Como lidar com informações sobre atentados extremistas

Manual da Unesco discute como abordar 'espetáculos de violência feitos para atrair a atenção do mundo'

A produtora dos vídeos da trupe humorística Porta dos Fundos foi atacada na madrugada do dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Dois coquetéis molotov foram atirados contra a fachada do prédio da empresa, no bairro do Humaitá, zona sul do Rio. Os humoristas não estavam presentes, e as chamas foram controladas por um segurança.

No dia 25 começou a circular um vídeo em que um grupo de homens reivindica a autoria do atentado.Três homens encapuzados, fardados e usando luvas aparecem, dois em pé e um sentado ao centro, atrás de uma mesa coberta pela bandeira do Brasil imperial. Ao fundo do grupo, uma bandeira com o símbolo da Ação Integralista Brasileira, um grupo de inspiração fascista fundado na década de 1930.

Eles se dizem parte de um grupo chamado Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira. Aparecem imagens que são, supostamente, do momento do ataque. Eles se dizem cristãos, nacionalistas, antiburgueses e criticam o especial de Natal produzido pelo Porta dos Fundos para a Netflix. Entre outros motivos, a obra gerou polêmica por figurar um Jesus Cristo gay.

O debate sobre se é terrorismo

O vídeo está sendo investigado pela Polícia Civil, que diz que ele é real, e que quatro homens estão envolvidos no atentado. A polícia investiga os crimes de explosão e tentativa de homicídio. Segundo o secretário da Polícia Civil do Rio, o crime de terrorismo não é investigado no momento.

Antes de a polícia se manifestar oficialmente, o humorista Fábio Porchat, que integra o Porta dos Fundos, havia classificado o atentado como um ato terrorista. "Qualquer ato terrorista precisa ser resolvido o mais rápido possível para mostrar que o país, o Estado, estão atrás disso, estão empenhados em não deixar que isso aconteça", disse. Alguns sites de esquerda e veículos de imprensa institucional também usaram a mesma classificação

A definição do que é terrorismo é disputada. Em entrevista ao Nexo, em 2016, a especialista em relações internacionais Cecília Baeza afirmou que “Há décadas que as Nações Unidas tentam estabelecer essa definição, sem sucesso. Até o momento, cada Estado ou organismo internacional adota sua própria definição em função das suas problemáticas de segurança interna e externa”.

No Brasil, uma definição importante sobre o que é enquadrado como terrorismo é de 2016, segundo descrição da Lei Antiterrorismo, instituída meses antes de o país sediar a Olimpíada.

Entre outros pontos, podem ser enquadrados como terrorismo atos que tenham como motivação “xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião” e finalidade “provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.

Em entrevista concedida ao Nexo após o ataque ao Porta dos Fundos, o historiador Guilherme de Jesus France, autor do livro “As Origens da Lei Antiterrorismo no Brasil”, afirmou que acredita que o ataque ao Porta dos Fundos tem elementos para ser enquadrado na legislação antiterrorismo.

Mas ele afirmou também que a decisão sobre enquadrar um ato como terrorista ou não tem um elemento político. Quando um ato violento recebe essa classificação, tende a ser “deslegitimado, excluído do debate público”.

As origens do terrorismo

O primeiro uso da palavra terrorismo vem da repressão realizada pelo Estado comandado por Robespierre pós Revolução Francesa, no final do século 18. O termo se referia às ações brutais do Estado como forma de reprimir ameaças políticas. Com o tempo, passou a ser utilizado de forma geral para se referir ao uso ilegítimo de violência para atingir fins políticos.

Em um artigo publicado em março de 2019 no jornal americano The Washington Post, o colunista Max Boost, autor do livro “Invisible Armies: An Epic History of Guerrilla Warfare from Ancient Times to the Present” (“Exércitos invisíveis: Uma história épica das disputas entre guerrilhas, dos tempos antigos até o presente”, em uma tradução livre) afirma que a propagação de atos terroristas pelo mundo ocorreu a partir do século 19.

Ele atribui o crescimento da relevância desses atentados a quatro fatores: o surgimento de armas baratas e potentes, como a dinamite; a propagação da educação pública, que contribuiu para a radicalização de parte dos estudantes; o surgimento de ideologias como marxismo, anarquismo, nacionalismo e fascismo; e o crescimento de mídias de massa, como jornais mais baratos e, depois, filmes e televisão, que permitem que os atentados se propaguem, junto a sua mensagem.

A questão da divulgação dos atos

O vídeo em que os homens reivindicam a autoria do ataque ao Porta dos Fundos foi rapidamente replicado por sites alinhados à esquerda. O mesmo não ocorreu na maior parte dos veículos da imprensa tradicional, que optaram por publicar reportagens tratando do conteúdo da filmagem, sem mostrá-la.

Historicamente, instituições de mídia lidam com um dilema quando recebem conteúdo relativo a atentados violentos. Normalmente, o objetivo desses atentados é exatamente obter publicidade. Ao reproduzir vídeos em que criminosos propagandeiam seus atos, veículos materializam esse objetivo. Por outro lado, é dever de um veículo de imprensa informar o público sobre o que se sabe a respeito de atos violentos importantes.

Atualmente, essa questão é amplificada pelo fato de que é possível para qualquer um veicular vídeos do tipo em mídias sociais como YouTube, Facebook, Twitter, WhatsApp ou Instagram. Não há necessidade de passar pelos filtros dos veículos tradicionais. Dessa forma, o dilema sobre como lidar com o conteúdo, decidindo se ele deve ser reproduzido ou não, é em grande medida transmitido para o próprio público.

Em 2018, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) publicou um manual voltado para jornalistas, que discute como lidar com informações sobre atentados terroristas.

“A relação entre o terrorismo e a mídia é complexa e tensa. Nos piores momentos, é uma relação simbiótica perversa – grupos terroristas planejam espetáculos de violência feitos para atrair a atenção do mundo, e a mídia é incentivada a realizar uma cobertura completa, devido ao enorme interesse do público”, diz o manual.

O documento traz algumas diretrizes sobre como a mídia pode lidar com atos terroristas. As mesmas regras podem ser adaptadas para o público que desejar evitar embarcar em informações falsas e pânico.

A necessidade de cautela

É necessária cautela ao lidar com as informações. “Quando diante de um atentado terrorista, o reflexo da mídia consiste em tentar indicar o nome do autor o mais rápido possível. O risco é se apressar e fazer acusações fundamentadas em semelhanças com outros atentados, aceitar cegamente teorias oficiais e até mesmo preconceitos. Em muitos casos, a mídia extrapola os fatos com base em pistas insuficientes e formula teorias que acabam se mostrando falsas”, diz o documento.

Agir contra rumores

Como há muita propagação de informações, o documento afirma que é dever da imprensa filtrar o que chega e evitar informações sensacionalistas. A facilidade com a qual as informações circulam torna necessário “verificar, filtrar e interpretar esses fluxos, que circulam em meio a uma desordem de rumores, extrapolações”. “Essa mistura de informações coletadas por uma equipe editorial e outras fontes, juntamente com reações e comentários, constantemente empurra a mídia para o limite da verdade”. “A mídia deve criar uma equipe de monitoramento que seja responsável por rastrear e desconstruir rumores.”

Comedimento

O documento afirma que é importante garantir que os ataques não ganhem mais relevância do que têm, como forma de evitar o pânico popular. “Ao cobrir atos terroristas, o tom é crucial para manter a proporcionalidade das reações da população e evitar que o medo seja capaz de dividir a sociedade. Controlar o fluxo de informações e garantir sua veracidade e precisão são práticas jornalísticas que podem evitar que o medo se transforme em p��nico ou paranoia.” “A mídia deve aprender a medir seu “tom”, não alimentar a “máquina de ruído”, não contribuir para disseminar a ansiedade ou alimentar a raiva, e não transformar o terrorismo em um fenômeno ou fazer com que seus atores pareçam maiores do que realmente são”, diz a Unesco.

O dever de ir a fundo

O jornalismo não deve buscar justificar os crimes, mas tampouco pode se furtar de trazer compreensão sobre o que os motiva. “Um dos deveres do jornalismo consiste em incluir a complexidade, recusando a negação da realidade na afirmação de que “não há nada para se entender”, com o pretexto de que os terroristas são “bárbaros, e ponto final”. As regras essenciais da ética jornalística abrangem esse dever na busca da verdade de forma independente”, diz o documento.

Imparcialidade

Atos terroristas podem levar ao tensionamento do debate público, com chamados ao patriotismo, à censura ou a medidas enérgicas. Nesse contexto, a mídia deve buscar se manter imparcial. “A mídia deveria tomar uma posição contra o terrorismo, escolhendo seu lado? A maior parte dos jornalistas sentem repulsa pelo uso de violência contra civis, e seus editoriais refletem principalmente sua indignação. Mesmo assim, a inclinação contra o terror nunca deve levar à violação dos valores fundamentais do jornalismo – em especial o dever de servir à verdade”.

Sem autocensura

A mídia deve estar ciente do impacto das informações que divulga, mas deve também prezar pelo seu dever de informar, diz o documento da Unesco. “Embora a ética jornalística clame por um ‘sentimento de humanidade’, isso não pode comprometer a principal função do jornalismo, que é informar sobre assuntos de interesse público sem se intimidar pelo estado de espírito do público ou por ordens das autoridades”. Quanto ao discurso de ódio que tende a se propagar nessas situações, “a contra-argumentação é geralmente preferível à supressão do discurso. E qualquer resposta que limite o discurso deve ser cuidadosamente ponderada”.

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