4 poemas de João Cabral comentados por escritores e críticos

Por ocasião do centenário do autor pernambucano, acadêmicos e poetas selecionam a pedido do ‘Nexo’ trechos que dialogam com o presente ou sintetizam traços de seu trabalho

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    Racional, laborioso e reflexivo. Mas também sensível (embora avesso ao sentimentalismo), próximo à linguagem popular e aos temas sociais. Dos muitos grandes poetas de língua portuguesa que habitaram o século 20, essa combinação aparentemente paradoxal de adjetivos só poderia definir João Cabral de Melo Neto, cujo nascimento completa 100 anos nesta quinta-feira (9).

    Nele, essas duas facetas não constituem contradição. O rigor formal e a precisão de seu fazer poético, comparado por ele próprio ao trabalho matemático de um engenheiro, convivem com a artesania de um ferreiro ou catador de feijão. Em suas imagens recorrentes, coexistem também a dureza da pedra, a qualidade severa de uma faca feita só de lâmina e a fluidez do rio Capibaribe.

    Mais conhecido pelo clássico “Morte e vida severina” (1955), João Cabral é autor de uma obra vasta, que inclui livros como “O cão sem plumas” (1950), “Uma faca só lâmina” (1955), “A educação pela pedra” (1966) e “O auto do frade” (1984). Textos inéditos em prosa e poesia, além de pelo menos duas biografias, serão publicados em 2020 como comemoração de seu centenário. João Cabral morreu em 1999, aos 79 anos, encerrando um período importante da poesia brasileira.

    A pedido do Nexo cinco poetas e pesquisadores selecionam e comentam abaixo trechos de quatro poemas de João Cabral de Melo Neto, enfatizando de que maneira as passagens sintetizam aspectos da obra do poeta ou sinalizam como sua poesia pode dialogar com o tempo presente.

    Os comentários são acompanhados de ilustrações criadas especialmente para o texto. Elas foram inspiradas no livro “Aniki Bobó”, feito por João Cabral em parceria com o designer Aloísio Magalhães.

    Tecendo a manhã

    “Um galo sozinho não tece uma manhã:

    ele precisará sempre de outros galos.

    De um que apanhe esse grito que ele

    e o lance a outro; de um outro galo

    que apanhe o grito que um galo antes

    e o lance a outro; e de outros galos

    que com muitos outros galos se cruzem

    os fios de sol de seus gritos de galo,

    para que a manhã, desde uma teia tênue,

    se vá tecendo, entre todos os galos.

    2.

    E se encorpando em tela, entre todos,

    se erguendo tenda, onde entrem todos,

    se entretendendo para todos, no toldo

    (a manhã) que plana livre de armação.

    A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

    que, tecido, se eleva por si: luz balão”

    trecho do poema ‘Tecendo a manhã’

    do livro ‘A educação pela pedra’, de 1966

    “O efeito desse poema – um verdadeiro clássico – é impressionante, magnético, hipnótico”, comenta a poeta Alice Sant’anna. “O ritmo, a partir do terceiro verso, é a própria ‘teia tênue’, como se um verso fosse acordando o outro, assim como um galo vai convocando o outro, até chegar ao fim do poema, quando todos os galos já estão de acordo. E o dia depende disso para começar.”

    A escritora Jarid Arraes destaca o diálogo desse poema com o presente. “Sempre é tempo de amar a linguagem. E sempre é tempo de amar a coletividade. Esse poema dialoga com nosso tempo como um lembrete e com um desejo”, disse ao Nexo.

    O lembrete, segundo ela, diz respeito ao fato de que nada se faz só. “Não se escreve só. Um poema como esse, com esse peso de técnica, de experimentação, poesia e beleza, foi feito com a junteza da linguagem, e fala perfeitamente sobre isso. Um só, hoje, não tece uma manhã. Precisa que outro leve as palavras e os movimentos pra cá e pra lá e que assim façam muitos outros, nunca sozinhos, costurando realidades a partir de desejos. É assim que esse poema dialoga com nosso tempo: é tempo de não ser só, de não permitir a morte do desejo, não deixar que a nova manhã não amanheça. Temos tantas linguagens para que essa tecelagem seja real.”

    O Rio

    "(...)

    O canavial é a boca

    com que primeiro vão devorando

    matas e capoeiras,

    pastos e cercados;

    com que devoram a terra

    onde um homem plantou seu roçado;

    depois os poucos metros

    onde ele plantou sua casa;

    depois o pouco espaço

    de que precisa um homem sentado;

    depois os sete palmos

    onde ele vai ser enterrado…"

    trecho do poema ‘O Rio’

    do livro ‘O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife’, de 1953

    Ao Nexo Adelaide Ivánova, que se apresenta como garçonete, ativista e escritora, afirma que o poema “é um comentário muito sofisticado de João Cabral sobre luta de classes, sobre a ‘fratura metabólica’ entre homem e campo problematizada por Marx e Engels já em ‘O Capital’ e aprofundada no século 20 por John Bellamy Foster”.

    “É sobre justiça ambiental, latifúndio, monocultura. Sendo que, além de tudo, é uma poesia profunda, complexa, fantástica (o rio fala em primeira pessoa!) e afetiva, tanto pelas imagens quanto pelo uso da a sonoridade tão familiar do repente e do pernambuquês (essa língua maravilhosa!)”, afirmou. “Esse poema me politiza um pouquinho mais a cada releitura.”

    Poema

    “Meus olhos têm telescópios

    espiando a rua

    espiando minha alma

    longe de mim mil metros.”

    trecho de ‘Poema’

    do livro ‘A pedra do sono’, de 1942

    Primeira estrofe do primeiro poema do primeiro livro de João Cabral, a escolha do poeta, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras Antônio Carlos Secchin sintetiza aspectos da obra do pernambucano.

    “Formalmente, é uma quadra, tipo de estrofação que será, de longe, a preferida pelo poeta. O primeiro verso fala do olhar – e a visão será o sentido mais destacado em sua poesia. Ele afirmou, inclusive, que, se tivesse que escolher um lema para sua ideia de arte, seria ‘dar a ver’, aproveitando o título de um livro do poeta francês Paul Éluard. João Cabral sempre foi avesso ao confessionalismo, queria uma arte voltada para o outro, não para si – daí que usa um telescópio para fora, para a rua, e não um microscópio para dentro, seu interior. E até aquilo que poderia haver de mais íntimo, a alma, aparece como elemento externo, afastado, longe dele 1.000 metros. Não por acaso – por essa capacidade de despersonalizar-se poeticamente –, José Castello, num estudo biográfico do poeta, chamou-o de ‘O homem sem alma’”, disse ao Nexo.

    O sim contra o sim

    “Miró sentia a mão direita

    demasiado sábia

    e que de saber tanto

    já não podia inventar nada.

    Quis então que desaprendesse

    o muito que aprendera

    a fim de reencontrar

    a linha ainda fresca da esquerda.

    (...)

    A esquerda (se não se é canhoto)

    é mão sem habilidade:

    reaprende a cada linha

    cada instante, a recomeçar-se.

    Mondrian, também, da mão direita

    andava desgostado;

    não por ser ela sábia:

    porque, sendo sábia, era fácil”

    trecho do poema ‘O sim contra o sim’

    do livro ‘Serial’, de 1961

    Dedicado a alguns dos poetas e pintores admirados por João Cabral, o poema escolhido por Ítalo Moriconi evoca Marianne Moore, Francis Ponge, Miró, Mondrian, Cesário Verde e Augusto dos Anjos. Moriconi é professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), poeta e ensaísta.

    “Ao falar desses poetas e pintores, Cabral apresenta de forma sucinta seus próprios valores e métodos estéticos. Retiro do poema trechos referentes a Miró e Mondrian, dois artistas visuais com cujas obras a poesia de Cabral mantém afinidades”, explicou Moriconi.

    O professor propõe uma leitura política do poema. “Nos dias de hoje, eu, como leitor, aproprio-me deste poema vendo nele uma alegoria sobre as relações entre direita e esquerda, num sentido amplo, existencial e político”, disse ao Nexo.

    “A direita representa o já sabido, o senso comum, aquilo em que se tornou fácil acreditar. A esquerda é a posição deliberadamente canhota, que discorda do senso comum embrutecido, que ousa inovar e renovar-se. Vivemos um tempo em que se tornou importante defender a mão esquerda contra o autoritarismo da direita. A esquerda é a vontade de um novo começo, de recuperar o gesto infantil da alfabetização. A poesia como realfabetização do mundo, ressignificação pela prática.”

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