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Por que a Holanda não quer mais ser chamada Holanda

Países Baixos investem o equivalente a quase US$ 1 milhão em estratégia de ‘reposicionamento de marca’ para 2020

A Holanda tomou uma resolução radical no Ano Novo de 2019 para 2020: investir o equivalente a US$ 1 milhão numa campanha internacional de “reposicionamento de marca”. A marca, no caso, é o nome do país.

A partir de janeiro de 2020, o que, em português, é conhecido como “Holanda” passará a se chamar “Países Baixos”. Em inglês, a troca será de “Holland” por “Netherlands”.

Nada muda geograficamente. A mudança está restrita apenas ao nome do país. De 2020 em diante, todas as embaixadas, consulados, instituições universitárias e empresas da Holanda terão de apresentar-se no exterior como instituições dos Países Baixos.

É impossível prever se a mudança vai pegar. Como muitas resoluções de Ano Novo, essa também pode se mostrar difícil de cumprir. Ainda assim, a resolução está tomada e a aposta está feita.

O burburinho em torno da campanha de mudança de nome vem chamando a atenção da imprensa internacional, com publicações em países europeus e nos EUA. A repercussão parece ser, em si, um dos resultados esperados da estratégia que tem na alavancagem do turismo sua principal ambição.

O que é a Holanda

Os Países Baixos são divididos em 12 regiões ou províncias, que, grosso modo, podem ser comparadas com os Estados brasileiros ou com os departamentos que compõem a divisão político-administrativa de qualquer país.

O nome “Holanda” refere-se a apenas 2 dessas 12 regiões dos Países Baixos – a Holanda do Norte e a Holanda do Sul, ou Holanda Setentrional e Holanda Meridional, dependendo da tradução para o português.

Essas duas regiões, chamadas de Holanda, são as mais conhecidas e visitadas dos Países Baixos. A capital, Amsterdã, por exemplo, fica na Holanda do Norte. O porto de Roterdã, um dos mais importantes da Europa, e a cidade de Haia, sede de importantes órgãos judiciais internacionais, ficam na Holanda do Sul. O resto do país é muito pouco conhecido.

Como a região da Holanda é muito mais conhecida, rica, visitada e influente que o resto do país, o nome “Holanda” ficou. Mas a “culpa” não é só dos turistas. Os próprios holandeses contribuem para a confusão. O site oficial “holland.com”, por exemplo, é apresentado como “o guia oficial de visita à Holanda” – quando, na verdade, deveria dizer “guia oficial de visita aos Países Baixos”, uma vez que promove o turismo em todo o país, e não apenas na região chamada Holanda.

O país é em alguma medida vítima do próprio sucesso turístico, pois recebe 18 milhões de visitantes por ano, enquanto a população nativa não passa de 17 milhões. Quase todos os turistas ficam concentrados nas duas regiões “holandesas”, enquanto o restante do país é praticamente desconhecido.

A campanha de reposicionamento da “marca” ocorrerá num ano em que há Jogos Olímpicos, em Tóquio (onde o país já apresenta-se como Países Baixos, embora seja chamado de Holanda nas transmissões esportivas em português), e o Festival Europeu da Canção, ou Eurovision, que ocorre desde os anos 1950 e que, este ano, será nos Países Baixos. Os dois eventos, de exposição global, devem ajudar a projetar o nome “Países Baixos” mundialmente.

Um reino que chega ao Caribe

A confusão de nomes e identidades diverte os próprios holandeses. Na internet, há uma coleção de vídeos informativos que, num tom irônico, tenta explicar as divisões geográficas do país.

Como uma das maiores potências ultramarinas dos séculos 16 e 17, os holandeses possuem ainda hoje territórios nas Antilhas. O Reino dos Países Baixos têm, além da Holanda (ou agora, Países Baixos) outros três países autônomos: Aruba, Curaçao e Saint Martin, que são pequenas ilhas ou arquipélagos com moedas próprias e governos próprios, mas, ainda assim, ligados ao Reino dos Países Baixos.

Além desses três países autônomos que fazem parte do Reino, há ainda três cidades localizadas nas Antilhas que são consideradas cidades dos Países Baixos e não países autônomos, são elas: Boniare, Santo Eustáquio e Saba. Essas cidades têm uma classificação peculiar. Elas não estão ligadas a nenhuma das 12 províncias dos Países Baixos e também não usam o Euro, mas o dólar.

Todos esses entes administrativos – países e cidades que fazem parte do Reino dos Países Baixos nas Antilhas – são parte da União Europeia e seus cidadãos são reconhecidos como cidadãos europeus.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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