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Por que a Austrália enfrenta uma escalada de incêndios

Fogo em proporções inéditas matou ao menos 25 pessoas e quase meio bilhão de animais desde setembro de 2019. O céu ficou vermelho na virada do ano, e 100 mil foram desalojados no sul do país para fugir do calor

Milhares de australianos e turistas que visitam o país estão sendo forçados a abandonar suas residências e fugir em direção às praias desde o Ano Novo para escapar de uma onda de incêndios florestais que atinge algumas das regiões mais povoadas da Austrália.

Iniciada em setembro de 2019, a temporada tradicional de incêndios no país alastrou-se em cinco dos oito estados australianos e, entre o fim do ano e o início de 2020, viu dezenas de focos ficarem fora de controle nas cidades e no campo. Até segunda-feira (6), 25 pessoas haviam morrido. Desde setembro, cerca de 100 mil foram desalojadas.

As regiões de Victoria e Nova Gales do Sul, no sudeste do país, estão entre as mais atingidas. Mais de 50 mil pessoas ficaram sem energia, algumas não têm acesso à água potável e artigos básicos como pão e leite têm sido disputados nos mercados. O governo de Nova Gales do Sul, onde fica Sydney, a maior cidade do país, declarou emergência na sexta (3), permitindo que autoridades removam moradores à força.

A área atingida até segunda-feira (6) era de 80.000 km², extensão equivalente a quase duas vezes o estado do Rio de Janeiro. A crise de incêndios na Amazônia em 2019, para efeitos de comparação, devastou cerca de 9.000 km². Imagens das cidades de Sydney, Melbourne e Mallacoota mostraram o céu vermelho vivo por causa do fogo, e na Nova Zelândia geleiras adquiriram tons de marrom após o contato com a fumaça e as cinzas. Na terça-feira (7), imagens de satélite indicaram que uma nuvem de fumaça chegou até o estado brasileiro do Rio Grande do Sul.

“Nunca vi na vida algo assim. Era uma nuvem imensa e terrível de fumaça branca elevando-se do chão. [...] Era como se o país estivesse sendo devorado por uma reação química”

Anna Funder

escritora australiana, sobre o cenário após a escalada de incêndios, em entrevista de dezembro de 2019 para o jornal The New York Times

Até meio bilhão de animais podem ter morrido na Austrália por causa do fogo, estimam cientistas. Entre eles estão cerca de 8.000 coalas, quantidade que equivale a um terço dos animais que vivem em um dos habitats para coalas mais populosos da Austrália, ao norte de Sydney.

É comum que na Austrália haja incêndios e que as temperaturas sejam maiores no verão, mas o aumento do calor atribuído à crise do clima tornou a temporada de fogo mais severa do que costumava ser, avaliam especialistas. O ano de 2019 foi o mais quente no país desde o início dos registros, no início do século 20. Outros eventos climáticos no último ano acirraram a seca e levaram ventos que alastraram o fogo.

A crise na Austrália é diferente da onda de queimadas que atingiu a Amazônia brasileira em agosto de 2019. Aqui, o fogo foi atribuído à ação de pessoas, que queimaram a floresta para desmatamento e abertura de pastos. Lá, os incêndios são fenômenos naturais, e até agora não há registros de que tenham sido causados pela ação humana.

Como o clima explica os incêndios

A Austrália é um país de dimensões continentais que fica pouco abaixo da linha do Equador, na região da Oceania, e tem clima variado ao longo do território e durante o ano. A região norte é tropical, o sul é mais temperado e, entre eles, há um deserto. A área do país ainda sofre influência de dois oceanos, o Índico (à esquerda) e o Pacífico (à direita).

Por receber diferentes influências, o tempo na Austrália pode mudar muito de um ano para o outro, e isso favorece o surgimento de eventos extremos, como secas, ondas de calor, inundações e até incêndios, que são parte natural dos ecossistemas no país. A presença de extremos climáticos sempre influenciou as decisões de governos locais.

O que afeta o clima na Austrália

O dipolo do Oceano Índico

O chamado Dipolo do Oceano Índico mede a diferença de temperatura entre as metades leste e oeste do oceano. Esse valor, quando é positivo, indica que haverá menos chuvas nas porções central e sul da Austrália. Quando é negativo, indica que haverá mais chuvas no país.

O Modo Anular Sul

O chamado Modo Anular Sul descreve o movimento norte-sul de um cinturão de vento que circunda a Antártida. Em sua fase negativa, a pressão atmosférica é maior no sul da Austrália, o que indica que haverá tempo mais seco. Na fase positiva, há aumento de chuvas.

A situação agora se agravou porque a Austrália passa pela fase positiva do dipolo do Índico e a fase negativa do Modo Anular Sul, segundo cientistas. Ambos favorecem o aumento da seca. Além disso, os ventos da Antártida interagiram com uma grande onda de calor no último ano, levando grandes quantidades de ar seco e quente para o sul do país.

Ao mesmo tempo, as monções chegaram mais tarde que o previsto na Austrália em 2019, possibilitando que mais calor se acumulasse na parte central do país nos últimos meses. Isso tudo, somado a fatores de longo prazo, como o aumento generalizado das temperaturas e das secas, tornou a vegetação local muito mais vulnerável à inflamação.

Quais os sinais da crise climática

Ao menos duas situações inéditas mostram os efeitos da crise do clima na Austrália. A primeira foi a dupla quebra de recordes de temperaturas diárias no país — no dia 17 de dezembro, foram registrados 40,8ºC e, no dia 18, 41,8ºC. A segunda é a sequência de três invernos com baixo índice de chuvas, apontando para um estado de aridez prolongada.

1,5ºC

foi quanto as temperaturas na Austrália aumentaram em 2019 em relação à média histórica, segundo o departamento de meteorologia do país

Antes da temporada de incêndios, cientistas já previam que este verão na Austrália seria excepcionalmente quente. A previsão é que o impacto do dipolo Índico e dos ventos da Antártida dure por mais alguns meses, disseram especialistas ao site Vox e ao jornal The Guardian. O aumento geral das temperaturas, contudo, é uma situação permanente.

A crise do clima

Causas

A mudança climática começa com atividades como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e o desmatamento, que emitem grande quantidade de gases que acarretam no efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Entre as emissões de gases, destacam-se as de metano, óxido nitroso e gás carbônico (CO₂), que representa mais de 70% dos lançamentos. São poluidores os setores de energia, transportes e alimentos, entre outros.

Efeitos

A emissão de gases poluentes formadores do efeito estufa pelas atividades humanas, intensificadas após a era industrial, tem causado o fenômeno que se chama de aquecimento global. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento das temperaturas do ar e da água, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível de mares e oceanos. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição.

1ºC

foi quanto a temperatura média do planeta aumentou em relação ao período pré-industrial, antes do século 19

Previsões

Em 2018, um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU disse que a temperatura mundial pode aumentar 0,5ºC em uma década se as emissões de CO₂ não tiverem cortes imediatos. Outras projeções do clima mostram que o aquecimento pode chegar até 6ºC até 2100 se o ritmo da economia continuar o mesmo. As consequências da crise do clima devem se sentir nas próximas décadas, e, se o aumento das temperaturas se concretizar, o quadro de grandes tempestades, incêndios florestais, escassez de alimentos, inundações e secas severas deve piorar.

Como a crise atinge o governo australiano

O primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, afirmou na quinta-feira (2), na primeira entrevista coletiva desde o Ano Novo, que as autoridades do país têm feito “absolutamente todos os esforços” para ajudar as pessoas. Ele pediu que a população tenha paciência na crise e “confie em todos aqueles que lutam contra os incêndios”.

A crise de incêndios atingiu o governo de Morrison, que enfrenta protestos por não investir em políticas climáticas e apoiar a indústria do carvão, uma das principais da Austrália e uma das mais poluentes para o clima. Antes, no início da temporada de incêndios, em 2019, o primeiro-ministro havia negado mudar qualquer política no país.

Agora, Morrison diz reconhecer a ligação entre a proteção das florestas contra incêndios e a ação contra o aquecimento global. Apesar disso, ainda defende ações de seu mandato na área ambiental, dizendo que a Austrália faz mais que outros países desenvolvidos e que o governo deve apoiar as indústrias tradicionais para preservar a economia.

“Vou ser claro ao povo australiano: nossas políticas de reduções de emissões vão proteger o meio ambiente e buscar reduzir os perigos que estamos vendo hoje. Ao mesmo tempo, vão procurar garantir a viabilidade dos empregos e meios de subsistência das pessoas”

Scott Morrison

primeiro-ministro da Austrália, em entrevista coletiva na quinta-feira (2)

Morrison visitou a cidade de Cobargo, uma das atingidas pelo fogo em Nova Gales do Sul, e foi hostilizado pela população na quinta-feira (2). “E as pessoas que estão mortas agora?”, provocou uma mulher quando viu o primeiro-ministro. A ativista sueca Greta Thunberg também criticou a situação na Austrália pelo Twitter, perguntando como é possível que desastres como o dos incêndios ainda não despertem ação política.

A crise climática foi a principal pauta da eleição na Austrália em 2018. Ela levou à vitória do Partido Liberal, liderado por Scott Morrison, que é classificado como conservador. Os liberais estão no poder desde 2013.

Como resposta à crise dos incêndios, o governo tem enviado bombeiros e o Exército para resgatar feridos e levar suprimentos como água e diesel para aqueles que atuam nas regiões afetadas. As autoridades também estão com poder de remover as pessoas à força de suas casas e assumir o controle dos serviços locais, dada a intensidade do fogo.

ESTAVA ERRADO: A versão anterior deste texto dizia que a capital da Austrália era Sidney. Na verdade, é Camberra. A informação foi corrigida às 14h35 de 4 de janeiro de 2020.

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