Como a disputa entre Irã e EUA aumenta o perigo nuclear

Americanos e iranianos rompem acordo de 2015 e medo atômico volta a rondar as tensões no Oriente Médio

    O governo do Irã anunciou no domingo (5) sua retirada do acordo nuclear firmado em 2015 e a retomada de seu programa atômico, levando as tensões no Oriente Médio a um novo patamar.

    A decisão é uma resposta ao ataque com drones americanos que matou o comandante militar iraniano Qassim Suleimani nos arredores do aeroporto de Bagdá, na sexta-feira (3).

    O documento havia sido firmado há quatro anos entre os governos de Irã, EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha, e representava uma salvaguarda contra a possibilidade de o Irã transformar seu programa nuclear pacífico num programa militar.

    O acordo é conhecido como Acordo de Viena, em referência ao local onde foi assinado, ou ainda pela sigla JCPOA (Plano de Ação Conjunta Global, em português). Alguns analistas e políticos também referem-se a ele como P5+1, em referência ao número de países envolvidos, sendo “1” a Alemanha e “5” os demais países, que coincidem com os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – todos eles potências nucleares.

    Um acordo ‘ridículo’, segundo Trump

    O acordo nuclear com o Irã vinha sendo negociado desde 2013 e foi assinado ainda durante o mandato do ex-presidente americano, Barack Obama, em 2015.

    O documento propõe essencialmente controlar a quantidade de instalações atômicas e o nível de enriquecimento de material radioativo, que é aquilo que, na prática, dá condições para transformar um programa nuclear pacífico (para geração de energia e uso medicinal) num programa nuclear militar (para confecção de ogivas capazes de serem lançadas por foguetes e mísseis).

    No ano seguinte à sua assinatura, em 2016, o acordo passou a ser duramente criticado pelo então candidato republicano Donald Trump durante a campanha presidencial nos EUA. Ele argumentava que Obama tinha sido enganado pelo Irã e que os americanos deveriam sair do acordo o quanto antes, aplicando sanções e embargos que fizessem o governo iraniano desistir de suas pretensões nucleares à força.

    Em comícios, posts e entrevistas, Trump chamava o acordo com o Irã de “terrível”, “insano” e “ridículo”. Uma vez eleito, o republicano anunciou, em maio de 2018, a retirada americana do tratado. À época, ele disse ter “provas definitivas” de que o Irã vinha violando os termos do acordo e que, portanto, não tinha sentido seguir adiante.

    As acusações americanas foram respaldadas pelo maior aliado de Trump no Oriente Médio, o premiê israelense, Binyamin “Bibi” Netanyahu.Dias antes da retirada dos EUA, ele realizou uma grande conferência de imprensa na qual mostrou fotos e gráficos que, segundo ele, provavam que o Irã não vinha respeitando os termos do acordo há muito tempo.

    Autoridades iranianas reagiram à época dizendo que a argumentação israelense não passava de peça de propaganda e de pretexto para atacar o Irã. “Há 22 anos o regime sionista mente, repetindo continuamente que o Irã terá a bomba atômica em seis meses. Netanyahu é o homem mais isolado da ONU”, disse então o chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif.

    Ao Irã, interessava seguir no acordo – a despeito da veracidade ou não das informações que o governo vinha violando seus termos nos bastidores. A adesão ao JCPOA era a garantia de que o país não sofreria mais embargos e sanções internacionais.

    No ano seguinte à assinatura do compromisso, o PIB (Produto Interno Bruto) do Irã cresceu 12%. O cenário favorável deu novo fôlego aos iranianos, que passaram a expandir suas pretensões de influência política, econômica e militar na região, confrontando interesses dos EUA e de seus aliados diretos no Oriente Médio e alimentando uma disputa cujas raízes encontram-se ainda nos anos 1950, nas tentativas iranianas de nacionalização do próprio petróleo.

    Parte dessa expansão recente da influência do Irã foi comandada por Suleimani. Ele chamava para si a responsabilidade pela arquitetura das ações iranianas na Síria, onde o Irã apoia com sucesso o governo do presidente Bashar al-Assad, e no Iraque, onde a interferência iraniana, com 125 mil milicianos no país, vinha reavivando tensões sectárias do passado, e provocando grandes protestos de rechaço à ingerência dos aiatolás.

    A ruptura do acordo nuclear e o recrudescimento das tensões no Oriente Médio não estão restritos, portanto, aos interesses em disputa apenas entre o Irã e os EUA. Eles se ramificam em outras disputas em curso na região, como na Síria, no Iraque e no Iêmen, mais diretamente, e também em relação ao sul do Líbano e Israel, de forma mais latente e hoje menos aguda. Em todos esses cenários, americanos e iranianos apoiam forças locais que lutam em lados opostos.

    A preocupação europeia com o acordo

    Quando o Irã anunciou no domingo (5) sua retirada do Tratado de Viena, o documento já estava desacreditado há pelo menos um ano. Ainda assim – a despeito do afastamento cada vez maior entre americanos e iranianos – ainda persistia de parte das potências europeias, sobretudo da França, a esperança de que as partes voltassem à mesa e de que o acordo fosse salvo na última hora.

    O gesto mais radical nesse sentido ocorreu em agosto, quando o presidente francês, Emmanuel Macron, recebeu na cidade de Biarritz o chanceler do Irã, Javad Zarif. O inesperado desembarque de Zarif ocorreu no meio da cúpula do G7, que ocorria naquele balneário francês, com a presença de Trump e dos demais chefes de Estado e de governo envolvidos no acordo. A tentativa de forçar um diálogo, no entanto, foi infrutífera.

    Cinco meses depois, quando os EUA mataram Suleimani nos arredores do aeroporto de Bagdá, os franceses mencionaram o temor nuclear logo em seu primeiro comunicado, emitido na mesma sexta-feira (3) em que a ação ocorreu. O Quai d'Orsay, sede do Ministério das Relações Exteriores da França, previa que o acordo atômico de 2015, já desgastado tantas vezes, pudesse terminar definitivamente sepultado.

    A França instou as partes a “evitar todas as medidas que possam agravar a instabilidade regional ou conduzir a uma grave crise de proliferação nuclear”, dizia o primeiro comunicado do d'Orsay.

    No dia seguinte a esse comunicado, Macron, juntamente com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, publicaram uma nota conjunta, na qual diziam: “nós chamamos particularmente o Irã a abster-se de todos os atos de violência ou de proliferação e exortamos a que retorne ao pleno cumprimento de seus compromissos no âmbito do JCPOA”.

    Como a realidade demonstrou, os europeus ficaram falando sozinhos num grupo em que americanos e iranianos entraram em confronto direto, e chineses e russos mantiveram-se um passo atrás na retórica, embora sempre acenando com a possibilidade de veto a qualquer medida de força que fosse proposta pelos EUA ao Conselho de Segurança.

    O termômetro do ‘fim do mundo’

    O risco de uma guerra nuclear é medido por vários analistas do mundo, mas um grupo em particular dedica-se a mensurar numericamente esse risco. O Boletim dos Cientistas Atômicos usa, desde a Guerra Fria (1945-1991) um relógio para medir o risco de um apocalipse atômico.

    Quanto mais perto da meia-noite, maior o risco de uma guerra nuclear. O relógio marcava 3 minutos para a meia-noite em 2016, passou a marcar 2 minutos e meio em 2017 e, desde 2018, marca 2 minutos para a meia-noite. O avanço do “tic-tac” acompanha a degradação das negociações em torno dos acordos de contenção nuclear no mundo.

    O Boletim dos Cientistas Atômicos ainda não se pronunciou sobre os últimos acontecimentos de 2020. Porém, a tensão nuclear com o Irã já era mencionada no boletim de 2019. Ao abandonar o JPCOA, em maio de 2018, “a administração Trump lançou o maior ataque a um dos mais bem sucedidos acordos de não-proliferação nuclear dos últimos anos, o que aumenta o risco de conflito com o Irã e de outras tensões com aliados de longo prazo”, já adiantava o texto.

    Os EUA não romperam apenas o acordo com o Irã. Em fevereiro de 2019, Trump também anulou a participação americana num acordo firmado com a então URSS durante a Guerra Fria, em 1987, que limitava os arsenais de mísseis nucleares de médio alcance. Assim como no caso iraniano, o argumento é de que os russos vinham descumprindo o acordo.

    A ruptura de acordos também não está restrita à área militar. Desde que chegou ao poder, Trump também retirou os EUA do Acordo de Paris, que tenta mitigar as mudanças climáticas no mundo, e de acordos comerciais firmados com países parceiros.

    Uma porta aberta ao diálogo

    O assassinato de Suleimani – considerado uma violação do direito internacional cometida pelos EUA – deu vantagem moral a um Irã que vinha obtendo vitórias militares, mas perdia o terreno da opinião pública. Antagonizar com Trump traz riscos reais, mas vantagens diplomáticas, que o Irã tenta explorar ao máximo.

    A jogada mais nítida é a que envolve o Iraque. O país vizinho vinha sendo tomado por grandes protestos de rua de cidadãos insatisfeitos com a crescente interferência iraniana. Após o ataque americano, ocorrido na capital do Iraque, Bagdá, o discurso predominante mudou e o Parlamento local aprovou no domingo (5) uma ordem de retirada de todas as forças estrangeiras do país – o que se aplica a americanos, franceses e britânicos que têm bases no Iraque a pretexto de combater o Estado Islâmico. A vantagem iraniana no Iraque tornou-se agora ainda mais nítida.

    Em relação à Europa, os iranianos tentam mandar sinais de que permanecem abertos ao diálogo e de que estão interessados em respeitar os acordos de não-proliferação nuclear. Por isso, o chanceler do Irã disse que seu país pode voltar ao Acordo de Viena, desde que os EUA cumpram sua parte e as sanções e embargos sejam levantados.

    Além disso, o Irã diz que permanece aberto às inspeções de praxe da Agência Internacional de Energia Atômica, o que seria, em si, uma garantia de que não pretende desenvolver uma bomba. O gesto, no entanto, é insuficiente, posto que a suspeita não recai sobre os programas oficiais do Irã, mas sobre o potencial de desenvolver secretamente essa tecnologia, - que, no fundo, foi a forma como o clube dos países atômicos se expandiu durante o século 20.

    O maior exemplo talvez seja o de Israel – rival regional do Irã e dos países árabes, que, a despeito do discurso lacônico sobre o próprio projeto nuclear, não sofre a mesma pressão de europeus e americanos.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

    ESTAVA ERRADO: A versão anterior deste texto afirmava, em uma passagem, que o general Qassim Suleimani morreu no domingo (5). Na verdade, ele morreu na sexta-feira (3). O texto também indicava o Palácio do Eliseu como sede do Ministério das Relações Exteriores da França, quando, na verdade, é o Quai d'Orsay. A primeira informação foi corrigida às 15h40 de 6 de janeiro de 2020. A segunda, às 11h58 de 9 de janeiro de 2020.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: