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A busca por um dos suspeitos de atacar o Porta dos Fundos

Polícia realiza operação na véspera do Ano Novo. Homem apontado como participante do atentado já agrediu secretário do Rio

    A polícia do Rio realizou buscas na terça-feira (31) para tentar prender temporariamente Eduardo Fauzi Richard Cerquise, apontado como um dos cinco suspeitos de atacar a produtora do grupo humorístico Porta dos Fundos, ocorrido na zona sul, na véspera de Natal. Ele foi identificado a partir de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça e de imagens de circuitos de segurança no entorno da produtora.

    Os investigadores percorreram bairros da zona oeste, da zona norte e do centro da cidade, mas não acharam Cerquise. O suspeito passou a ser considerado foragido. A Polícia Civil do Rio divulgou uma oferta de R$ 2 mil como recompensa por informações sobre seu paradeiro.

    Segundo os policiais, Cerquise era o único suspeito que não utilizava capuz na ação, durante a qual um grupo jogou coquetéis molotov contra a fachada da produtora. As garrafas estouram com o impacto e espalham um líquido inflamável. Um segurança quase foi atingido. Ele conteve o fogo.

    Mesmo foragido, Cerquise publicou um vídeo no YouTube na quarta-feira (1) em que aparece dentro de uma residência, chama os humoristas do Porta dos Fundos de "bandidos" e pede orações. Apesar o discurso contra o grupo, ele não comenta o ataque à produtora no vídeo. A data da gravação não foi informada.

    As apreensões na casa do suspeito

    A polícia encontrou na casa do suspeito, que fica na Barra da Tijuca, zona oeste, R$ 119 mil em dinheiro, munição e uma arma falsa. Os investigadores apreenderam também um computador e uma “camisa de entidade filosófico-política”, não especificada.

    O Eduardo [Cerquise] tem um perfil violento e antagônico. Tem livros ligados à religião cristã e ao islamismo, esses dados foram vistos hoje na busca e apreensão. Ele é um empresário de classe média alta. Ainda devemos identificar os demais autores do ataque

    Marco Aurélio de Paula Ribeiro

    delegado da 10ª Delegacia de Polícia, em Botafogo

    Ainda segundo o delegado, o motorista de um táxi usado por Cerquise na fuga também foi identificado, mas não teve seu nome revelado.

    Quem é o suspeito alvo das buscas

    Cerquise já havia aparecido no noticiário nacional anteriormente. Em 2013, ele foi preso por agredir o então secretário municipal de Ordem Pública do Rio, Alex Costa. O episódio ocorreu durante uma operação de fechamento de estacionamentos irregulares na região central da cidade.

    “Seu verme, se você não der um jeito de acabar com todos esses processos que estão na polícia, eu vou te dar porrada até você não aguentar mais”, gritou Cerquise antes de dar um soco no então secretário.

    O agressor, fundador de uma associação de guardadores de veículos, chegou a ser condenado a quatro anos de prisão pela Justiça por lesão corporal. Cerquise pôde responder em liberdade.

    Segundo a polícia, o agressor do ex-secretário, agora apontado como suspeito de atacar a produtora da trupe Porta dos Fundos, tem mais de 15 anotações criminais por ameaça e agressão.

    Segundo o jornal O Globo, ele também é investigado por envolvimento com uma milícia que atua em estacionamentos rotativos no centro da cidade. Cerquise é filiado ao PSL desde 2001 e presidia a FIB (Frente Integralista Brasileira) do Rio de Janeiro. Quando seu nome apareceu como suspeito do ataque ao Porta dos Fundos, nesta terça-feira (31), a FIB divulgou sua expulsão.

    O radicalismo e a questão do terrorismo

    No dia seguinte ao atentado, um grupo que se apresenta como Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira reivindicou a autoria do ataque incendiário. Num discurso de pouco mais de dois minutos, postado no Youtube, um homem vestindo capuz e com a voz distorcida por efeitos de áudio lê, sentado, um manifesto.

    “Reivindicamos a ação direta revolucionária que buscou justiçar os anseios de todo o povo brasileiro contra a atitude blasfema, burguesa e antipatriótica que o grupo de militantes marxistas culturais Porta dos Fundos tomou quando produziu seu especial de Natal”, dizia o texto lido, fazendo referência ao especial de Natal de 2019 da trupe humorística que está sendo exibido na Netflix. Nessa paródia, batizada de “A Última Tentação de Cristo”, Jesus é retratado como homossexual.

    No mesmo dia, a direção FIB (Frente Integralista Brasileira) disse que não conhecia e não reconhecia os autores do vídeo. Em comunicado publicado em sua página na internet, a entidade tratou os homens que aparecem encapuzados nas imagens como um “suposto grupo integralista”.

    O integralismo é um movimento fascista de extrema direita, inspirado no fascismo italiano, mas crítico ao componente racista do nazismo alemão. Seus membros adotam comportamento e indumentária militarizadas e defendem valores cristãos moralmente conservadores e ultranacionalistas. O movimento nasceu nos anos 1930 e praticamente desapareceu desde então, até reaparecer como associação civil sem fins lucrativos em 2005, com sede nacional em São Paulo.

    A polícia investiga o caso como “explosão e tentativa de homicídio” - pelo fato de o fogo quase ter atingido o segurança da produtora -, sem relacioná-lo, a princípio, com terrorismo. Se as investigações apontarem, no futuro, para um ato de terror, o caso terá de ser federalizado, pois passará a ser submetido à Lei Antiterrorismo, que prevê a atuação da Polícia Federal.

    “Nenhuma linha de investigação está sendo descartada. Estamos apurando se é um ato isolado ou se há ligação com alguma entidade. As peças periciais estão sendo produzidas”, afirmou o delegado responsável pelo caso.

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