tem também implicações. O pouco pragmatismo na questão ambiental tem também uma série de implicações. A política externa brasileira é um desastre. Se ela vai afetar as exportações no curto prazo, é difícil de dizer. Mas, certamente, ela não ajuda. Se houver alguma melhora nas relações externas brasileiras, é apesar da política do governo e não por causa dela.

O Brasil é um "global player" no sentido que ele exporta para o mundo todo. Então, no cenário internacional, onde as relações comerciais estão muito influenciadas pelo desenrolar da política, essa nova postura pouco pragmática do Brasil ajuda muito pouco o país. O Brasil também vai crescer pouco por razões domésticas, e isso também não contribui no sentido de atrair investimentos significativos. Nosso cenário é mais preocupante do que o cenário de outras regiões do mundo e do mundo em geral.

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