O legado de 25 séculos de cultura e história iranianas

Historiador brasileiro Plínio Gomes, que já visitou o Irã dez vezes, conta ao ‘Nexo’ suas impressões sobre os sítios históricos do país e a conexão do povo persa com a sua história

Dois dias após a ação americana no Iraque que matou, em 3 de janeiro, o mais importante líder militar iraniano, Qassim Suleimani, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que 52 sítios históricos e culturais na região seriam bombardeados caso o Irã retaliasse com ataques a cidadãos ou instalações americanas no Oriente Médio.

O número era uma referência aos 52 americanos mantidos reféns por 444 dias na embaixada americana em Teerã, entre 1979 e 1981.

O Irã possui, ao todo, 22 patrimônios culturais e dois naturais declarados pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Destruí-los seria um crime de guerra e violaria um acordo internacional assinado pelos EUA em 1954 para proteger a propriedade cultural em conflitos armados e uma resolução das Nações Unidas, de 1972, que desautoriza o ataque a alvos do tipo.

Na terça-feira (7), Trump recuou das ameaças aos patrimônios históricos iranianos. Ao ser questionado se cometeria um crime de guerra, afirmou: “Se essa é a lei, eu quero obedecê-la”. No dia seguinte, descartou uma guerra na região, ao dizer, num pronunciamento, que o Irã havia “recuado” e que os EUA queriam “abraçar a paz”.

Alguns desses sítios são bem conhecidos do historiador brasileiro Plínio Gomes, que ministra no Museu de Arte Sacra de São Paulo o curso “Irã, a antiga Pérsia: caminhos pela rota da seda”. A programação inclui uma viagem de 13 dias à região com os alunos. Eles visitam locais como as ruínas de Persépolis, cidade construída em 518 a.C. que é considerada um dos maiores sítios arqueológicos do mundo.

Mesmo com as tensões na região, a viagem de 2020, prevista para ocorrer em maio, está mantida. Na opinião do historiador, que estudou a cultura árabe e o islã quando morou na Síria e já esteve dez vezes no Irã, a crise entre os dois países não deve perdurar por muito tempo.

Em entrevista ao Nexo, ele fala da importância histórica e cultural do país persa, conta as impressões que têm ao visitar a região e lamenta o preconceito com o qual muitos brasileiros veem os iranianos. “Encarar o Irã pela lente do medo significa tapar os olhos para uma das mais vibrantes paisagens humanas do nosso tempo”, diz.

O que torna o Irã historicamente importante?

Plínio Gomes São duas as peculiaridades da cultura iraniana. A primeira é que estamos falando de um povo responsável pela primeira grande potência da história: o Império Persa. A segunda é que os iranianos sofreram várias invasões estrangeiras, a começar pelos assírios e gregos. Séculos mais tarde vieram outros invasores, como os árabes, os turcos, os mongóis, os russos e os britânicos. Mesmo assim, o país sempre conseguiu restaurar sua identidade nacional. E esta identidade foi capaz de influenciar os povos estrangeiros, mais do que ser por eles influenciada.

Quais são os patrimônios históricos mais importantes do país?

Plínio Gomes O patrimônio cultural e arqueológico do Irã figura entre os mais ricos do mundo. A grande preciosidade é, sem dúvida, o complexo de Persépolis. Construído por volta do ano 500 a.C., este soberbo centro cerimonial destinava-se a receber emissários provenientes de terras distantes. Não por acaso seus muros foram esculpidos com uma autêntica geografia humana do Império. As imagens descrevem diferentes traços étnicos, vestimentas e mercadorias, as mesmas que eram anualmente presenteadas ao “shah-in-shah”, o rei de todos os reis. A comitiva dos armênios, por exemplo, trazia garanhões e vasos de metal; a dos afegãos, camelos; a dos sírios, cordeiros, lanças e peles; a dos indianos, búfalos — e assim por diante.

Já em Isfahan, deparamos o esplendor da civilização islâmica, com suas mesquitas revestidas de azulejos, seus pavilhões duplicados em espelhos d’água, suas pontes com arcos em ogiva. Capital da Pérsia por duas vezes, nos séculos 11 e 16, a cidade ainda conserva numerosos monumentos de época. Conserva também uma atmosfera efervescente e amigável, que deriva das trocas realizadas dia após dia em seu inesgotável bazar.

Outro ponto memorável é Yazd. Protegida por um dos desertos mais escaldantes do mundo, a cidade se desenvolveu como entroncamento das caravanas na “Rota da Seda”. As casas, todas de tijolo aparente, formam um labirinto que se desdobra para além dos limites do tempo. Foi nele que, um dia, o veneziano Marco Polo se hospedou durante sua viagem rumo à China [no século 13].

O que esses lugares representam para os iranianos e como eles lidam com sua história?

Plínio Gomes Há um forte sentido de conexão com o passado. Os iranianos são herdeiros de uma trajetória cultural com 25 séculos de duração. Para nós, que vivemos num país tão jovem, é difícil entender esta perspectiva temporal. Estamos falando de um povo calejado pela história: ele já viveu muitas conquistas e também muitas derrotas. Os fatos que balançaram o mundo nas últimas semanas têm, para os iranianos, um impacto bem mais relativo e limitado. Agressão estrangeira não é coisa nova naquela parte do mundo; e, quando ela acontece, o efeito é fazer com que os iranianos se sintam ainda mais iranianos.

Quais contribuições culturais do país o sr. destacaria?

Plínio Gomes Elas se manifestam em ao menos três planos. Na arquitetura, a civilização persa-iraniana foi responsável pela criação de uma série de linguagens e técnicas inovadoras. O azulejo, por exemplo, é uma invenção iraniana. O mesmo vale para uso do arco e das cúpulas de porte monumental, que inspiraram maravilhas como o Taj Mahal. Na religião, ela preconizou o zoroastrismo cujo profundo sentido ético ajudou a forjar as três grandes fés monoteístas do mundo contemporâneo: judaísmo, cristianismo e islã. Na política, os iranianos priorizaram a paz em detrimento da violência. Enquanto os antigos assírios e egípcios usavam a força bruta como ferramenta de poder, o Império Persa buscava criar consenso através da concessão de direitos. Hoje chamaríamos isso de “soft power”.

Como surgiu a ideia de visitar o Irã durante o curso?

Plínio Gomes Os cursos que ministro no Museu de Arte Sacra consistem numa etapa preparatória. A ideia é mostrar a riqueza cultural do Irã, incentivando os alunos a participarem de uma viagem para o país. Tal projeto já existe há alguns anos, e surgiu de forma espontânea durante minhas aulas sobre arte islâmica. Certa vez, quando eu trabalhava com imagens de Isfahan, notei a inquietação da classe. Quis saber o que estava havendo, e a resposta foi: “Você precisa nos levar para lá”.

A série de aulas que faremos agora sobre o Irã pretende reunir interessados em história, religião e arte. Normalmente, leciono para pessoas que jamais visitaram países do Oriente e que tampouco tiveram contato com o islã. Não considero isto um empecilho, pelo contrário. Acho importante estimular a curiosidade por um mundo tão fascinante e desconhecido.

Como os brasileiros que procuram o curso veem a região?

Plínio Gomes Veem com desconfiança, para não dizer preconceito. Infelizmente, vivemos num mundo acossado por polarizações grosseiras e imbecilizantes. Muita gente alimenta a crendice segundo a qual o islã é a antítese do cristianismo. Ou ainda que existe uma linha separando a “cultura ocidental” do resto do mundo, e que por esta linha passa a fronteira do Bem contra o Mal. Ora, o que a história nos ensina é que todas as culturas, a ocidental inclusive, nasceram a partir de encontros e de fecundações com outras experiências e outros valores. Nenhuma civilização é uma ilha.

A viagem será mantida apesar dos ataques?

Plínio Gomes A recente crise entre os EUA e o Irã, embora grave, não deve perdurar por muito tempo. Na verdade, ela é prejudicial para os dois lados. Para os EUA, porque desestabiliza uma região na qual seu peso estratégico vem perdendo força há anos. Para o Irã, porque o regime instalado no país é altamente impopular e porque o prolongamento das tensões tende a aumentar seu isolamento no cenário internacional. Importante entender que, no complexo tabuleiro do Oriente Médio, qualquer movimento cria espaço para uma enorme gama de respostas possíveis. O intervalo que separa o momento atual e o mês de maio de 2020 é enorme. Quase uma eternidade.

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