Como uma troca de prisioneiros reaproxima Ucrânia e Rússia

Liberação de 200 detidos marca retomada de diálogo que pode pôr fim a cinco anos de disputas armadas pela região do Donbass

    Os governos da Ucrânia e da Rússia concluíram no domingo (29) o intercâmbio de 200 prisioneiros capturados ao longo dos últimos cinco anos na guerra pelo Donbass.

    As negociações que levaram à troca desse grupo de prisioneiros foram intermediadas pelos governos da França e da Alemanha. As duas potências europeias interpretaram o intercâmbio como o gesto mais promissor desde 2014 na busca por um acordo de paz definitivo na região.

    Pelo menos 13 mil pessoas já morreram nos últimos cinco anos em disputas pelo Donbass – uma zona localizada na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, onde grupos armados ligados ao governo russo tentam à força separar-se do controle ucraniano para entrar na órbita política de Moscou.

    Os movimentos separatistas ganharam força em 2014, depois que moradores de uma outra região da Ucrânia, a Península da Crimeia, decidiram por plebiscito unir-se à Rússia. O resultado da votação – nunca reconhecido pela própria Ucrânia, nem pelas Nações Unidas – estimulou grupos separatistas do Donbass a fazerem o mesmo e, desde então, a região vive um impasse armado.

    Influência europeia e relutância americana

    A troca de prisioneiros realizada no domingo (29) é parte de um pacote de medidas de aproximação entre ucranianos e russos, formulado em reunião em Paris, no dia 9 de dezembro, por um coletivo apelidado de “formato Normandia” – em alusão à região francesa onde deu-se a cúpula entre os governos francês, alemão, ucraniano e russo, em 9 de dezembro.

    O movimento diplomático articulado na Normandia é um trunfo da política externa do presidente francês, Emmanuel Macron, que se esforça para atrair o presidente russo, Vladimir Putin, para sua órbita de influência.

    Ainda em agosto, quando recebeu Putin para um encontro bilateral na cidade francesa de Brégançon, Macron declarou que “o porvir da Rússia é europeu”. Ele disse também que acredita numa “Europa que vai de Lisboa a Vladivostok”, em referência à cidade do extremo leste do território russo, na latitude do Japão.

    As declarações contrastam com o clima de Guerra Fria que costuma marcar as relações da Rússia com o Ocidente, sobretudo no que diz respeito aos países membros da Otan (Aliança do Tratado do Atlântico Norte).

    Macron, que enfrenta há 26 dias uma onda histórica de greves e manifestações contra sua proposta de reforma da Previdência, busca com insistência no front externo os logros que lhe faltam na política doméstica.

    A chanceler alemã, Angela Merkel, que já anunciou a intenção de aposentar-se da política em breve, faz dobradinha com Macron em muitas dessas iniciativas. Esse movimento casado ficou ainda mais forte após o crescimento da extrema direita ultranacionalista na Europa e particularmente após o Brexit, nome dado à decisão britânica de abandonar a União Europeia.

    Para Merkel e Macron, a aproximação com Putin é também uma forma de compensar a fragilidade pela qual a Otan passa desde a posse do presidente americano, Donald Trump.

    Os americanos são, desde a Segunda Guerra (1939-1945), um dos pilares dessa aliança militar. Trump, porém, passou a bombardeá-la com críticas, desde a campanha eleitoral de 2016. O principal argumento do presidente americano é de que Washington investe muito mais que seus aliados em defesa, carregando assim um peso desproporcional.

    Além disso, Ucrânia e Rússia são duas peças complicadas no xadrez político doméstico de Trump. Ele é acusado pela Câmara dos Representantes de ter pressionado o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a investigar negócios de seu rival democrata Joe Biden no país do Leste Europeu. Esse pedido é o eixo em torno do qual se move o pedido de impeachment de Trump, que após passar pela Câmara em 2019, deve ser votado no Senado no início de 2020.

    O significado para russos e ucranianos

    O presidente da Ucrânia celebrou a liberação de seus 76 prisioneiros. Já a Rússia não tratou do tema com o mesmo alarde. Embora o presidente Vladimir Putin seja o ator diplomático presente em todas as negociações do chamado “formato Normandia”, são os separatistas das autodenominadas repúblicas de Donestsk e Lugansk, no Donbass, quem tomam as ações.

    Em tese, a Rússia encerrou sua participação no conflito em 2014, quando a Crimeia decidiu por plebiscito unir-se ao governo em Moscou. Na ocasião, 96,7% dos eleitores da Crimeia optaram pela separação da Ucrânia, embora o resultado nunca tenha sido reconhecido internacionalmente.

    Putin diz não ter nada a ver com a ação dos separatistas ucranianos, que reivindicam status de repúblicas soberanas, embora não o sejam. A confusão é parte do ambiente belicoso instalado no Donbass desde 2014.

    Ao assumir a presidência, em maio, Zelensky – um ator de comédia sem experiência política prévia nenhuma – anunciou que renunciaria ao uso da força para retomar as repúblicas separatistas do Donbass. A partir daí, as negociações no “formato Normandia” recobraram forças, desembocando na troca de prisioneiros do domingo (29).

    Entre os libertados, um brasileiro

    O comunicado da chancelaria francesa a respeito da liberação não especifica o número de prisioneiros trocados, nem a identidade deles. Algumas agências de notícias falam em 200 prisioneiros. Outras, em 196.

    As informações são normalmente vagas nessas situações, pois envolvem questões estratégicas e de defesa para as forças envolvidas. Toda operação de troca de prisioneiros levou cinco horas no total.

    É sabido, entretanto, que entre os presos havia um brasileiro. O Nexo perguntou ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil pela identidade e o paradeiro dele. O Itamaraty confirmou a presença de um brasileiro no grupo, mas disse que “em atendimento ao direito à privacidade dos envolvidos, bem como à Lei de Acesso à Informação e ao Decreto 7.724, não pode fornecer informações adicionais sobre o assunto”.

    O órgão disse ainda que o brasileiro “por decisão própria, optou por ser transferido para a Rússia”. O site de notícias russo Sputnik, ligado ao governo Putin, identificou o prisioneiro como Rafael Lusvarghi, que alistou-se voluntariamente nas forças separatistas no Donbass depois de ter se envolvido nos protestos contra a Copa do Mundo do Brasil, em 2014.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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