Ir direto ao conteúdo

O que o agronegócio brasileiro exporta para o Oriente Médio

Brasil é o maior exportador de produtos agropecuários para a região, segundo levantamento de pesquisadores do Insper. Irã e Iraque, protagonistas na crise com os EUA, se destacam pelas compras de milho, açúcar e frango

A morte do general iraniano Qassim Suleimani em um ataque americano a Bagdá, capital do Iraque, na madrugada de sexta-feira (3), abalou a geopolítica e os mercados internacionais. Suleimani, principal comandante dos Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, foi morto em uma ação militar autorizada pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

Após dias de tensão – que incluíram um ataque do Irã a duas bases militares americanas no Iraque –, Trump fez um discurso na quarta-feira (8) em que afirmou não querer usar o poder da força militar. A alternativa anunciada pelo presidente americano para pressionar o Irã são as vias econômicas, com imposição de novas sanções.

Em 2015, foi firmado um acordo nuclear entre Irã, EUA e potências mundiais como Alemanha, China, França, Reino Unido e Rússia, que envolvia a retirada de sanções econômicas. Em 2018, os EUA anunciaram a saída do acordo, retomando sanções sobre o Irã. No pronunciamento no início de 2020, Trump pediu que os outros países que assinaram o documento desistam do pacto e busquem alternativas junto aos EUA.

O agravamento das tensões nas relações entre EUA e Irã voltou as atenções do mundo para o Oriente Médio. A região é conhecida por ser a maior produtora de petróleo do planeta, mas suas relações comerciais – tanto com o Brasil quanto com outros países – não se restringem a produtos derivados do produto.

Um estudo conduzido por pesquisadores do Insper no início de janeiro de 2020 traçou o perfil das exportações brasileiras para o Oriente Médio, dentro do recorte do agronegócio, setor no qual o Brasil é o país que mais exporta para a região. O levantamento, conduzido pelo professor Marcos Jank, mostrou o peso de cada país e de cada tipo de produto na balança comercial do Brasil.

Abaixo, o Nexo destaca os principais números levantados. Os dados também destacam o papel de Irã e Iraque – protagonistas nas tensões geopolíticas no início de 2020 – para as exportações do agronegócio brasileiro.

A origem das importações do Oriente Médio

Ao todo, o Oriente Médio importou cerca de US$ 92 bilhões em produtos do agronegócio em 2018, último ano registrado no estudo do Insper. O valor é o mais baixo desde 2010.

PRODUTOS DO AGRONEGÓCIO

Exportações mundiais do agronegócio para o Oriente Médio, em US$ bilhões. Entre 90 bilhões e 100 bilhões entre 2015 e 2018

O país da região que mais importou produtos do agronegócio – independentemente da origem – em 2018 foi a Arábia Saudita. A nação foi responsável por quase um quinto do valor importado em todo o Oriente Médio nessa modalidade de produtos. Irã e Iraque, por sua vez, foram, respectivamente, o quarto e quinto maiores importadores de bens agropecuários em 2018.

PROTAGONISTAS DO COMÉRCIO

Maiores importadores agro do Oriente Médio em 2018. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos no topo

Os produtos agropecuários que chegaram ao Oriente Médio em 2018 tiveram diversas origens. Sob a ótica dos blocos econômicos internacionais, a União Europeia foi o principal exportador para a região, sendo responsável por quase um quarto do valor total comercializado.

BLOCOS EXPORTADORES

Exportações do agronegócio para o Oriente Médio em 2018. União Europeia e Brasil no topo

Desmembrando os blocos e olhando para os países separadamente, o Brasil aparece como o principal exportador de produtos do agronegócio ao Oriente Médio. Segundo o levantamento do Insper, o Oriente Médio recebeu 7% de todas as exportações brasileiras em 2018. Quase 10% de todos os bens agropecuários importados pela região têm origem brasileira. O segundo país na lista de maiores exportadores agropecuários para a região é a Índia, seguida pelos EUA.

PAÍSES EXPORTADORES

Maiores exportadores para o Oriente Médio em 2018 US$ bilhões. Brasil e Índia no topo

Compradores e principais produtos brasileiros

O país da região que mais comprou bens do agronegócio do Brasil em 2018 foi o Irã, responsável por um quarto do que foi exportado pelo mercado brasileiro para o Oriente Médio. Outro país com participação importante é a Arábia Saudita, que até 2016 liderava a lista e em 2018 representou um quinto do comércio entre Brasil e Oriente Médio. Já o Iraque foi o quinto maior comprador de produtos agropecuários brasileiros em 2018.

AGRONEGÓCIO E ORIENTE MÉDIO

Cinco maiores importadores de produtos brasileiros em 2018. irã e Arábia Saudita no topo

O Brasil se destaca na exportação de alguns produtos específicos ao Oriente Médio, como soja, milho e açúcar. Nos mercados de soja e açúcar, a participação brasileira é de cerca de metade do valor comprado por países da região. No mercado de milho, chega a pouco mais de um terço. Entre esses produtos, o Brasil enfrenta concorrência maior de outro país no caso da soja, pois os EUA têm quase um quarto de participação nas vendas do grão.

PRODUTOS DE DESTAQUE

Exportações para o Oriente Médio em 2018. Brasil com domínio na soja, milho e açúcar

As carnes bovina e de frango também são produtos cujo maior principal exportador para o Oriente Médio é o Brasil. No mercado de frango, o Brasil foi responsável por quase 60% do valor importado pela região em 2018. No mercado de carne bovina, a participação brasileira foi de pouco mais de 30%.

Em países árabes, as carnes mais comumente consumidas são do tipo halal (“autorizado”, em árabe), que seguem normas específicas do islamismo para a criação, alimentação e abate dos animais.

Algumas dessas regras definem que, no momento do abate, o corpo do animal deve estar voltado na direção da cidade sagrada de Meca (na Arábia Saudita), e que o abate deve ser feito por um muçulmano.

O Brasil é o maior exportador mundial de carnes halal. As empresas produtoras recebem inspeções para certificar se seguem, de fato, os preceitos. Os países da Liga Árabe, onde a carne halal é amplamente consumida, têm maioria religiosa muçulmana.

EXPORTAÇÕES DE CARNES

Exportações de carne para o Oriente Médio em 2018. Brasil domina mercados de frango e carne bovina

Como um todo, o frango foi o produto com maior peso na balança do agronegócio brasileiro com o Oriente Médio em 2018. A carne aviária representou quase um quarto das exportações à região. Soja e açúcar tiveram participação parecida, em torno de 16% do valor total vendido em produtos agropecuários.

AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

Participações nas exportações ao Oriente Médio. Frango no topo em 2018

As exportações para Irã e Iraque

Ao todo, o Brasil exportou US$ 2,7 bilhões para Irã e Iraque em produtos do agronegócio em 2018.

US$ 2,19 bilhões

foi o total exportado em produtos agropecuários do Brasil para o Irã em 2018

US$ 547 milhões

foi o total exportado em produtos agropecuários do Brasil para o Iraque em 2018

Desde 2012, o principal produto do agronegócio exportado pelo Brasil ao Irã é o milho. Em 2018, o grão representou metade de todo o valor vendido para compradores iranianos. Um terço desse montante veio de produtos do chamado complexo da soja, como óleo, grãos e farelo que é usado na ração de animais.

RELAÇÕES BRASIL-IRÃ

Principais produtos agropecuários exportados ao Irã. Protagonismo do milho

Já no caso do Iraque, o principal produto brasileiro importado desde 2015 é o açúcar. Em 2018, mais de 60% de toda a receita de vendas de produtos do agronegócio do Brasil ao Iraque vieram desse produto. Quase 30% do montante total vieram do comércio de carne de frango.

RELAÇÕES BRASIL-IRAQUE

Principais produtos agropecuários exportados ao Iraque. Protagonismo do açúcar

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: