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Qual o efeito da tensão no Oriente Médio nos preços de combustível

Barril de petróleo subiu após ação militar dos EUA contra general iraniano. No Brasil, governo federal estuda medidas para compensar um possível aumento

A morte do general iraniano Qassim Suleimani em um ataque americano na madrugada de sexta-feira (3) abalou a geopolítica e os mercados internacionais. Suleimani, principal comandante dos Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, foi morto em uma ação militar autorizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O ataque aéreo teve como alvo o aeroporto de Bagdá, capital do Iraque, e matou oito pessoas. A decisão de Trump representou o ápice de uma série de conflitos entre o Irã e os EUA que se agravou nos últimos dias de 2019 e continua a elevar a tensão no Oriente Médio. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, prometeu vingança, e o parlamento do Iraque votou pela saída das tropas estrangeiras do país, ao que Trump rebateu com a ameaça de sanções econômicas.

A escalada dos conflitos entre os dois países afetou as bolsas pelo mundo, que recuaram diante da incerteza gerada pelo ataque. Apesar da improbabilidade de um confronto de grande escala, o episódio aumentou as tensões nucleares e levou os preços do petróleo a uma alta global recente.

Especialistas ouvidos pelo Nexo após o ataque identificaram o petróleo como um fator central nas disputas entre os países.

O impacto no preço do petróleo

Os eventos dos primeiros dias de 2020 levaram o preço do barril do petróleo a subir no mercado internacional. O barril de petróleo Brent ficou 3,5% mais caro na sexta-feira (3). No dia 5 de janeiro, a alta foi de pouco menos de 1,5%. Na segunda-feira (6), o preço ultrapassou a barreira dos US$ 70 pela primeira vez desde maio de 2019.

EM ALTA

Preço do barril de petróleo Brent. Em janeiro de 2020, maior valor desde maio de 2019.

Cerca de metade do petróleo do mundo é produzida no Oriente Médio. O temor é que o possível agravamento das tensões atinja a produção e o transporte de petróleo, o que afetaria o abastecimento mundial de combustíveis.

A oferta de petróleo não foi afetada pelos confrontos dos primeiros dias do ano, mas isso não impediu o aumento no preço do produto, resultado de maior procura por petróleo nos dias seguintes ao ataque. Em 3 de janeiro, dia da morte do general Qassem Soleimani, o volume de transações de barris de petróleo Brent no mercado internacional foi o maior desde o ataque a instalações petrolíferas na Arábia Saudita, em setembro de 2019. O aumento no preço teve, portanto, origem em um choque na demanda, e não na oferta do produto.

O estreito de Hormuz

A tensão no Oriente Médio passa também pelo funcionamento do estreito de Hormuz, gargalo marítimo de apenas 39 km de largura entre as costas de Irã e Emirados Árabes Unidos, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e um terço do gás natural produzido no mundo. O local é estratégico na distribuição de combustíveis fósseis para o restante do planeta.

Gráfico mostra a localização do Estreito de Hormuz

O estreito de Hormuz já havia sido alvo de disputas em maio de 2019, quando os EUA haviam posicionado uma frota de navios de guerra na região para pressionar o governo iraniano. Donald Trump acusava Teerã de desenvolver um programa nuclear ilegal com fins militares.

Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, o fechamento do estreito é visto como um evento improvável. Mas a importância da região faz o aumento da tensão no Iraque e no Irã representar um risco à oferta de petróleo para o restante do mundo.

Qual pode ser o impacto no Brasil

Na primeira declaração pública após o ataque dos EUA ao aeroporto de Bagdá, o presidente Jair Bolsonaro disse que o aumento no preço internacional do barril de petróleo deve afetar os combustíveis no Brasil. Ele também falou que não pode e não irá tabelar os preços dos combustíveis no Brasil.

“Que vai impactar vai, mas tem que ver nosso limite aqui. Porque já está alto o combustível, se subir complica”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em 3 de janeiro de 2020, sobre o possível aumento de preços dos combustíveis no Brasil

Na segunda-feira (6), Bolsonaro reafirmou que não vai interferir nos preços da gasolina. O presidente também disse que o impacto sobre o preço internacional do petróleo “não foi grande” e que a tendência é que a situação seja estabilizada.

A definição dos preços nos postos brasileiros passa pelo crivo indireto da Petrobras. Isso porque a maior estatal brasileira define os preços dos combustíveis nas refinarias de petróleo, de onde os produtos saem para serem distribuídos por todo o país.

Petrobras e os preços

COMO SE DÁ O CONTROLE

Oficialmente, o preço dos combustíveis no Brasil é definido livremente pelo mercado, mas a Petrobras tem praticamente o monopólio em uma das etapas de produção: o refino. Assim, o preço que a estatal define para o combustível recém-refinado acaba sendo a base para todos os preços no país. Antes de chegar ao tanque, a gasolina e o diesel passam ainda por distribuidoras e pelos postos. Ao preço básico das refinarias, somam-se os impostos e todos os custos das empresas envolvidas na distribuição e venda, além dos lucros.

A POLÍTICA DE PREÇOS DESDE 2016

Quando assumiu a Presidência da República em 2016, Michel Temer mudou a política de preços praticada pela Petrobras. Na época, a gestão escolhida para a estatal, sob o comando de Pedro Parente, definiu que a partir dali o preço dos combustíveis no Brasil seria pautado pela cotação do barril de petróleo no mercado internacional – em dólares. Em 2018, por aumentos no preço do petróleo e na cotação do dólar no Brasil, o governo brasileiro decidiu adotar medidas de atenuação de choques bruscos no preço da gasolina. Assim, se o preço internacional do barril estiver muito instável, o governo poderá acionar mecanismos que atrasam o impacto das mudanças no Brasil, protegendo o consumidor brasileiro de choques muito fortes no preço.

Diante da alta do barril de petróleo no mercado internacional nos primeiros dias de 2020, a tendência é que a Petrobras ainda não eleve os preços dos combustíveis nas refinarias. Isso porque o preço do petróleo ainda não se consolidou em um novo patamar mais próximo dos US$ 70 por barril.

Se houver apaziguamento das tensões entre Irã e EUA, é possível que os preços internacionais caiam e não seja necessário fazer um repasse para os combustíveis brasileiros. Mas, caso as tensões permaneçam ou se ampliem, o esperado é que a Petrobras aumente os preços – caso não o faça, é possível que enfrente uma reação negativa de investidores, por impedir que os fluxos do mercado sejam seguidos. Em abril de 2019, uma intervenção do governo Bolsonaro sobre o diesel para impedir o aumento no preço foi mal recebida pelo mercado, que reprovou a atuação política sobre a Petrobras.

Na segunda-feira (6), após uma reunião com o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, Bolsonaro propôs que um potencial aumento no combustível seja compensado pela redução do imposto estadual ICMS. Albuquerque também considera a criação de um fundo para amortizar a alta de preços, semelhante a iniciativas que já foram usadas no passado.

Um possivel aumento dos preços nas bombas pelo Brasil pode reverberar por toda a economia brasileira. Os combustíveis influenciam preços de serviços de transporte e frete, além de pesarem nos custos de fábricas e indústrias no geral. A depender do tamanho do aumento e da persistência da pressão sobre o preço, a elevação na gasolina ou no diesel pode se espalhar para bens de consumo, aumentando como um todo a inflação brasileira. Desde o início de 2017, a inflação está dentro da meta do Banco Central, e passou a maior parte de 2019 abaixo do centro da meta, que era de 4,25%.

O último reajuste de preços nas refinarias em 2019 ocorreu em 27 de novembro, quando a Petrobras elevou a gasolina em 4%. O preço do diesel não sofreu alterações naquele momento.

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