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O ataque dos EUA contra o general do Irã. E a crise no Oriente Médio

Operação no aeroporto de Bagdá, no Iraque, matou Qassem Suleimani, uma das principais figuras da geopolítica iraniana

    Na madrugada desta sexta-feira (3), os EUA bombardearam o aeroporto de Bagdá, capital do Iraque.

    O ataque aéreo, feito por drones, foi autorizado pelo presidente americano, Donald Trump, e tinha como alvo o general iraniano Qassem Suleimani, principal comandante dos Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã. O militar, que morreu imediatamente, estava saindo do aeroporto de Bagdá em um comboio quando os mísseis foram disparados.

    A decisão de Trump é o ápice de uma série de conflitos entre o Irã e os EUA entre os últimos dias de 2019 e os primeiros de 2020. Na manhã de sexta, a embaixada dos EUA no Iraque emitiu um comunicado oficial pedindo para que todos os cidadãos americanos saiam da região o quanto antes, usando qualquer forma de transporte disponível.

    Em comunicado oficial, o Departamento de Defesa dos EUA afirmou que a decisão foi motivada por um suposto plano de Suleimani para atacar diplomatas americanos no Iraque. Não foram divulgados mais detalhes.

    O aiatolá Ali Khamenei, líder político e religioso do Irã, emitiu uma nota oficial convocando três dias de luto no país pela morte de Suleimani. No texto, Khamenei afirma que “uma vingança poderosa cairá sobre os criminosos que têm o sangue dele [Suleimani] e de outros mártires nas mãos”.

    No Twitter, Trump afirmou que “o Irã nunca ganhou uma guerra, mas nunca perdeu uma negociação”.

    Quem era Qassem Suleimani

    Qassem Suleimani, 62, era o principal estrategista militar do Irã e uma figura central na geopolítica do país. O comandante era cotado a se candidatar à presidência do Irã nas eleições de 2021, último ano do segundo mandato do atual presidente, Hassan Rohani.

    Suleimani começou sua carreira militar em 1980, liderando uma pequena força paramilitar nos meses iniciais da guerra entre Irã e Iraque. Sua reputação dentro dos círculos militares do Irã cresceu exponencialmente no começo do conflito e, já em 1982, Suleimani foi nomeado comandante da 41ª Divisão do exército iraniano, quando tinha apenas 25 anos de idade.

    Em 1990, Suleimani passou a integrar a Guarda Revolucionária do Irã, considerada o braço de elite das Forças Armadas do país e criada em 1979 com o objetivo de proteger o então recém-instituído regime do aiatolá Khomeini. Em 1998, o militar passou a liderar os Quds, uma das ramificações da Guarda Revolucionária, responsável por realizar as operações internacionais iranianas.

    Desde 2012, Suleimani foi um importante aliado do presidente sírio Bashar al-Assad, na guerra civil que perdura no país há nove anos e que já deixou mais de 500 mil mortos. O general era o principal estrategista militar iraniano na Síria.

    Em 2015, Suleimani liderou seu país na Guerra Civil do Iraque, auxiliando em operações que tinham como objetivo enfraquecer o Estado Islâmico, organização terrorista que reivindicava a criação de um califado muçulmano na região liderado por um grupo de autoridades religiosas.

    “Eu, Qassem Suleimani, controlo toda a política do Irã a respeito do Iraque, Líbano, Gaza e Afeganistão”

    Qassem Suleimani

    general da Guarda Revolucionária do Irã, em mensagem obtida pelo jornal The Guardian em 2011

    Em 2011, o governo dos EUA classificou Suleimani como um terrorista internacional, acusando o militar de participar de um plano para tentar assassinar Adel Al-Jubeir, à época embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita.

    Após a morte do general, o analista político Yashar Ali, da revista New York, afirmou no Twitter que a decisão dos EUA de matar Suleimani equivale a um atentado iraniano contra o vice-presidente americano. “Suleimani era mais poderoso que o presidente do Irã”, afirmou. O militar respondia diretamente a Khamenei, o líder supremo do país.

    Os conflitos recentes

    O ataque a Suleimani é mais um capítulo de uma série de conflitos recentes entre Irã e EUA, que começaram na última semana de 2019.

    27 de dezembro: a morte de um civil americano

    No dia 27 de dezembro de 2019, um civil americano que tinha sido contratado para prestar serviços em uma base militar iraquiana foi morto em um ataque a míssil.

    Além de matar o civil, o ataque feriu diversos militares americanos que estavam presentes no local. Identidades e números oficiais não foram divulgados publicamente. Na ocasião, não se tinha pista de quem teria sido responsável pelo disparo dos mísseis.

    29 de dezembro: a primeira retaliação dos EUA

    Em 29 de dezembro, os EUA conduziram cinco ataques aéreos no Iraque e na Síria, tendo como alvo bases do Kataeb Hezbollah, uma organização paramilitar iraquiana que é apoiada pelo governo iraniano.

    Os ataques, que deixaram 25 mortos e dezenas de feridos, foram uma resposta à morte do civil que estava na base iraquiana dias antes.

    30 de dezembro: a ameaça do Hezbollah

    Após os cinco ataques, o Kataeb Hezbollah fez um pronunciamento oficial afirmando que não tinha participado do ataque que matou o cidadão americano no dia 27.

    Porém, no mesmo comunicado, o Hezbollah considerou os ataques americanos um massacre. A organização paramilitar ordenou que as tropas americanas deixassem a região imediatamente e fez uma ameaça de retaliação.

    31 de dezembro: a invasão à embaixada

    No dia 31 de dezembro, milhares de manifestantes pró-Kataeb Hezbollah se reuniram na embaixada dos EUA no Iraque, invadindo o prédio e ateando fogo no saguão de entrada. Gritos de “morte à América” foram registrados.

    Pelo menos 1.000 manifestantes permaneceram no local durante a noite, em um cerco que durou até a manhã de quarta-feira (1º). No Twitter, o presidente americano Donald Trump disse que o Irã ia pagar “um grande preço” pela invasão à embaixada.

    3 de janeiro: o ataque

    Em 3 de janeiro de 2020, os Estados Unidos conduziram o ataque no aeroporto de Bagdá.

    Além de Suleimani, o ataque matou Abu Mahdi Al-Mohandis, um dos comandantes do Kataeb Hezbollah, e seis outros que também estavam presentes no comboio.

    As reações ao ataque

    O ataque dos EUA a Suleimani reuniu reações oficiais de autoridades do mundo todo.

    O presidente Jair Bolsonaro se manifestou na saída do Palácio do Alvorada, limitando-se a dizer que o ataque vai afetar o preço do combustível no Brasil. “Que vai afetar, vai”, afirmou.

    Horas após o ataque, o preço do barril de petróleo subiu 4%, chegando a US$ 70 o barril. A região é a principal produtora mundial do combustível.

    Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, foi favorável ao ataque. Em coletiva de imprensa, Netanyahu afirmou que Trump merece todo o crédito por ter agido de maneira rápida e incisiva. “Suleimani foi responsável pela morte de cidadãos americanos e de muitas outras pessoas inocentes”, disse.

    Uma nota oficial emitida pelo governo russo, aliado do Irã na Guerra da Síria, categorizou o ataque como “um passo aventuresco” que aumentaria ainda mais as já grandes tensões que marcam a região. O comunicado ofereceu condolências ao povo iraniano pela morte do militar.

    Amélie de Montchalin, ministra francesa de Relações Exteriores, disse à rádio RTL que a França vai trabalhar para auxiliar a estabilização das tensões presentes na região. “Nosso papel não é escolher um lado, mas conversar com todos”, disse.

    Dominic Raab, secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, afirmou que o país sempre reconheceu a ameaça representada por Suleimani e pelos Quds, mas que o momento pede um recuo de todas as partes envolvidas para a estabilidade da região e a diminuição das tensões.

    Em entrevista a jornalistas, Geng Shuang, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, pediu que as partes envolvidas, especialmente os EUA, se mantenham calmas. Shuang afirmou que a China sempre se posiciona contra o uso de força na resolução de questões internacionais.

    No Irã, milhares de pessoas marcharam nas ruas de Kerman, cidade-natal de Suleimani, em solidariedade à morte do militar, e se posicionaram contra a atitude dos Estados Unidos. A cidade de Teerã também recebeu manifestações após o ataque.

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