A retaliação do Irã. O discurso de Trump. E o risco de escalada

Após o assassinato do comandante Suleimani, iranianos lançam mísseis contra bases americanas no Iraque. Governo dos EUA anuncia que responderá com novas sanções econômicas

    O Irã atacou na madrugada de quarta-feira (8) duas bases militares dos EUA no vizinho Iraque. De acordo com o governo iraniano, 22 mísseis atingiram a base aérea de Ain al Assad e o aeroporto de Erbil. De acordo com os EUA, foram 12.

    A ação foi uma resposta do Irã ao assassinato de seu principal comandante militar, Qassim Suleimani, morto num ataque de drone americano na sexta-feira (3), em Bagdá. O ataque que matou Suleimani ocorreu à 1h20 da madrugada no horário local. O revide iraniano, também. O simbolismo é parte da resposta.

    O fato de os mísseis terem percorrido mais de 500 km de distância indica que a munição usada é de relativa alta tecnologia, e operada por forças oficiais iranianas, ao contrário dos imprecisos foguetes Qassam, lançados frequentemente contra Israel por grupos armados apoiados pelo Irã na região.

    A troca de agressões diretas entre americanos e iranianos desperta temores de uma escalada no Oriente Médio. Os dois países cortaram relações em 1979 e, desde então, protagonizam escaramuças e disputas indiretas, protagonizadas por grupos apoiados por um e outro lado em países como a Síria, o Iraque e o Iêmen.

    Agora, o assassinato de Suleimani e os ataques às bases americanas no Iraque transformaram-se num raro e perigoso contato direto entre dois atores que há 40 anos rivalizam política e militarmente na região.

    O risco de uma guerra aberta entre ambos é agravado ainda pela ruptura de um acordo nuclear que havia sido firmado em 2015 entre Irã, EUA e outros cinco países: França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia. O governo iraniano anunciou que pretende retomar o enriquecimento de urânio em níveis que o tornam apto para uso militar.

    O pronunciamento de Trump

    A primeira resposta do presidente americano, Donald Trump, aos ataques sofridos no Iraque veio pelo Twitter: “está tudo bem!”, disse, anunciando que faria um pronunciamento nas horas seguintes. Na quarta-feira (8), em Washington, Trump fez o discurso prometido. Em 10 minutos, e sem responder a perguntas, anunciou novas sanções econômicas ao Irã, mas não falou sobre retaliação militar. Segundo Trump, o governo americano não quer usar o poder da força e prefere pressionar o Irã pelas vias econômicas.

    O presidente americano afirmou ainda que Rússia, China, França, Alemanha e Reino Unido devem desistir de vez de tentar ressuscitar o acordo nuclear com o Irã e anunciou que ele vai procurar a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em busca de apoio.

    O alcance do revide iraniano

    Os EUA tinham em dezembro de 2019 mais de 6.000 militares no Iraque. Após o assassinato de Suleimani e a ruptura do acordo nuclear com o Irã, os americanos começaram a enviar novos reforços, mas o parlamento iraquiano votou pela expulsão das forças estrangeiras do país. A situação está indefinida, pois o governo americano diz que ainda não decidiu sair do Iraque.

    As bases atacadas pelo Irã na madrugada de quarta-feira (8) são as mais importantes dos EUA no Iraque. Uma delas, a de Ain al Assad, recebeu visitas do presidente Donald Trump e do vice, Mike Pence, no passado.

    Bases_americanas

    Os EUA estão presentes no Iraque desde a invasão que depôs o presidente Saddam Hussein, em 2003. Essa presença era justificada inicialmente como uma reação aos ataques sofridos em 11 de setembro de 2001. À época, os americanos diziam buscar armas de destruição em massa no país. Esse arsenal nunca existiu, soube-se mais tarde.

    A partir de 2011, o Iraque passou a ser o principal ponto de apoio para o movimento de tropas americanas e europeias na vizinha Síria. O governo iraquiano – um amálgama negociado entre diferentes facções – equilibrava-se até agora entre a influência dos EUA e do Irã. O assassinato de Suleimani em Bagdá fez o governo iraquiano pender definitivamente para o lado iraniano.

    Até onde o Irã pode ir

    Após os ataques às bases americanas, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, disse que o país havia agido de maneira proporcional e não pretendia seguir adiante.

    “O Irã realizou e concluiu medidas proporcionais de autodefesa”, disse o chanceler Zarif, citando o artigo 51 da Carta das Nações Unidas que trata do direito de legítima defesa em caso de agressão estrangeira. Ele também disse que seu país não busca uma “escalada” no conflito.

    “Nós não procuramos uma escalada da guerra, mas nós nos defenderemos contra qualquer agressão”

    Mohammad Javad Zarif

    ministro das Relações Exteriores do Irã, em post no Twitter no dia 8 de janeiro de 2019

    Horas depois do post de Zarif, o presidente do Irã, Hassan Rohani, publicou uma mensagem na mesma rede social na qual advertiu que a resposta iraniana só estará completa quando os americanos forem expulsos “da região”.

    “Nossa resposta final ao assassinato [de Suleimani] será chutar para fora da região as forças dos EUA”

    Hassan Rohani

    presidente do Irã, em post no Twitter no dia 8 de janeiro de 2019

    Não está claro à qual região Rohani refere-se na mensagem. Se for somente à região do Irã e do Iraque, a missão é menos complexa. O parlamento iraquiano já aprovou uma ordem de expulsão das tropas americanas. Qualquer permanência dos EUA a partir daí transforma-se numa ocupação estrangeira.

    Se Rohani, no entanto, refere-se ao mundo persa e árabe, ou ao mundo islâmico, a causa ganha outra dimensão. A presença militar americana na Arábia Saudita foi o principal argumento usado por Osama Bin Laden e seus seguidores da Al-Qaeda para cometer os atentados de 11 de setembro de 2001. Meca e Medina, os dois locais mais sagrados do islamismo, ficam na Arábia Saudita – país que é, junto com Israel, o principal aliado americano na região.

    O islamismo é dividido em duas correntes principais: o sunismo e o xiismo. Elas têm origem no século 7, quando, após a morte do Maomé, teve início uma disputa sobre quem seriam os legítimos depositários do espólio teológico do profeta: se os seus principais discípulos (como defendiam os sunitas) ou seus familiares (como diziam os xiitas).

    O caráter originário dessa divisão perdeu sentido ao longo dos séculos, mas a fissura aberta por ela foi transportada para o campo político. A Arábia Saudita é a maior potência sunita no Oriente Médio. O Irã é a maior potência xiita. Os atritos entre as duas facções enfraquece uma posição comum entre os países da região e favorece a formação de alianças como a que os EUA celebram com a monarquia saudita.

    Prevenção da escalada

    Um possível conflito aberto entre os EUA e o Irã desperta temores de que as consequências se alastrem por todo mundo, seguindo uma linha de fratura não apenas política, mas religiosa. Esse temor cresceu ainda mais após o 11 de Setembro e após a ascensão de novos líderes populistas que, no Ocidente, passaram a alimentar a ideia de que está em curso uma guerra de religiões, nos moldes das cruzadas medievais.

    Os principais atores engajados na “desescalada” do conflito são os governos da França, da Alemanha e do Reino Unido. Os três países emitiram declaração conjunta pedindo que sejam abertas negociações e que americanos e iranianos se abstenham de novos atos de violência.

    A Alemanha e o Canadá já anunciaram a retirada de seus militares do Iraque, seguindo a decisão do parlamento local. Franceses e britânicos ainda tentam negociar a permanência, preocupados sobretudo com a necessidade de debelar a ameaça terrorista que o Estado Islâmico – ainda presente em partes do Oriente Médio e da África – pode representar para o território europeu.

    Eventos paralelos

    No mesmo dia em que o Irã atacou as bases americanas no Iraque, outros dois eventos – sem conexão clara entre si – ocorreram em território iraniano: a queda de um avião e um terremoto.

    Um Boeing 737 com 176 pessoas a bordo caiu após a decolagem nos arredores de Teerã, capital do Irã. O avião faria o trajeto até Kiev, capital da Ucrânia. A queda da aeronave ocorreu pouco depois dos ataques iranianos às bases americanas, mas nenhuma autoridade relacionou os dois eventos. Uma reportagem da revista Newsweek atribuiu o acidente ao sistema de mísseis antiaéreos do Irã, que teria cometido um erro operacional.

    A autoridade de aviação do país se negou a entregar as caixas-pretas à fabricante, algo que é praxe nas investigações de acidentes aéreos. A Boeing é uma empresa americana e, independentemente do país da ocorrência, a autoridade de aviação civil dos EUA também costuma participar das averiguações.

    Mais tarde, na mesma quarta-feira (8), um terremoto de 4,5 graus foi registrado perto da usina nuclear de Bouchehr, no sudoeste do Irã. O evento coincidiu com o revide iraniano, com a queda do avião e com o anúncio da retomada do programa de enriquecimento de urânio no país.

    Abalos sísmicos são comuns em zonas onde ocorrem testes de armas nucleares. Mas eles também são recorrentes no Irã, por causas naturais. Não está clara a natureza deste evento em particular.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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