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Como o cinema atual trata de conflitos de classe

Tensão entre ricos e pobres foi abordada por diversos filmes em 2019, frequentemente pelas lentes de gêneros como terror e suspense

    A desigualdade de renda é um dos temas que definiram a década de 2010, no Brasil e no mundo. Não à toa, o tema aparece em uma série de filmes lançados em 2019.

    O sul-coreano “Parasita”, os americanos “Coringa” e “Entre facas e segredos” e o brasileiro “Bacurau”, só para citar alguns, encenam, muitas vezes de forma sangrenta, as tensões entre ricos e pobres.

    Entre essas produções, é comum o uso de recursos narrativos de gêneros como terror e suspense. Em vários deles, o desfecho é favorável ao lado mais fraco (“Bacurau”, “Entre facas e segredos”), gerando uma espécie de catarse no espectador. Já outros, como “Parasita”, além de não oferecerem uma saída, tampouco opõem os dois lados da disputa de forma esquemática.

    O tema não é novidade no cinema, mas chama atenção por ser uma questão central para tantos filmes dessa safra. “A ira de classe na tela grande proporciona uma reflexão sobre o desespero e a frustração no nosso presente do mundo real, onde o fosso entre segurança e ansiedade, tanto aqui [nos Estados Unidos] quanto no exterior, é ainda mais assombroso”, escreveu a crítica de cinema americana Alison Willmore em uma análise conjunta dos filmes de 2019 que tratam do assunto publicada na revista Vulture.

    Além de ressoarem pela adequação do tema ao contexto político mundial, a profundidade e a boa comunicação desses filmes com o público se deve ao trabalho de diretores outsiders da indústria tradicional, como Bong Joon-ho (de “Parasita”) e Lorene Scafaria (de “As golpistas”), segundo afirma uma reportagem publicada pelo site Insider. O primeiro começou a carreira em seu país antes de fazer filmes nos EUA, e Scafaria havia feito apenas filmes de porte menor. O olhar de ambos e de outros cineastas por trás dessas produções foi capaz de capturar de maneira eficaz “o tema visceral e conectado ao espírito do tempo da vingança da classe trabalhadora”.

    O contexto por trás da temática

    No caso específico dos EUA, país de origem de uma parte significativa das produções do ano que abordam a temática, a crítica Alison Willmore aponta que o que surpreende nessa tendência é que ela tenha demorado tanto para se fazer sentir nos multiplex do país.

    Ela lembra a marca recorde atingida pela desigualdade de renda nos Estados Unidos em 2019 e define o presidente Donald Trump como um símbolo da “tirania da riqueza herdada e do nepotismo”.

    Uma outra análise conecta os lançamentos ao clima das primárias presidenciais do Partido Democrata, durante as quais os pré-candidatos Bernie Sanders e Elizabeth Warren investiram contra bilionários, defendendo a taxação de grandes fortunas.

    O cineasta brasileiro Guto Parente, de “O clube dos canibais”, outro título brasileiro que faz parte dessa onda, atribui a representação violenta desses embates nas telas à virulência crescente dos discursos dos políticos. “Estamos vivendo um momento em que os donos do poder não estão mais dispostos a fingir nenhum tipo de humanismo”, disse o diretor ao jornal Folha de S. Paulo.

    Após uma redução da pobreza do índice de desigualdade na década anterior, o Brasil vive atualmente o ciclo de aumento de diferença de renda de ricos e pobres. Já a Coreia do Sul é um dos países mais ricos da Ásia e, embora tenha reduzido desde o século 20 o número de pessoas em extrema pobreza, tem visto a desigualdade de renda aumentar nas últimas duas décadas.

    Embora os filmes reflitam a realidade e as idiossincrasias do capitalismo de seus respectivos países, também tratam de um mal estar econômico e social mais amplo.

    “Aqui estamos, em 2019, vivendo na era de ‘Parasita’. A crise financeira foi internacional, claro, e o resultado é um mundo no qual os mais pobres precisam lutar pelos restos enquanto os ricos continuam [a viver] no luxo”, resume um texto publicado no site Entertainment Weekly a respeito da onda de filmes sobre a disputa de classes.

    Exemplos de filmes

    ‘Nós’, Jordan Peele

    Uma família de classe média alta viaja para a praia com os filhos. Eles se tornam reféns de seus duplos, vindos literalmente do subterrâneo da sociedade americana.

    ‘Coringa’, Todd Philips

    As explosões violência de um homem pobre, com problemas de saúde mental, iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City.

    ‘The hunt’, Craig Zobel

    Um grupo descobre ter sido escolhido como alvo de um jogo de caça pela elite, até que uma das vítimas passa a revidar e a matar os caçadores um a um. O lançamento do filme foi adiado indefinidamente após a ocorrência de tiroteios em massa nos EUA em agosto de 2019, um mês antes de sua estreia.

    ‘Ready or not’, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett

    Uma mulher recém-casada com o herdeiro milionário de uma família que fez sua fortuna fabricando jogos de tabuleiro é forçada a participar de um jogo de esconde-esconde como ritual de iniciação, que se revela uma caçada sangrenta com o objetivo de assassiná-la.

    ‘As golpistas’, Lorene Scafaria

    Após a crise de 2008, strippers de um clube de Nova York começam a aplicar golpes em seus clientes, homens ricos de Wall Street, roubando milhares de dólares de suas contas bancárias.

    ‘Entre facas e segredos’, Rian Johnson

    Um escritor famoso, patriarca de uma família abastada, é encontrado morto dentro de sua propriedade. Seus parentes, gananciosos por sua herança, se tornam suspeitos e a investigação revela intrigas entre os personagens. Os empregados da casa, principalmente a cuidadora Marta, também são parte do mistério.

    ‘Parasita’, Bong Joon-ho

    Trata da relação entre duas famílias: os Kim, que são pobres e vivem num porão, e os Park, abastados e habitantes de uma mansão luxuosa. Os primeiros irão se “infiltrar” um a um na vida da família rica, empregando-se em diferentes funções de seu cotidiano.

    ‘Bacurau’, Juliano Dornelles e Kleber M. Filho

    Em um futuro próximo, uma vila sertaneja no oeste de Pernambuco, Bacurau, se torna alvo de um ataque estrangeiro e seus habitantes se unem para resistir às investidas sanguinolentas dos invasores.

    ‘O clube dos canibais’, Guto Parente

    Um casal da elite é membro do “The Cannibal Club”. Seu hobby é matar e fazer churrasco com a carne dos caseiros que contratam. A mulher coloca sua vida e de seu marido em risco quando descobre sem querer um segredo do líder do clube, um importante parlamentar.

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