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Iraque 2003, Irã 2020: como a Europa se distanciou dos EUA

Líderes do continente se afastam de política agressiva de Trump, 16 anos após Bush ter usado mentiras para justificar invasão do território iraquiano

    O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebe de seus aliados europeus um apoio apenas precavido na disputa em curso com o governo do Irã. Essa precaução é um dos fatores que impedem uma escalada maior do conflito.

    Os líderes de França, Alemanha e Reino Unido não se mostraram dispostos a abrir uma frente militar contra os iranianos. Ao contrário, pedem moderação a todo custo e tentaram salvar por todos os meios o acordo nuclear que Trump se empenhou em enterrar.

    Ao discursar em Washington na quarta-feira (8), após os ataques sofridos em duas bases americanas no Iraque, Trump mandou uma mensagem direta aos governos das potências europeias, além da Rússia e da China: esqueçam o acordo nuclear firmado em 2015 com o Irã.

    Ele também avisou que pretende procurar esses parceiros europeus por meio da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em busca de maior engajamento no Oriente Médio.

    Bases_americanas

    Desde o assassinato do comandante Qassim Suleimani, na sexta-feira (3), em Bagdá, capital do Iraque, o governo americano vem conversando com parceiros no Velho Continente. Trump e seu secretário de Estado, Mike Pompeo, buscam sintonia com seus pares diplomáticos, mas o máximo que encontram são respostas prudentes, em vez de apoio irrestrito.

    Um comunicado conjunto publicado na segunda-feira (6) pelos governos da França, da Alemanha e do Reino Unido afirma que “a desescalada do conflito é necessária” e diz que o trio está empenhado em “dialogar com todas as partes” – o que contrasta com a posição dos EUA, país que não mantém relações diplomáticas com o Irã desde 1979 e que investe hoje numa escalada aberta das tensões.

    Quando individuais, as manifestações desses países europeus são ainda mais claras: “É preciso que as duas partes engajem-se num processo de negociação”, disse na terça-feira (7) o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, referindo-se ao Irã e aos EUA. “Ninguém quer a guerra”, afirmou ele em Paris, três dias depois de Trump ter ameaçado destruir 52 patrimônios culturais iranianos.

    Em Londres, o ministro britânico das Relações Exteriores, Dominic Raab, repetiu quase literalmente o discurso de seu colega francês: “É preciso desescalar as tensões e encontrar um caminho diplomático para fora dessa crise”. A fala de Raab foi feita dois dias depois de Trump ter prometido reagir “de maneira desproporcional” a qualquer retaliação iraniana.

    Em Berlim, o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas, disse que o assassinato de Suleimani “tornou a situação mais imprevisível e os esforços para reduzir as tensões, mais difíceis”. Questionado sobre a prioridade da Alemanha no contexto, Maas repetiu o francês Le Drian e o britânico Raab: “a prioridade é evitar uma escalada na forma de um conflito armado”.

    Europa e EUA têm interesses diferentes

    Para a Europa, há dois objetivos agora. Um deles é manter Paris, Berlim e Londres a salvo da ameaça de ataques terroristas cometidos pelo Estado Islâmico e por jihadistas em geral – e o Irã era um parceiro nessa tarefa, apesar das divergências em vários outros campos.

    O outro objetivo é impedir que os iranianos venham a desenvolver armas nucleares – o que se tornou mais difícil após Trump cancelar o acordo atômico de 2015 e ordenar o assassinato de Suleimani em Bagdá. Os dois fatos levaram o governo iraniano a anunciar planos de aumentar o enriquecimento de material radioativo, com a intenção de tornar seus estoques aptos para uso militar.

    Os europeus preocupam-se ainda com o aumento do fluxo migratório decorrente de qualquer recrudescimento dos conflitos no Oriente Médio ou na África. Esses fluxos embalam o discurso nacionalista de líderes europeus de extrema direita e dificultam a vida política dos presidentes de turno. Evitar que isso ocorra é uma prioridade de ordem eleitoral.

    Do outro lado do Atlântico, Trump tem suas prioridades. As disputas com o Irã vêm desde pelo menos a Revolução dos Aiatolás de 1979, quando 52 funcionários americanos foram mantidos reféns na Embaixada dos EUA em Teerã por 444 dias, ou ainda mais atrás no tempo, quando os americanos derrubaram o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh depois que ele decidiu nacionalizar a exploração de petróleo no país, nos anos 1950.

    Além disso, o presidente americano enfrenta dois desafios na frente doméstica. O primeiro é um processo de impeachment, que passou pela Câmara em dezembro e deve ser votado no Senado em janeiro. Trump pode cair, embora a maioria republicana no Senado torne difícil que isso aconteça. Por fim, há as eleições presidenciais de 2020, nas quais Trump aparece hoje como o único candidato confirmado com chances reais de vencer.

    Para um político que chegou ao poder apostando na estratégia do “Medo” – que dá nome à principal biografia do presidente americano, escrita pelo veterano jornalista Bob Woodward em 2019 – a ameaça de uma guerra pode vir a calhar às portas da campanha eleitoral. O líder republicano faz da tensão permanente um motor de engajamento, e é possível que a estratégia agressiva contra o Irã eletrize um eleitorado já receptivo a essa postura.

    Solidariedade, um ativo volátil

    A postura cuidadosa adotada por franceses, alemães e britânicos na disputa em curso entre americanos e iranianos contrasta com o clima de solidariedade irrestrita que os EUA despertaram no mundo após sofrerem os atentados de 11 de setembro de 2001.

    Os dois eventos estão separados não apenas por um intervalo de 18 anos no tempo, mas por uma questão de escala: o 11 de Setembro foi o maior ataque terrorista já sofrido pelos EUA em toda a sua história, enquanto o problema com o Irã é um acumulado de escaramuças ao longo de pelos menos 40 anos.

    Em 2001, os ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono alinharam europeus e americanos numa ofensiva coesa contra o terrorismo no mundo. A unidade obtida então remontava à gratidão europeia pelo apoio recebido dos EUA na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

    Todos esses países são membros da Otan, cuja existência se baseia na premissa de que um ataque contra um de seus membros é um ataque a todos e, como tal, deve ser revidado por todos.

    Assim, a empreitada antiterrorista manteve-se unitária enquanto restrita ao Afeganistão, país então controlado pelo Taleban, que servia de campo de treinamento e esconderijo para membros da Al-Qaeda envolvidos nos ataques do 11 de Setembro.

    Aos poucos, no entanto, os americanos forçaram os limites da chamada “guerra ao terror” e expandiram ações para o Paquistão e, finalmente, para o Iraque, onde o então presidente dos EUA, George W. Bush, dizia existir uma arsenal de armas de destruição em massa em 2003.

    O apoio britânico. A recusa francesa

    Pelo direito internacional, Bush tinha dois caminhos legais para atacar o Iraque: ou como um revide a um ataque sofrido em seu próprio território ou com aprovação do Conselho de Segurança da ONU (Organizações das Nações Unidas). Ele não tinha nenhum dos dois, mas mesmo assim resolveu seguir adiante de maneira unilateral.

    Os americanos pediram apoio à França, confiante no sentimento de gratidão pela libertação de Paris em 1944. Mas o então presidente Jacques Chirac disse não. “A guerra é sempre uma admissão de fracasso e a pior de todas as soluções. Tudo deve ser feito para evitá-la”, disse em 2003 o então presidente, morto em 2019 aos 86 anos.

    A resposta de Chirac à época enfureceu políticos americanos. “É difícil levar a França a sério”, disse o então vice-presidente americano, Dick Cheney. Em Washington, as três cafeterias do Congresso mudaram o nome das batatas fritas – “french fries”, em inglês – para “freedom fries”, ou “batatas da liberdade”.

    O único país da Europa a embarcar na aventura proposta por Bush foi o Reino Unido, então liderado pelo primeiro-ministro trabalhista Tony Blair. Mesmo contra todas as evidências, Blair comprou a tese de que Saddam Hussein possuía de fato o arsenal de armas de destruição em massa atribuído a ele pelos EUA.

    A tese mostrou-se falsa. Nada foi encontrado. Treze anos depois, em 2016, uma comissão oficial britânica criada para apurar as responsabilidades pelo ocorrido concluiu que o governo errou ao participar do ataque ao Iraque em 2003. Pelo menos 179 militares britânicos morreram em ação.

    Era tarde. A invasão ao Iraque levou a uma mudança de regime e abriu um período de desgoverno no país. O então presidente iraquiano, Saddam Hussein, acabou capturado, preso e executado no Iraque em dezembro de 2006.

    O Iraque devastado serviu de celeiro para a proliferação de novos grupos terroristas que, anos mais tarde, desembocariam na formação do Estado Islâmico.

    A experiência marcou negativamente a diplomacia americana e cobrou um preço alto na relação com os europeus. Ainda assim, os dois lados continuariam a trabalhar juntos em grandes ações conjuntas. Em 2011, uma coalizão formada por americanos e europeus levou à morte do então presidente da Líbia, Muammar Gaddafi, encontrado e executado por opositores com apoio de aviação estrangeira.

    A aliança se repetiria na Síria, onde EUA, Reino Unido, França e Alemanha agiram juntos contra o presidente Bashar al-Assad. Mas o quadro, então, havia mudado. A Rússia – potência cuja posição havia sido ignorada pelos EUA ao longo de toda a “guerra ao terror” – resolveu agir para reconquistar o espaço perdido.

    Vladimir Putin tornou-se o maior fiador de Assad e, junto com o Irã, manteve a salvo o governo da Síria até hoje, impondo uma derrota aos interesses de europeus e americanos na região.

    Desencontro e descoordenação

    Além do acumulado de experiências turbulentas entre americanos e europeus nos últimos anos, há um fato político contemporâneo de contorno ideológico: Trump é o presidente que lidera a corrente populista de extrema direita que vive seu melhor momento no mundo desde o fim da Segunda Guerra, em 1945.

    Essa corrente é combatida dentro da Europa pelos atuais líderes de quem Trump poderia esperar mais apoio contra o Irã. Apenas países militarmente secundários, como a Hungria, a Áustria e a Polônia, têm governantes afinados com o populismo de Trump. Os atuais governos da França e da Alemanha, ao contrário, são adversários desses políticos, enquanto o Reino Unido vive um momento confuso, com a decisão de abandonar a União Europeia no chamado Brexit.

    As divergências se manifestam abertamente entre essas correntes. Desde que Trump chegou ao poder, ele critica os europeus pelo que considera um baixo compromisso orçamentário com a Otan.

    Em resposta, o presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a declarar que a descoordenação fazia do grupo uma entidade em estado de “morte cerebral”.

    A Otan é, por excelência, o espaço de coordenação para respostas militares articuladas contra ameaças comuns, mas o ambiente parece estar mais marcado por divergências do presente que por sintonias do passado.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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