Como a produção de amêndoas mata bilhões de abelhas por ano

Cultivo nos EUA depende de polinização e impõe regime agressivo a colônias comerciais. Região da Califórnia responde por 80% do plantio mundial

A queda na população de abelhas é um fenômeno mundial, ligado a fatores como perda de habitat, mudanças climáticas e uso de pesticidas.

Ela preocupa ambientalistas e cientistas por colocar em risco não só a biodiversidade como a produção de alimentos no mundo, já que, de acordo com estimativas, o inseto é responsável por polinizar cerca de 73% das espécies vegetais cultivadas no mundo.

Nos EUA – um dos países onde o número de abelhas tem enfrentado um grave declínio – esse problema tem sido potencializado pela produção industrial de amêndoas, em expansão nas últimas décadas. É o que revela uma reportagem publicada na quarta-feira (8) pelo jornal The Guardian. Segundo uma pesquisa anual, 50 bilhões de abelhas foram dizimadas entre o fim de 2018 e os primeiros meses de 2019 nos EUA. Esse número corresponde a mais de um terço da criação comercial do inseto no país.

As abelhas são essenciais para a polinização das amendoeiras, cultivadas em grande escala nas megafazendas do Vale Central, no estado da Califórnia. Essa produção responde por 80% do abastecimento mundial de amêndoas.

Esse cultivo em larga escala foi impulsionado em anos recentes pelo crescimento do consumo de leite de amêndoa, um substituto para o leite de origem animal.

O transporte das colmeias para a região feito por apicultores, porém, tem sido mortal para as abelhas, que retornam enfraquecidas e doentes. Para eles, o aluguel das colônias de abelhas para a indústria amendoeira é mais lucrativo do que a venda do mel, mas a perda de uma parte significativa das colmeias a cada ano pode tornar o negócio insustentável.

Por que a produção de amêndoa é prejudicial

A exposição a pesticidas, os ataques de parasitas e a perda do habitat natural são alguns dos fatores que tem levado a uma alta mortalidade de abelhas.

Os métodos industriais utilizados na agricultura – sobretudo no cultivo de amêndoas, que demanda um alto grau de mecanização – também impactam sua saúde. A produção na Califórnia se baseia na monocultura, e a falta de diversidade no plantio é prejudicial para as abelhas.

Embora o uso de pesticidas não seja exclusividade do cultivo de amêndoas entre as plantações da Califórnia, são elas que recebem as maiores quantidades absolutas de agrotóxicos. Entre eles, o glifosato, conhecido por ser letal para abelhas e por causar câncer em seres humanos é utilizado largamente por produtores industriais de amêndoas.

A polinização das amendoeiras, além disso, exige muito das abelhas. Ela demanda que as colônias sejam retiradas meses antes do estado de dormência no qual permanecem para sobreviver durante o inverno e também requer uma quantidade de colmeias maior do que outros tipos de cultivo.

A concentração simultânea de centenas de milhares de colmeias criadas por diferentes apicultores em uma mesma região também aumenta o risco de as doenças se espalharem entre as colônias.

Quais medidas estão sendo adotadas

  • Desenvolvimento de variedades de amendoeiras que precisam de menos colmeias para serem polinizadas ou que prescindem totalmente delas
  • Criação de uma nova lei na Califórnia sobre o registro das colmeias pelos apicultores, obrigados a notificar quando são deslocadas para diferentes lugares. A ideia é que aplicadores de pesticidas possam ter acesso a essas informações, para dosar a aplicação de químicos
  • Certificação de produtos que dependem das abelhas, através de um programa chamado “Bee Better”, que ajuda consumidores a escolher itens feitos com métodos que respeitem esses insetos. Criado em 2017, o programa também busca introduzir biodiversidade (através do plantio de trevos e flores silvestres, por exemplo) nos bosques de amendoeiras para ajudar a combater pragas de maneira natural e a nutrir as abelhas.

Distúrbio do colapso das colônias

O termo foi cunhado nos EUA em 2006 para identificar uma série de casos em que abelhas operárias de uma colônia morriam ou desapareciam subitamente. No ano seguinte, vários outros países reportaram perdas substanciais em suas populações de abelhas.

Pesquisadores detectaram diferentes fatores responsáveis pela síndrome, dos quais o principal foi a contaminação por pesticidas, especialmente os neonicotinoides, inseticidas a base de nicotina.

Uma década depois da descoberta, a população de abelhas segue diminuindo em diferentes partes do mundo, mas vários países passaram a monitorar sua quantidade de abelhas e adotaram regulações específicas para o uso desses pesticidas.

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