Como a violência é vista no cinema hoje

Vitória de ‘Era Uma Vez em Hollywood’ no Globo de Ouro reacendeu debate sobre a forma como a indústria cinematográfica usa a brutalidade em suas narrativas

    “Era Uma Vez em Hollywood”, nono filme da carreira do cineasta Quentin Tarantino, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia ou Musical em 2020, e agora é forte candidato a aparecer em outros prêmios da indústria, incluindo o Oscar.

    O longa se passa no ano de 1969 e foca na carreira de um ator decadente (Leonardo DiCaprio) e seu melhor amigo e dublê, interpretado por Brad Pitt. A partir dessa premissa, Tarantino explora as mudanças que atingiram Hollywood e o mundo naquele ano, passando, em certo momento, pelo assassinato da atriz Sharon Tate (vivida por Margot Robbie) pelas mãos de Charles Manson e seus seguidores.

    A sequência que envolve os seguidores de Manson traz grandes doses de violência, uma das marcas registradas da carreira de Tarantino. As cenas e o fato de o longa ter sido premiado trouxe para as redes sociais um debate sobre como a violência é retratada no cinema atual, com um destaque para a construção da violência contra personagens femininas.

    Os pontos de vista

    “Há um tipo de assassinato de mulheres nos filmes de Tarantino. Normalmente é algo repentino, ligeiro e brutal, depois de uma grande construção, sendo diferente da violência que tipicamente acontece com os homens”, afirmou um usuário do Twitter.

    “É necessário discutir o componente visual da brutalização de mulheres nos filmes de Tarantino. Não vou mentir, a cena me deixou desconfortável”, disse outro.

    Houve também quem defendeu o cineasta, com base no fato de que a violência sempre esteve presente nos filmes dirigidos por Tarantino. “Quando se trata dele, a violência não enxerga gênero”, disse um terceiro usuário do Twitter.

    A jornalista e crítica de cinema Barbara Demerov, do portal Adoro Cinema, sustenta o ponto de vista de que a violência na carreira de Tarantino não escolhe gênero. “Todos seus filmes são violentos e fazem parte da sua linguagem, que por muitas vezes são cartunescas e baseadas no western e em kung fu”, afirmou ao Nexo.

    Em uma das cenas de “Era Uma Vez em Hollywood”, Tarantino deixa implícito que Cliff (o dublê interpretado por Brad Pitt) matou sua esposa no passado. O roteiro nunca responde a pergunta, mas esse ponto da trama também levantou críticas por ser mais um episódio de violência contra a mulher na obra do diretor.

    Para Demerov, a discussão deveria levar em conta outras personagens femininas criadas por Tarantino. “A cinematografia do Tarantino tem muita violência, sim — especialmente em histórias como ‘Kill Bill’ e ‘Bastardos Inglórios’”, disse.

    “Mas nesses casos, eles não explicitam a violência contra a mulher. São mulheres que foram moldadas pela violência e pelo espírito de vingança, mas que possuem outras motivações ao mesmo tempo. É impossível não encontrar mulheres multidimensionais em seus filmes”, afirmou.

    Segundo a crítica de cinema, as cenas de violência em “Era Uma Vez em Hollywood” integram a trama, e não estão inseridas no longa de maneira gratuita. Para ela, o filme é o mais leve da carreira de Tarantino: passa mais tempo explorando uma reflexão sobre as mudanças que marcaram o ano de 1969 do que investindo em cenas violentas.

    Larissa Padron, jornalista, crítica de cinema e idealizadora do canal de YouTube “Fora do Padron”, questionou a vitória de “Era Uma Vez em Hollywood” em seu perfil no Twitter, dando destaque ao fato de que o longa recebeu o prêmio de Melhor Filme de Comédia.

    “Crimes brutais são engraçados? Acho que torna o filme mais ofensivo estar em comédia”, disse.

    Ao Nexo, Padron disse que, como crítica, se vê no papel de questionar a responsabilidade social dos filmes, e entender se o cinema levanta discussões contemporâneas de forma responsável. “São produtos culturais, moldados pela sociedade, mas que também moldam a sociedade”, disse.

    Ela acredita que a violência nos filmes deve ser analisada caso a caso, e que pode servir como uma catarse para o público. Como um bom uso da violência, cita “Bacurau”, filme nacional lançado em 2019. “É um filme que usa dessa catarse para expor uma frustração do povo brasileiro com as injustiças sociais que enfrentamos, com as violências simbólicas que enfrentamos. Ele faz isso de uma maneira muito bacana”, disse.

    No caso de “Era Uma Vez em Hollywood”, Padron acredita que a catarse oferecida por Tarantino é feita de maneira problemática. Entregando spoilers do filme, a crítica de cinema afirma:

    “O assassinato da Sharon Tate foi um caso real, um crime muito brutal que chocou os Estados Unidos, um dos crimes mais brutais que já ocorreu até hoje. Me incomoda que o Tarantino substitua isso por um outro crime brutal contra mulheres”, disse.

    No longa, em vez de Tate ser assassinada, os seguidores de Manson que cometeram o crime — incluindo duas mulheres — são mortos pelos personagens de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio de maneira gráfica e explícita.

    “Elas [as personagens] são brutalmente espancadas até a morte por um homem branco e problemático”, afirmou Padron. “E o Tarantino filma isso de um jeito a se criar uma catarse. Independentemente de quem sejam as personagens, a violência contra a mulher por um homem não deveria ser catártica para ninguém”, disse.

    “E assim como eu não acho que deveria ser catártico, eu acho que não deveria ser engraçado ver uma mulher sendo espancada até a morte. E o humor está na linguagem do filme, na sala de cinema em que eu o assisti, diversas pessoas riram e vibraram com essa cena, e eu me incomodei com isso, como mulher”, concluiu, se referindo ao prêmio de Melhor Filme de Comédia.

    Como a discussão mudou

    O debate sobre a violência no cinema não é recente. No século 20, especialmente nos EUA, a brutalidade presente nos longas já causava ânimos aumentados em discussões.

    Entre 1930 e 1968, vigorou em Hollywood o Código Hays, redigido pela Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América, órgão autorregulatório do cinema americano.

    O Código Hays foi criado após pressão política de congressistas de 37 estados dos EUA, que viam nos filmes que eram produzidos até então uma ameaça aos valores tradicionais americanos. Para evitar a regulamentação estatal, a associação optou por criar para si uma série de códigos de conduta — caso os longas não cumprissem as diretrizes, não poderiam ser distribuídos em larga escala.

    A tortura, os assassinatos e a brutalidade estavam entre os tópicos proibidos. A lista também incluía cenas de sexo, cenas que mostrassem partos, cenas de noites de núpcias e cenas com cirurgias.

    Após o fim do Código Hays em 1968, a discussão sobre a violência no cinema deixou de ter uma pressão política que surge no Estado e passou a ser capitaneada por associações civis, em especial as de pais que se preocupam com a exposição de seus filhos a cenas violentas, em um debate que dura até os dias de hoje.

    Em 2003, o psicólogo americano com ascendência indiana Bala Kumar publicou o livro “Run Against Media Violence” (A Corrida Contra a Violência na Mídia), que se apresenta como um guia para que os pais combatam a violência em filmes, programas de TV, videogames e outras formas de entretenimento.

    Kumar é direto: “Não comprem, não apoiem”, diz o subtítulo do livro. Nos textos, o psicólogo afirma que há correlação entre comportamento violento e o consumo de mídias que apresentam cenas violentas.

    Apesar da afirmação de Kumar, estudos mostram que não há correlação comprovada entre as duas coisas.

    Na atualidade, o debate sobre a violência no cinema leva em consideração fatores sociopolíticos estruturais, como a violência contra as mulheres e os crimes cometidos com base em ideias racistas.

    Demerov não vê muita diferença entre o debate que acontecia no século 20 e o atual, notando apenas a popularidade e o alcance das redes sociais. “Tomando como exemplo a cena em que a mulher pega fogo no clímax de ‘Era Uma Vez Em Hollywood’, há um motivo para aquilo ser feito. Não é algo gratuito, mas isso me faz pensar: se ‘Kill Bill’ fosse lançado hoje, o que as pessoas achariam de ver uma mulher lutando e apanhando nas mesmas medidas?”, questionou.

    Padron enxerga que, apesar das preocupações de autoridades e pais, que, em sua visão, são moralistas, há uma discussão maior e diferente que leva em conta a proposta temática do filme, a mensagem que é transmitida, a narrativa utilizada, refletindo sobre como o longa se encaixa no momento atual da sociedade.

    “É uma discussão saudável”, afirmou. “É necessária uma reflexão. Por exemplo, a franquia ‘John Wick’. São filmes de ação que são muito bem dirigidos, interessantes visualmente, com um desenvolvimento maduro em relação às bobagens que vemos no gênero. Mas é um filme que traz a violência com uma função narrativa apenas estética, estilística, algo vazio de crítica”, disse.

    “E isso é passível de se apontar o dedo. Em uma sociedade tão violenta, em que as armas são tão livres e tão mal usadas, acabando com tantas vidas, é positivo ter um filme que banaliza tanto a vida por meio de formas tão violentas sem contar com nenhuma crítica? Acho que vale o questionamento”, concluiu.

    O cinema de hiperviolência

    Há também o cinema de hiperviolência, com sequências cujo único objetivo é chocar o público. Em alguns casos, esse subgênero cinematográfico esbarrou em questões judiciais.

    O caso mais emblemático que aconteceu no Brasil data do ano de 2011, quando o Ministério Público Federal proibiu a distribuição do terror sérvio “Um Filme Sérvio”, que tem como trama um ator de filmes pornográficos que é sequestrado e, para sobreviver, é submetido a uma série de tarefas brutais, que incluem o assassinato de uma mulher e o subsequente estupro de seu cadáver.

    Na liminar, o MPF justificou a proibição com base em uma cena na qual há o estupro de um recém-nascido, alegando que a sequência poderia ser considerada apologia ao crime. Depois de idas e vindas, a exibição de “Um filme sérvio” foi liberada, em 2012.

    No mesmo ano de 2011, o terror “A Centopeia Humana 2” foi proibido no Reino Unido sob determinação do Conselho Britânico de Classificação de Filmes. Para o órgão, o longa era um risco para os espectadores, já que trazia cenas de “degradação, humilhação, mutilação e tortura”.

    Em “A Centopeia Humana 2”, um jovem obcecado pelo primeiro filme da franquia decide criar a sua própria versão da centopeia humana, sequestrando atores do mundo todo e costurando a boca de um no ânus do outro, em um experimento grotesco.

    Demerov avalia que nesses casos, e em qualquer um, deve-se prevalecer o livre arbítrio do público. Para ela, a proibição de tais filmes só serviu para alavancar a curiosidade em torno deles.

    “Pouco se fala sobre suas histórias, pois a curiosidade e até o medo de vê-las ficam duplicadas com a tentativa de proibição”, afirmou.

    Padron também sustenta a ideia de que a liberdade do público deve prevalecer nesses casos. “As pessoas são livres para não ver, se não gostarem, estão livres para ver, e livres para criticar”, completa.

    Apesar de ser contra a proibição, ela afirma que os filmes devem encarar as responsabilidades de se apresentar conteúdos problemáticos, por meio de críticas, questionamentos e até mesmo processos legais. “A partir do momento em que sua obra está no mundo, você precisa arcar com as consequências do que ela vai causar”, disse.

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