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Por que ‘Mulherzinhas’ continua ganhando versões no cinema

Filme dirigido por Greta Gerwig é a sexta adaptação na tela grande do clássico de Louisa May Alcott. Lançado em 1868, livro retrata a aspirações de quatro irmãs e discute o papel da mulher como artista

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    O filme “Adoráveis mulheres”, nova adaptação para o cinema do livro “Mulherzinhas”, entrou em cartaz nas salas brasileiras na quinta-feira (9).

    Dirigida por Greta Gerwig (diretora de “Lady Bird” e roteirista e atriz de “Frances Ha”), esta é a sexta transposição da história de Jo e suas irmãs para a tela grande – sem contar outras tantas séries de TV e peças de teatro baseadas na obra.

    O romance foi escrito pela americana Louisa May Alcott (1832-1888) e publicado em 1868. Ele narra a passagem da infância à vida adulta das irmãs March – Meg, Jo, Beth e Amy –, retratando suas aspirações e as limitações impostas pelas expectativas de gênero da época.

    A tarefa de escrever um livro sobre e para garotas foi encomendada a Alcott por um editor, e aceita por ela com relutância. O romance era diferente dos livros infantis da época, sobretudo das histórias voltadas para meninas, o romance foi um estrondoso sucesso comercial. A autora conseguiu plantar uma semente de subversão mesmo dentro das convenções literárias da época, que usavam esse tipo de narrativa para ensinar parâmetros tradicionais de feminilidade.

    O livro é considerado um clássico e marcou a trajetória de intelectuais e escritoras de diferentes gerações, como Patti Smith, Simone de Beauvoir e Ursula Le Guin.

    O filme de Gerwig

    Repleto de referências a outros filmes, pinturas e obras literárias, “Adoráveis mulheres” (2019) desfaz a ordem cronológica da narrativa original, introduzindo flashbacks que criam uma alternância entre a infância e a idade adulta das irmãs. Essa mudança é própria do roteiro escrito por Gerwig, assim como o desfecho do filme, mais próximo do que Alcott afirmou desejar ter dado a suas personagens na época. A escritora afirmou em cartas que teve que adaptá-lo às exigências do mercado e à mentalidade dos leitores.

    “Eu quis dar um final que Louisa teria gostado. No fundo, contei uma história de amor entre uma garota e seu livro”, diz a diretora. Ainda assim, a maior parte dos diálogos do filme são estritamente fiéis ao livro.

    A adaptação de Gerwig re-apresenta temas do texto original como família, moralidade, casamento e criatividade “em toda sua glória”, segundo define uma crítica da Another Gaze, publicação feminista de cinema. O texto discute, porém, se o novo filme de fato dá conta de atualizar o feminismo da obra de Alcott, trazendo-o para o século 21, como outras críticas defendem que ele faz.

    No elenco, estão Saoirse Ronan (que interpreta Jo, a irmã rebelde já vivida por Katherine Hepburn e Winona Ryder em encarnações cinematográficas anteriores), Emma Watson, Meryl Streep, Laura Dern, Timothée Chalamet e Louis Garrel.

    Por que a obra inspira tantas adaptações

    “Desde sua publicação em 1868, ‘Mulherzinhas’ vem dizendo às leitoras que não há uma só forma de ser mulher e que elas podem sonhar em escapar de tudo aquilo que se espera delas”, afirma a escritora Laura Fernández no El País.

    A conexão ainda atual do texto com um público de meninas e mulheres permite que, em cada época, um novo filme surja a partir da obra, escolhendo quais ideias nele presentes é mais oportuno explorar.

    Essa análise é sustentada por Anne Boyd Rioux, autora do livro “Meg, Jo, Beth, Amy: The Story of Little Women and Why It Still Matters” (“A história de ‘Mulherzinhas’ e por que o livro ainda importa”, em tradução livre). Ela exemplifica que, nas adaptações cinematográficas dos anos 1930 e 1940, o amor romântico está no centro e as inclinações artísticas de Amy e Jo tem pouco destaque. Já a de 1994, dirigida por Gillian Armstrong, tenta agradar ao mesmo tempo aos conservadores e ao feminismo, na visão de Rioux. Na versão de Gerwig, por sua vez, a figura da mulher artista passa ao primeiro plano, dando ênfase às adversidades que as personagens precisam enfrentar e trazendo elementos da biografia da própria Alcott para a história.

    “A literatura não só representa a realidade como a constrói, e essa é uma das razões para reler ‘Mulherzinhas’ com senso crítico: é como reler a nós mesmas”, diz a escritora espanhola Marta Sanz ao El país. A recepção de leitoras e espectadoras da obra continua a relacioná-la com suas vidas e suas frustrações com a misoginia do mundo.

    Os filmes anteriores

    1917

    Filme silencioso feito no Reino Unido e dirigido por Alexander Butler, é hoje considerado perdido. A atriz Ruby Miller interpreta Jo March

    1918

    Também mudo, o filme foi gravado nos Estados Unidos, usando como locação a casa onde Louisa May Alcott viveu em Concord, Massachusetts, e seus arredores. Harley Knoles assina a direção e Dorothy Bernard faz o papel de Jo

    1933

    O primeiro ‘Mulherzinhas’ falado foi dirigido pelo americano George Cukor (de “E o vento levou”) e foi um sucesso de crítica e bilheteria. Jo é interpretada por Katharine Hepburn

    1949

    Outra adaptação de grande sucesso, recheada de atrizes renomadas da época, incluindo June Allyson como Jo March, e dirigida por Mervyn LeRoy

    1994

    Primeira adaptação do livro dirigida por uma mulher, a australiana Gillian Armstrong, o longa foi indicado a três Oscar e também possui um elenco poderoso, com Winona Ryder como Jo March, além de Kirsten Dunst e Christian Bale. Aclamada por sua qualidade, é considerada junto à de 1933 uma das melhores adaptações do livro

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