3 análises sobre os riscos de uma guerra entre EUA e Irã

Professores de relações internacionais comentam ao ‘Nexo’ as implicações do ataque americano que resultou na morte do principal líder militar iraniano

    Uma ação militar autorizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resultou na morte do general Qassim Suleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Ele foi morto na madrugada de sexta-feira (3) após um míssil americano ter sido disparado de um drone contra o Aeroporto Internacional de Bagdá, no Iraque.

    Suleimani, que comandava a unidade de elite do Exército desde 1998, era um símbolo de poder e prestígio em seu país. Seu grupo, que possui de 10 mil a 20 mil homens, é responsável por fornecer treinamento, armas e apoio operacional a organizações pró-Irã no exterior, como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina.

    Após a confirmação da morte de Suleimani, o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, anunciou três dias de luto e pediu “severa vingança”. O Irã é uma república teocrática islâmica, sendo o aiatolá a maior autoridade do país, escolhida por uma assembleia para um cargo vitalício. Ali Khamenei está no poder desde 1989.

    O presidente do país persa, Hassan Rohani, também falou em vingança ao condenar o ataque, que classificou de “crime horrível” causado pelos EUA. O poder Executivo no Irã é exercido por um presidente eleito pela população para um mandato de quatro anos. Seu nome precisa ser chancelado pelo aiatolá, que tem o poder de demiti-lo.

    Os EUA justificaram a ação dizendo que Suleimani estava “ativamente desenvolvendo planos para atacar diplomatas e outros funcionários americanos no Iraque e na região”, segundo um comunicado do Departamento de Defesa.

    Em sua conta no Twitter, Trump afirmou que o Irã “nunca venceu uma guerra, mas nunca perdeu uma negociação”. Suleimani, escreveu, “deveria ter sido morto muitos anos atrás”. Ele acusou o militar iraniano de já ter matado muitos americanos e que “estava planejando matar muito mais”. “Mas foi pego!”, escreveu o presidente americano.

    Mais tarde, em pronunciamento para a imprensa, Trump afirmou que agiu para “parar uma guerra” e não iniciar uma. Mesmo assim, o país começou a mobilizar mais tropas para o Oriente Médio e pediu para que cidadãos americanos deixem a região.

    No bombardeio de sexta-feira (3) no aeroporto de Bagdá, morreram ao menos nove pessoas, entre os quais Abu Mahdi al-Muhandis, líder de uma milícia sustentada por Teerã e criada para combater o Estado Islâmico.

    Nas ruas da capital iraniana, Teerã, dezenas de milhares de pessoas foram protestar contra a eliminação do general. Os manifestantes pediam “morte à América” e queimaram bandeiras dos EUA.

    O aumento das tensões na região deixou a comunidade internacional em alerta. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o mundo “não pode permitir outra guerra no Golfo”, em relação ao conflito ocorrido entre 1990 e 1991 entre Iraque e forças lideradas pelos EUA. O presidente da França, Emmanuel Macron, disse que o Irã precisa evitar provocações.

    No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro disse em entrevista à TV Band que o país “não tem forças armadas nucleares para poder dar opinião tranquilamente sem sofrer retaliações”. Afirmou querer a paz e que um eventual conflito entre EUA e Irã poderia representar “o fim da humanidade”. “Ninguém ganharia com isso, seria uma relação de perde-perde”, disse.

    As análises sobre a possibilidade de conflito

    Nas redes sociais, o conflito gerou teorias sobre uma possível 3ª Guerra Mundial. Para entender as implicações do episódio envolvendo os Estados Unidos e o Irã, o Nexo ouviu três especialistas em relações internacionais. São eles:

    • Gunther Rudzit, doutor em ciência política pela USP e professor de relações internacionais da ESPM de São Paulo.
    • Leonardo Ramos, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais.
    • Cristina Pecequilo, doutora em ciência política pela USP e professora de relações internacionais da Unifesp.

    Existe um risco real de guerra entre os dois países?

    Gunther Rudzit Não. É lógico que o risco de um conflito entre os dois aumentou, porque, numa situação de tensão como essa, um mau entendimento de uma ação pode gerar uma reação que leva à morte pessoas, como foi o caso de 1988. Naquele ano, uma fragata norte-americana estava no Golfo Pérsico quando um avião civil, um Airbus iraniano, decolou. O computador fez uma leitura errada, achou que era um alvo em potencial. E a tensão estava alta, mas não como hoje, e esse é o problema. Dispararam um míssil que derrubou o avião [com 290 pessoas a bordo]. Uma situação como essa pode levar a um desentendimento, mas não há um interesse político nos Estados Unidos, no Irã e em nenhum outro país. Eu descarto quase que 100%, eu diria 99%, uma guerra entre os dois países.

    Leonardo Ramos Acho pouco provável pela diferença de escala de capacidade militar dos dois países. Só se fosse em função de algum desdobramento disso, se o Irã tomasse algum tipo de atitude um pouco mais assertiva em relação a alguma base próxima ou contra algum aliado. E aí os Estados Unidos declarassem guerra ao Irã. Mas, mesmo assim, acho muito pouco provável. A vingança que o Irã prometeu pode ser promover a instabilidade de aliados dos Estados Unidos na região, por exemplo. Ou tentar articular coisas dessa natureza. Por aí pode acontecer algum tipo de resposta. Porque, no final das contas, a impressão que dá mesmo, e num curto e médio prazo ia acabar acontecendo de uma vez, é a perda de influência dos Estados Unidos na região e a impossibilidade de mudança no Irã. Agora, com esse ataque, tem uma unidade iraniana maior. Mesmo a oposição prefere ficar mais próxima do governo do que apoiando os Estados Unidos nesse caso.

    Cristina Pecequilo Eu acho que vai continuar nesse ritmo de trocas de acusações e também algumas represálias mútuas. Mas, no nível que as pessoas estão falando, de chamar de Terceira Guerra Mundial, aí é uma bobagem. O que Trump fez foi uma demonstração de força num ano eleitoral. Ele estava esperando justamente essa reação. Fazer uma operação militar em ano eleitoral é muito improvável. A opinião pública não vai aprovar esse tipo de operação em solo, mas os bombardeios aéreos são interessantes para ele.

    Como fica o posicionamento de outros países, como Rússia e China?

    Gunther Rudzit Eles se posicionaram condenando o ataque. Era mais do que esperado, primeiro porque são dois países praticamente aliados do Irã. E, segundo, até onde eu me lembre, nenhum governo no mundo anunciou que matou um funcionário de outro governo. O presidente americano declarou isso, e depois os representantes dele tiveram que vir a público confirmar. Passou a linha vermelha que governos não fazem, muito menos declaram que fizeram.

    Leonardo Ramos A gente tem que ver como o próprio governo americano vai se portar nesse jogo. E esperar para ver o comportamento do Conselho de Segurança da ONU. O ponto fundamental é como fica a Rússia. A China, menos. A França já se pronunciou de forma meio neutra, mas deixando claro que não está de acordo com o processo. A questão é como a Rússia vai se utilizar dessa questão.

    Cristina Pecequilo Eles se posicionaram contra o ataque. Na verdade, é mais uma demonstração de unilateralismo dos Estados Unidos com uma conjuntura na região. Junta-se a eleição do Trump, a questão de Israel [o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, é acusado de corrupção, e deve concorrer nas eleições de março]. São governos extremamente fracos que tentam se manter no poder fazendo esse tipo de espetáculo. Porque é um espetáculo, na verdade.

    Os Estados Unidos violaram regras internacionais com a ação?

    Gunther Rudzit Sim. Primeiro, é um assassinato sem julgamento. Não é a toa que sempre prenderam terroristas e levaram para julgamento. É um crime. Por mais que os americanos não façam parte, tem o Tribunal Penal Internacional. Ele cruzou uma linha vermelha que agora o Irã se vê de mãos livres também para cruzar. Esse é o grande problema. O que se pode esperar, inclusive, é que qualquer alta autoridade americana, principalmente no Oriente Médio, mas também os que viajam para qualquer lugar do mundo, enfrente um seríssimo risco de sofrer um atentado.

    A grande dúvida que se tem: vai ser uma única resposta ou de agora em diante o Irã vai fazer uma série de atentados contra interesses americanos? Não se sabe, porque agora, realmente, o Irã se sente desobrigado a seguir certas práticas que são aceitas de não matar pessoas de alto nível do outro governo, e principalmente anunciar isso. Ninguém se auto-culpa por isso. É por esses motivos que ninguém entendeu direito até agora por que o ataque ocorreu. Seria a primeira vez que planejavam um atentado contra americanos? Se tinha todo esse plano de atentados, tinham que mostrar, vir a público, condenar, mas não matar. Não faz sentido. Vários políticos nos Estados Unidos estão condenando. Até onde vi, nenhum republicano saiu em defesa do Trump. Nenhum político americano de alto nível saiu em defesa dele.

    Leonardo Ramos Sim, se se tornar público e notório e ficar claro que houve uma autorização sem uma ameaça clara. A gente pode pensar nessa perspectiva de que ele [Trump] declarou guerra no final das contas, sem passar pelo Congresso. O ataque a um líder de um outro Estado sem autorização do Congresso. Isso é um problema de direito doméstico, interno dos Estados Unidos, sobre as atribuições do Executivo. Segunda coisa, em relação ao direito internacional, há uma violação clara. É um ataque a uma autoridade de um outro Estado [Irã] num terceiro Estado [Iraque]. Sem nenhuma ameaça clara. O problema todo é pensar que estamos falando da principal potência. Isso tudo é fato. Mas, no final das contas, acho que não vai gerar nada nesse sentido.

    Cristina Pecequilo Viola, porque na verdade o Iraque é tecnicamente um país soberano hoje. Quando ele faz essa operação militar no Iraque ele está fazendo uma ingerência, uma violação de soberania. A operação não é exatamente chamar para a guerra, ele alegou que foi um ataque preventivo. E dentro da lógica das novas leis americanas que foram feitas desde 2001, isso estaria previsto. É uma ação preventiva. Dentro da doutrina Trump também tem a ideia da imposição da paz pela força, que é algo impossível. Se for uma guerra, ele teoricamente deveria pedir autorização para o Congresso, mas a Constituição americana, dependendo do caso, também o desobriga disso. Para aquele público interno e mesmo externo que ele busca agradar, faz sentido dizer que ele preveniu um plano de ataque a americanos. Agora, para quem trabalha na área e para pessoas que valorizam mais o multilateralismo, é apenas uma justificativa para fazer uma operação de guerra numa época na qual ele está enfraquecido. Essa é um pouco a lógica deles. Quando o presidente está em dificuldade, tem que criar fatos novos. O que ele fez foi criar um fato novo.

    Trump está no meio de um processo de impeachment e às vésperas das eleições. A ação foi pensada nesse contexto?

    Gunther Rudzit Acho que ele pensou no curto prazo nisso. É a única explicação que no momento faz sentido. Não tanto pelo processo de impeachment, que todo mundo sabe que não vai passar no Senado. Assim como todo mundo sabia em Washington que o impeachment do Bill Clinton [acusado de falso testemunho e obstrução de Justiça no caso Monica Lewinsky] não passaria no Senado [em 1999], na época controlado pelos democratas. Não faz sentido pensar no processo de impeachment, mas numa corrida eleitoral até pode ser, porque a embaixada americana quase que foi invadida [em 31 de dezembro de 2019 e 1º de janeiro de 2020, a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, no Iraque, foi atacada e depredada por manifestantes], e isso para o americano médio tem uma imagem muito negativa, por causa, justamente, da invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979, que praticamente custou a reeleição do Jimmy Carter [entre 1979 e 1981, 52 americanos foram mantidos reféns por 444 dias na embaixada americana em Teerã]. Isso teve um peso muito grande para os americanos não reelegerem o Carter. Pode ser que tenha isso. Mas é uma visão muito no curto prazo dele, porque isso abre incertezas estratégicas para os Estados Unidos na região e no mundo.

    Trump não tem nenhum grande feito em termos de política externa para divulgar durante a campanha. O acordo nuclear com o Irã não saiu, ele não conseguiu barrar o Irã na região, não mudou a atitude chinesa no comércio internacional, retirou os Estados Unidos do acordo climático de Paris e o país ficou isolado, foi o único a se retirar. Então, o que vai ter em termos de política externa para mostrar na campanha? Só se foi esse cálculo, mas, de novo, de curto prazo. Tudo bem que o eleitor americano que vota nele talvez não faça esse raciocínio, mas acho que foi uma aposta muito apertada, porque se muitos americanos morrerem por isso, pode ser que o tiro saia pela culatra.

    Leonardo Ramos Acho que tem muito interesse envolvido. Por exemplo, o John Bolton [ex-conselheiro nacional de segurança demitido por Trump em setembro de 2019], que já saiu da Casa Branca, era um entusiasta de uma guerra contra o Irã. Ele ficou muito tempo tentando forçar isso, e o próprio Trump era contra, mas tem muita gente que está no governo que sempre foi favorável a isso. Outra coisa é que a gente não pode ignorar a questão da reeleição que está se aproximando. E nem o que aconteceu na época do Clinton, um ataque numa época de discussão do impeachment [os Estados Unidos bombardearam o Iraque em dezembro de 1998, em meio ao processo contra o presidente]. Acho que tudo é pesado pelo governo. Só não colocaria todas as fichas nisso. Mas são coisas fundamentais para a gente pensar dentro da lógica dos Estados Unidos, de que toda política é uma política local, de que tenho que ganhar aqui dentro e tem algo lá fora para tirar a atenção.

    Ao mesmo tempo, isso diminui a influência dos Estados Unidos na região, mas era uma influência que eles já vinham perdendo. No curto prazo, nessa conjuntura, fortalece internamente, com os republicanos, tendo em vista a votação do impeachment no Senado, nas primárias e entre aqueles atores e eleitores que, particularmente, o apoiam, que são favoráveis a um comportamento mais belicista. O cálculo da política doméstica é mais levado em consideração do que o internacional. É um processo que já vem desde George Bush, um desgaste da liderança americana no âmbito internacional, que o Obama tentou retomar um pouco, mas que o Trump passou o rodo, pensando em impor os interesses americanos, mas deixando de lado a capacidade de liderança, de criar consensos e hegemonia.

    Cristina Pecequilo Com certeza, e para demonstrar força para a base eleitoral dele, que é uma base eleitoral belicista, ligada aos partidos religiosos. É uma maneira de demonstrar que tem força. Ele tinha feito tuítes no passado [em 2012 e 2013] acusando o Obama de querer fazer uma guerra com o Irã para se reeleger. É o mesmo esquema.

    Como o Brasil deveria se posicionar em relação a isso?

    Gunther Rudzit Condenar a ação dos Estados Unidos, somente como nos governos do PT, acho que não, porque uma quase invasão de embaixada é um tema sério. Tradicionalmente, no máximo, faria uma condenação das duas partes chamando à mesa de negociação. O famoso em cima do muro, até porque não é do nosso interesse nos envolvermos nisso. O máximo seria, agora, não falar nada. O Bolsonaro disse que estava preocupado com o preço do barril do petróleo. Acho que, no máximo, fará isso. Realmente, o Brasil tem que passar longe. Não se pode esquecer que o presidente tem uma fragata navegando ali nas águas internacionais do litoral do Líbano, numa missão de paz da ONU, que pode ser um alvo direto.

    Leonardo Ramos Se a gente olhar as últimas coisas que aconteceram no Brasil, já fica muito claro para que lado vai. Ele vai ficar do lado dos Estados Unidos. A questão é se vai ter uma declaração com uma postura mais assertiva ou não. A segunda coisa tem a ver com a primeira questão, se esse conflito se intensifica, se tem tropas cercando o Irã, algum tipo de sanção, e a partir disso gerar um desdobramento, uma coalizão, aí o Brasil vai para o lado dessa coalizão. Acho que não deve acontecer, até pelo histórico do Irã, de uma política bem pragmática. Se o Brasil se coloca dessa forma, não vai ter impacto nenhum no processo em si. A importância do Brasil nesse jogo político é zero, ainda mais nesse contexto em que o país tem se apequenado em termos de política externa. Por outro lado, é ruim em função da resposta pragmática que Estados do Oriente Médio podem dar, que é usar desse argumento para diminuir as importações de produtos brasileiros. Pode ter um impacto econômico para o Brasil nessa perspectiva. De resto, a gente só vai entrar fazendo coro. E pode ter um desdobramento doméstico para certos setores mais radicais da direita que podem gostar disso, e isso pode fomentar atos isolados. Mas também duvido que isso possa acontecer.

    Cristina Pecequilo Se a gente estivesse em tempos normais, o Brasil deveria condenar esse ataque unilateral. Mas, infelizmente, hoje a gente tem uma, digamos assim, submissão aos Estados Unidos. Eu acho, na verdade, que o Itamaraty está tentando evitar alguma declaração mais forte. Mas, como a gente tem um ministro das Relações Exteriores e um presidente pró-Trump, eventualmente deve sair alguma coisa dizendo que foi bom. Infelizmente. O ideal seria que a gente vivesse num mundo de equilíbrio, que não é o que nós temos.

    O petróleo é um ponto central nesse conflito?

    Gunther Rudzit Sem dúvida alguma, é a grande preocupação do mundo. E um dos grandes motivos que a guerra também não interessa a ninguém. A pressão internacional vai ser muito grande para que não haja esse escalonamento. Mas vai ter, não tem como. O governo iraniano não tem como não retaliar. Não é a toa que o governo chinês foi um dos primeiros a se pronunciar. A economia chinesa já está se desacelerando, vai crescer só 6% este ano, o que para eles é uma preocupação grande, se não passar disso eles podem ter problemas internos. É uma preocupação do mundo, e é isso que o brasileiro tem que entender. Estourou lá, cai no nosso bolso aqui. Porque subir o preço do petróleo, a Petrobras vai ter que subir os derivados, se subiu os derivados, sobe o transporte de mercadorias, isso gera inflação e o Banco Central não pode mais baixar juros. É isso que o brasileiro tem que entender e prestar atenção, porque a ligação é direta.

    Leonardo Ramos Pouco tempo atrás o Irã declarou ter encontrado mais uma bacia de petróleo. Seguramente também importa. Mas a questão que a gente tem que pensar é o interesse russo e chinês no processo. São dois Estados importantes também, que não chegam a se comparar com os Estados Unidos em termos de capacidade, mas que são relevantes. A grande questão é até que ponto esses dois vão fazer frente. Diferentemente do que foi no início dos anos 2000, quando a diferença de poder entre eles era muito maior. Quando se tem aquela primeira questão do Iraque, os dois se colocam contra, mas não tem a capacidade de se colocar abertamente nessa posição. Acho muito pouco provável que essas potências fiquem só observando, passivas.

    Cristina Pecequilo Ela sempre vai ser central, desde a soberania do Irã, desde os anos 1950. Toda a relação entre Estados Unidos e Irã passa obrigatoriamente pela questão do petróleo. Não tem como evitar isso.

    O que vem daqui pra frente?

    Gunther Rudzit Vai mexer com o mercado do mundo inteiro, como já mexeu. O que o Irã vai fazer, ninguém sabe. Pode ser um único atentado contra um grande representante americano, como pode ser uma série de atentados, como pode ser de novo atacar as refinarias sauditas. Está tudo em suspense agora. A única certeza é que o Irã vai retaliar. Eu arrisco dizer que o regime iraniano vai retaliar até para conseguir se manter no poder. Porque, senão, perde o apoio popular. Pouco mais de um mês atrás, houve um monte de protestos contra o governo por causa de um aumento de 50% no preço da gasolina. Hoje, não tem ninguém protestando contra o governo, está todo mundo apoiando o governo. E ele não vai agir? Duvido.

    Leonardo Ramos Vai ter uma consequência no mercado internacional que já está tendo e vai se manter. Acho que a própria Rússia vai aproveitar desse processo para ter uma ganho nas exportações de seu petróleo ou nas negociações. A Venezuela acaba ganhando com isso também. Quem vai dançar é a gente, um pouco. Isso geraria um desdobramento de aumentar a influência dos Estados Unidos na região, mas vai acabar acontecendo o contrário, e aumentar a importância do Irã, a depender de sua resposta no curto e médio prazos. Se for mais retórica, a tendência é essa. Se for mais efetivo, aí é outra história.

    Cristina Pecequilo Acho que a gente vai ver os aliados tradicionais do Trump o apoiando, principalmente o Reino Unido, que está envolvido com essa questão do Brexit, mas faz parte dessa aliança, dessa agenda neoconservadora mais radical e belicista de apoiar esse tipo de ação. A gente vai ter esse lado apoiando. E aí a Rússia e a China vão se posicionar contra, e o restante da comunidade internacional vai ficar naquela: vamos condenar mas ao mesmo tempo não vamos nos indispor muito com o Trump. Vai ficar sempre um pouco em cima do muro. E com as Nações Unidas perdendo muito a força. Eles acabam ficando como coadjuvantes.

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