Ir direto ao conteúdo

A descoberta de um artigo inédito do escritor Albert Camus

Encontrado por historiador, texto de 1943 trata de como resistir à ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial

    O jornal francês Le Figaro publicou no início de janeiro de 2020 um texto inédito redigido pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). O documento data de 1943, quando a França se encontrava ocupada pelo exército nazista.

    A descoberta foi feita pelo historiador Vincent Duclert. O texto constava nos arquivos de Charles de Gaulle e foi incluído em seu novo livro “Camus, des pays de liberté” (Camus, países de liberdade, em tradução livre) lançado na quinta-feira (9) pela editora francesa Stock.

    Intitulado “De um intelectual que resiste”, o artigo não contém assinatura, mas foi identificado como sendo de Camus por diferentes fontes. Foi escrito a pedido do Comitê Francês de Libertação Nacional, que procurava livrar o país do domínio nazista e solicitava clandestinamente análises de jornalistas e intelectuais que se encontravam na França ocupada.

    O que diz o texto

    O clima descrito por Camus no artigo pode ser resumido em dois sentimentos – angústia e incerteza, diz uma reportagem da rádio Europe 1. Angústia por um país que precisaria ser reconstruído e a incerteza pelo futuro que não poderia ser escrito sem a contribuição das elites, que deveriam passar por uma renovação.

    “Só existem duas elites: a do povo e a da inteligência, a reunião de homens cujas palavras se apoiam sobre uma experiência real”, escreve, associando-as aos integrantes da Resistência.

    A maior preocupação do autor era com o que viria depois – o que restaria do país após a ocupação e o governo colaboracionista. A ocupação eliminava quem ameaçasse reagir à dominação nazista e estava também “matando” o espírito de uma geração.

    Segundo Camus, o dever de todos os engajados na resistência era “lembrar às pessoas todos os dias, todas as horas se necessário, em todos os artigos, em todas as transmissões, todas as reuniões, todas as proclamações” o que estava sendo defendido na reação aos nazistas.

    Em sua coluna no jornal O Globo, o escritor Luís Fernando Veríssimo estabeleceu uma relação entre o conteúdo do texto e a atual situação política no Brasil. Ele considera esse lembrete sobre “o que se está combatendo quando se combate a escuridão” um “bom conselho do Camus, 60 anos depois”.

    Camus destaca ainda a urgência de que aqueles que se encontravam no exterior, como o general de Gaulle, voltassem ao país para apoiar militarmente os membros da Resistência. O texto se aproxima dos editoriais escritos por Camus para o jornal Combat, editado pelo autor entre 1944 e 1947.

    Charles de Gaulle (1890-1970) foi uma figura política importante da França do século 20. Militar, combateu nas duas grandes guerras e, do exílio em Londres, exortou os franceses a resistirem à ocupação alemã, sendo um dos fundadores do Comitê Francês de Libertação Nacional. Seguiu carreira política após a guerra, governando a França entre 1959 e 1969.

    O país foi libertado da ocupação alemã em agosto de 1944.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!