Como as famílias estão no centro da guerra dos streamings

Plataformas estão apostando em conteúdo familiar e infantil. Formação de catálogo com apelo intergeracional pode ser chave para fidelizar usuários

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    Os programas voltados para famílias e crianças podem ser o fiel da balança para determinar os vencedores da guerra dos streamings, disputa comercial em curso entre plataformas provedoras de conteúdo audiovisual.

    A disputa, que é mais acentuada nos EUA, ocorre em duas frentes: a primeira se dá pela entrada de novos nomes em um mercado outrora praticamente monopolizado pela Netflix; a segunda, pela produção e licenciamento de conteúdos atrativos para os usuários.

    O conteúdo infantil é pensado e direcionado especialmente para as crianças. Já o conteúdo para a família traz elementos que têm apelo para diferentes faixas etárias como, por exemplo, as animações da Pixar e filmes como “ET - O Extraterrestre”, de Steven Spielberg.

    Segundo dados da Nielsen, consultoria americana de pesquisa de mercado, a média de consumo de conteúdo infantil e para a família em serviços de streaming nos Estados Unidos subiu de 5,9 horas semanais para 10,7 horas semanais entre os anos de 2016 e 2018.

    A Netflix tem 158 milhões de assinantes no mundo todo e é o principal serviço de streaming global. De acordo com dados divulgados pela revista americana Variety, 60% dos usuários da plataforma consome algum tipo de conteúdo infantil ou para a família.

    As apostas das plataformas

    Os lucros associados ao segmento infantil e familiar fizeram as plataformas de streaming encomendarem cada vez mais conteúdo para essa fatia de mercado.

    Em 2013, a Netflix assinou um contrato com o estúdio de animação DreamWorks para a produção de 300 horas de conteúdo infantil exclusivo da plataforma. Três anos depois, em 2016, ele foi renovado e seguirá em vigência até o final de 2020.

    Com o acordo, foram anunciadas séries em animação inspiradas em alguma das franquias mais famosas da Universal, conglomerado que é proprietário da Dreamworks, incluindo as bilionárias “Velozes e Furiosos” e “Jurassic World”.

    Além do acordo da Netflix, o Nexo lista abaixo outras apostas das suas concorrentes.

    Apple TV Plus

    Plataforma da Apple lançada em novembro de 2019, estreou com uma nova animação do cachorrinho Snoopy e da Turma do Charlie Brown, com planos para outras duas séries infantis que chegarão no ano de 2020

    HBO Max

    Plataforma da Warner que será lançada nos EUA em maio de 2020, terá em sua estreia os mais de 4 mil episódios de “Vila Sésamo” produzidos entre 1969 e 2019, com planos para o desenvolvimento de 175 capítulos inéditos que serão exclusivos do serviço

    CBS All Access

    Serviço exclusivo dos EUA, lançou em novembro de 2019 sua área de programação infantil, disponibilizando aos assinantes mais de 1.000 episódios de programas para crianças. Em 2020, a plataforma também produzirá conteúdo original e exclusivo.

    Disney+

    Estreou nos EUA em novembro de 2019 trazendo consigo o catálogo completo das animações da Disney produzidas desde os anos 1930, as versões live-action lançadas nos anos recentes e com planos para a produção de conteúdo original e exclusivo, como é o caso da série “Monsters at Work”, que chega em 2020 e continua a trama da animação “Monstros S.A.”, de 2003

    A única plataforma de peso que não tem planos para entrar na disputa por conteúdo infantil é a Amazon Prime. Em junho de 2019, a empresa sinalizou aos grandes estúdios de Hollywood que não tem interesse em investir nessa fatia de mercado, optando por produções direcionadas ao público adulto.

    O que dizem executivos e críticos

    Clarisse Goulart, responsável pelo departamento de desenvolvimento de projetos da produtora Conspiração Filmes, avalia que o investimento nesse tipo de conteúdo está totalmente alinhado ao modelo do streaming. “É algo que faz todo o sentido, as plataformas têm assinatura para toda a família, com um cardápio que atende diversas faixas etárias”, afirmou ao Nexo.

    Para Juliana Capelini, produtora-executiva que trabalhou em “Sítio do Pica-Pau Amarelo” (2012) e “Detetives do Prédio Azul: O Filme” (2017), o conteúdo infantil e familiar dentro dos serviços de streaming é essencial para essas plataformas.

    “É importante que seja um conteúdo que a criança vai assistir, vai gostar e virar fã, mas que o pai e a mãe também possam assistir juntos”, disse ao Nexo. “Por isso temos sempre um elemento de comédia, as estruturas narrativas estão ficando cada vez mais complexas. O conteúdo infantil no streaming é muito importante porque ele engaja a família toda na plataforma”, afirmou.

    Na revista Variety de outubro de 2019, a colunista Elaine Low afirmou que buscar o engajamento do segmento infantil e familiar vai ser a chave para determinar os vencedores da disputa. Para ela, um catálogo de conteúdos originais e/ou exclusivos pode resultar na fidelidade de gerações de usuários com a marca.

    Como os serviços de streaming competem hoje

    A guerra dos streamings se divide em duas frentes: a entrada e a consolidação de concorrentes da Netflix e, então, uma corrida para licenciar conteúdos populares e produzir projetos originais que funcionem como chamarizes de novos assinantes.

    Novos nomes no mercado

    A chegada de concorrentes de peso no mercado é a primeira frente de batalha da guerra dos streamings.

    Em novembro de 2019, a Apple lançou globalmente a plataforma Apple TV+ e a Disney chegou à América do Norte com o Disney+. Em 2020, a Warner lança o serviço HBO Max, e a NBCUniversal debuta a plataforma Peacock.

    Além dos novos serviços, o mercado tem outras empresas que tentam ampliar suas bases de assinantes, como o Amazon Prime Video (disponível no Brasil) e o CBS All Access (exclusivo dos EUA).

    O licenciamento e a produção de conteúdo

    O conteúdo disponível em uma plataforma de streaming é o principal atrativo para os consumidores. Por isso, a guerra entre os serviços também se dá por meio da disputa pelo licenciamento e produção de filmes e séries que atraem usuários.

    Nos EUA, a série “The Office”, que foi ao ar entre 2005 e 2013, é a mais assistida na Netflix. Para trazer esse público para si, a NBCUniversal, detentora dos direitos do seriado, estabeleceu que a produção será exclusiva do Peacock a partir de 2021.

    “Friends”, exibida entre 1994 e 2004, é a segunda série mais assistida na Netflix e deve deixar a plataforma em 2020 para se tornar parte do catálogo do HBO Max.

    Para compensar a perda das suas duas séries mais vistas, a Netflix comprou os direitos de streaming da clássica “Seinfeld”, que deve entrar no catálogo global da plataforma em 2021.

    Além da disputa pelo licenciamento de conteúdos populares, as plataformas apostam em superproduções originais. Embora as produções originais sejam estratégias essenciais desde a concepção dos serviços de streaming, foi mais recentemente que elas começaram a ganhar contornos de blockbuster.

    Na sexta-feira (20), a Netflix lançou “The Witcher”, série de fantasia estrelada por Henry Cavill (“O Homem de Aço”), baseada nos livros do polonês Andrzej Sapkowski. A Amazon promete para 2021 uma série baseada em “O Senhor dos Anéis”, com um orçamento de US$ 1 bilhão, o maior da história da televisão, e também uma série baseada nos livros de fantasia épica “A Roda do Tempo”, do americano Robert Jordan.

    O Disney+ estreou com “The Mandalorian”, a primeira série live-action ambientada no universo de Star Wars. A NBCUniversal anunciou, junto do Peacock, a produção de uma nova versão da premiada ficção científica “Battlestar Galactica”.

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